Ruído branco

dezembro 2014 / Ruído branco / Seis disparos

Texto publicado na edição #177

Seis disparos

ONDE? Messias, onde estão os sábios? Vejo mestres & doutores — bons especialistas em detalhes, pormenores & particularidades —, mas […]

> Por LUIZ BRAS

ONDE?
Messias, onde estão os sábios?
Vejo mestres & doutores — bons especialistas em detalhes, pormenores & particularidades —, mas não vejo sábios.
Vejo bons escritores disputando comendas & convites pra festas & feiras, mas… Messias, os sábios? Onde estão?
Vejo políticos. Uma infinidade de políticos. Uns bons, outros ruins.
Vejo engenheiros & cirurgiões bastante competentes.
Messias, vejo gente inteligente. Refinada. Erudita.
Mas não vejo sábios. Onde estão?
Mestres & doutores são importantes, camarada, mas não são o suficiente.
Bons escritores, políticos, engenheiros & cirurgiões, gente refinada & erudita, as avenidas estão cheias deles. Isso é ótimo.
Mas não é o bastante.
Messias, talvez os sábios não existam. Talvez não passem de uma antiga lenda mil vezes reformulada.
Pense bem, meu amigo: somente os livros e os filmes falam dos sábios.
Na vida real, você & eu nunca encontramos um, encontramos?
Talvez os sábios — esses seres sem vaidade nem títulos de nobreza, sossegados & carismáticos — sejam só uma idealização infantil.
Sócrates teria sido mesmo um sábio?
Lao Tsé? Confúcio?
Ou teriam sido apenas uns tipinhos refinados-eruditos, mas orgulhosos-irritantes, que esse monstro brincalhão, a posteridade, logo usou pra moldar novos mitos?
Talvez você esteja certo, Messias.
Talvez não existam sábios, mas apenas momentos-lampejos de sabedoria.
Pontos inesperados numa previsível espiral.
Momentos-fagulhas que surpreendem, fazendo cessar o mal-estar e o conflito. Por um instante.

PROCURAM-SE
PanAmérica e Lugar público, de José Agrippino de Paula.
Km 63 e Doramundo, de Geraldo Ferraz.
Piscina livre, Amorquia e Quânticos da incerteza, de André Carneiro.

LITERATURA MARGINAL
Num sarau organizado pelo mestre Ferréz, no Capão Redondo, sugeri que no Brasil há pelo menos duas marginalidades literárias.
Lembra, Messias? Você chegou nessa hora e sentou bem na frente.
A primeira marginalidade, mais conhecida, é a dos escritores da periferia social & econômica, que escrevem sobre sua vivência dramática.
A segunda, menos prestigiada pela grande imprensa e pela academia, é a dos escritores de ficção científica, fantasia & terror.
É por esse motivo, meu amigo, que eu me considero um ficcionista marginal: escrevo ficção científica e meus livros saem por atrevidas editoras alternativas.
Você sabe, essa segunda marginalidade pode até ser invisível para o leitor menos atento, mas não é, de maneira alguma, pequena.
Ela é formada por milhares de guerrilheiros (autores, editores & fãs) agindo clandestinamente nos subterrâneos da cultura botocuda.
Se você quiser conhecer os detalhes mais significativos dessa guerra secreta, o Anuário brasileiro de literatura fantástica, dos incansáveis Marcello Simão Branco & Cesar Silva, é um ótimo começo.
A edição recém-lançada é uma das mais interessantes. Suas quatrocentas páginas analisam não apenas a cena de 2013, mas os últimos dez anos.
Foi uma década de grandes mudanças, Messias. A queda do custo industrial do livro e o fortalecimento da web agitaram o mercado editorial, a produção e o consumo de nossa ficção fantástica.
Essas mudanças, meu amigo, são esmiuçadas num artigo crítico, em dezenas de resenhas e num debate com autores & editores.
Os guerrilheiros renovaram as armas. Nunca os subterrâneos fervilharam tanto.
O anuário de Marcello & Cesar, publicado pela Devir, é um estudo exemplar sobre ficção científica, fantasia & terror. Seu empenho cativará principalmente os pesquisadores e os apaixonados pelos três subgêneros abordados.

