Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Sem medo de arriscar

Texto publicado na edição #139

Sem medo de arriscar

Sérgio Mudado utiliza as possibilidades narrativas para prender com sucesso a atenção do leitor

> Por ADRIANO KOEHLER

Sérgio Mudado

O romance é a principal forma de expressão literária. É superior ao conto, à novela, à poesia e a todas as demais formas, pois dá ao autor inúmeras possibilidades de se comunicar com o leitor. O escritor pode simplesmente ignorar o leitor ou pode aproximá-lo tanto do romance a ponto de confundi-lo, tomá-lo por outra pessoa, fazendo-o não perceber direito quem está falando ao longo do livro. Quando consegue provocar essa confusão, temos uma obra que fica aberta a várias leituras — o que é sempre interessante.

Em Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta, de Sérgio Mudado, temos um exemplo de um autor que brinca com muitas ferramentas possíveis da narrativa para contar uma boa história e, ao mesmo tempo, jogar o leitor em uma série de dúvidas. Não que deseje confundir o leitor. As ferramentas aqui são utilizadas para fazer o leitor perder a noção da separação entre fato e ficção, entre real e imaginário e, dessa maneira, ter uma obra ainda maior que as 434 páginas impressas em sua mão.

Há um resumo possível para a obra. Juca Peralta é um caixeiro-viajante em Minas Gerais. Estamos no ano de 1939, com o Brasil sob a ditadura de Vargas, Minas sob o domínio do interventor Benedito Valadares Ribeiro (no livro, Bento Antão), o mundo via a escalada nazista acontecer na Europa sem que ninguém se opusesse a ela. Peralta trabalha para a Philips, multinacional holandesa, dirigida em Minas por Van Eik, um holandês que idolatra a rainha Guilhermina I, da Holanda, e despreza a rainha inglesa. Peralta deve partir em viagem novamente para o norte de Minas, para a Região de Montes Claros, para vender o novo lançamento da Philips, o rádio Matador.

No dia em que Peralta conhece a sua missão, Van Eik recebe um telegrama da Philips dizendo que a filial deveria celebrar com todo o corpo de funcionários a chegada do novo modelo, que iria arrasar a concorrência (eis o porquê do nome Matador). Dito e feito. Peralta, matreiro como os mineiros são e conhecedor da boemia e dos lupanares como um bom caixeiro-viajante, acaba aliciando um novato na firma, o jovem Fábio, para uma tarde inesquecível. No caminho, desde encontrar um nazista que mergulhará com seu submarino no Córrego dos Andradas até encontrar um negro da Guiana que acompanha uma ilusionista com conhecimentos da cultura egípcia, passando por Ary Barroso e um bom pedaço dos locais da boemia belorizontina daqueles tempos, Peralta e Fábio se envolvem em uma confusão com Bento Antão que põe em perigo a vida de Fábio. A saída vislumbrada por Peralta é levar o rapaz consigo para Montes Claros, para evitar a morte na mão dos policiais fascistas de Antão.

Os dias no norte de Minas não são nem um pouco calmos. E mais aventuras e desventuras acontecem com os dois personagens principais. Há vários outros personagens importantes, como as duas Marias, a Quatrocentos de Peralta e a Luíza de Fábio, o negro Leonardus Van der Berg, da Guiana, assistente de Cleópatra, a ilusionista, Van Eik, que permanece a distância dos fatos, mas está sempre presente no dia-a-dia de Peralta, os donos dos estabelecimentos comerciais para quem Peralta vende o rádio, as várias prostitutas amigas de Peralta. Enfim, há um caleidoscópio de personagens muito rico ao longo da obra.

Até aí, tudo bem, não há nada de novo. Temos uma boa história com personagens ricos, misturando fatos reais com a ficção. Os jogos de Sérgio Mudado começam quando anuncia que o narrador da história não é ele, mas uma pessoa que saiu da trama para contar o que aconteceu. Até sabermos quem é essa pessoa, ele vai dando pistas da sua identidade e, mesmo que ele a revele quando o leitor já sabe de quem se trata, Mudado consegue manter-nos ali, com o livro na mão. Mas não para por aí. Mudado também brinca com o leitor, ao afirmar que, para o narrador do livro, quem o lê é uma mulher, e não um homem. Sim, Mudado arrisca afirmar o sexo do leitor, pois, em sua opinião, somente a alma feminina seria capaz de entender todos os detalhes da obra.

Mas as brincadeiras de Mudado não param por aí. Em determinado ponto, ele revela que Os negócios extraordinários é um romance que rondava a sua cabeça fazia algum tempo, e que há textos mais antigos sobre a trama nos quais alguns personagens já apareciam. De fato, no meio do livro temos um trecho em que se nota claramente um autor em amadurecimento, ao contrário do restante do trabalho, que mostra uma narrativa mais assertiva. E há outra brincadeira, quando a narradora coloca na história um outro Sérgio Mudado, médico como o autor, mas que não existe de verdade. Quem é real e quem é imaginário? Não é necessário saber, basta ler e curtir.

Esses jogos, longe de parecerem enfadonhos, dão uma dinâmica particular ao livro. A troca da voz narrativa de tempos em tempos acrescenta novas camadas à percepção do leitor, que aos poucos vai perdendo a visão nítida da linha que separa ficção e realidade. O uso de personagens reais misturados aos fictícios e a construção de personagens fictícios com bases fortemente fincadas na realidade (os caixeiros-viajantes, os donos de negócios contadores de causos, políticos, prostitutas, donos de restaurante e bares, etc.) garantem uma agradável confusão na cabeça do leitor.

No entanto, há certo desequilíbrio entre as três partes do livro. Se na primeira parte — Belo Horizonte — e na segunda — Montes Claros —, temos um ritmo vertiginoso de aventuras (muita coisa acontece em um espaço de tempo de uma semana), há uma desaceleração muito forte na terceira — No Sanatório Hugo Werneck. O tempo na terceira parte passa de modo diferente. Claro, há uma explicação lógica para isso, que não pode ser revelada aqui sob risco de se estragar algumas surpresas do romance. Porém, menos falatório e mais ação poderiam ter dado à terceira parte o mesmo ritmo apresentado nas anteriores.

Para quem gosta de escutar “causos” mineiros, o livro é garantia de boas risadas em alguns momentos. Há alguns trechos menos interessantes, pelo menos para quem não se interessa tanto por questões da mitologia egípcia (nesse caso, pode-se sempre lançar mão de um dos dez direitos inafiançáveis do leitor, o de pular páginas), e outros também sobre medicina que poderiam ser pulados sem perdas para o conjunto. Talvez o livro ficasse mais ágil sem esses interlúdios míticos ou fisiológicos, mas o autor deve ter lá suas razões para inseri-los na trama. Mesmo sem eles, porém, já seria uma grande história. Não à toa Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta foi indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura de 2011. Ele tem seus méritos e vale a pena ser lido.

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Sérgio Mudado

Nascido em 1950, em Belo Horizonte, é o quarto filho de um total de oito do arquiteto Tarcísio Silva e de Orphila Mudado Silva. Formado em Medicina pela UFMG, em 1973 — a mesma faculdade de Pedro Nava e João Guimarães Rosa —, é também autor de O quarto selo: a origem secreta da Aids (1989), Uma vez ontem (1997) e Vassallu: a saga de um cavaleiro medieval (2006). É casado, tem três filhos e reside em Belo Horizonte (MG).

O rebuliço da tropa foi tão grande que o animador Ary Barroso, soergueu as sobrancelhas, com uma expressão que dizia: “Meu Deus, quem é toda essa gente?”. E, com sinal de mão, suspendeu o romântico Fox-blue tocado por seu Jazz Band, ordenando o início de um Fox-trot rápido, “Em homenagem aos bravos rapazes que acabam de chegar, honrando a Casa”.

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Sérgio Mudado
Crisálida
434 págs.