PROCURAM-SE
Outra inquisição, Nonadas e A implosão do confessionário, de Uilcon Pereira.
O agressor, Carta à noiva e a.s.a.: associação dos solitários anônimos, de Rosário Fusco.
Panteros, de Décio Pignatari.

RETRATO IMAGINÁRIO DA GERAÇÃO 90
Inédito, possivelmente de 2003, encontrado no fundo falso de um baú de Nelson de Oliveira

A luz, sempre incansável, é a silhueta da alegria. Somos jovens, somos luminosos. (Não, meus irmãos, o que vocês estão vendo não é uma foto do céu estrelado. É um retrato da geração 90. Um retrato imaginário. Está no título.) Manuscritos atravessam a tela do computador, transa trans.

Essa mancha mais saliente à esquerda? É o Fran’s Café da rua Fradique Coutinho, 1.139. Mas não adianta procurar, esqueçam o guia turístico das crateras da lua. (Um mapa não é um mapa, é uma capitulação da mente. Não existe mais Fran’s Café na rua Fradique Coutinho, 1.139. Esse retrato é de 2001.)

Também não adianta procurar 2001 nos registros. Esse ano nunca existiu. (No centro do retrato, Marcelino Freire traduz as ásperas sutilezas do furacão.) A ventania também é a fala de Evandro Affonso Ferreira, de braços abertos, ao lado de Marcelino. A luz, sempre incansável, é a silhueta da alegria.

Manuel da Costa Pinto atravessa paredes, desarma bombas-relógio. Somos jovens, somos luminosos. (O riso enche os túneis. Fugitivos, cavamos em bando até a Casa das Rosas.) Éramos jovens, éramos luminosos, na época em que o mundo existia.

(Fogo, fogo!) As calçadas, meus irmãos, eram melhores quando tudo era inflamável. Ivana Jinkings e Plínio Martins, em chamas, cultivam o papel e a tinta. (O papel que conduz a eletricidade, a tinta que intoxica os amáveis zumbis da Livraria da Vila.)

Marçal Aquino e Luiz Ruffato, de perfil, observam a fila de ciclistas. A fila descendo a ladeira. Dizem que a lucidez abre todas as portas, até mesmo as do inferno. (Essa explosão no alto do retrato? É a geração 90: o vasto conjunto de ficcionistas brasileiros que estrearam na década de 90.)

O pisca-pisca das crianças destrói nossos desejos. João Anzanello Carrascoza sobrevoa o bairro, cartografa o movimento dos cílios. (Essas estrelas vermelhas e verdes? Formam a constelação 90: o pequeno grupo de ficcionistas da G90 presentes nas antologias publicadas pela Boitempo.)

Cada pontinho nesse retrato representa um afeto, um momento congelado de ternura. Essa mancha mais saliente à direita? É Ivana Arruda Leite, indiferente ao terremoto. Ivana segura o mapa e a chave da Vila Madalena. (Dizem que a lucidez abre todas as portas, até mesmo a das metáforas.)

Chove no centro do sol. (Qualquer retrato é metade ilusão, metade ficção.) O rapaz embaixo à direita, folheando um catálogo, é Claudio Galperin. Entortar escadas é sua habilidade mais notável. (Nessa época, meus irmãos, a atmosfera sussurrava os conselhos mais insanos.)

Não há nada mais real do que a realidade virtual. Ademir Assunção joga xadrez com Ronaldo Bressane. Partida relativista. O tabuleiro e as peças estão no século 19. Os jogadores estão no século 21. (Ademir em Tóquio, Ronaldo em Londres.) Manuscritos atravessam a tela do computador, a wop bop a loo bop a wop web boom.

A poucos metros de Marcelino e Evandro, no subsolo da rua Fradique Coutinho, 1.139, está a sala da Hedra. É sábado. O inverno não matou a clorofila. João Alexandre Barbosa é o convidado de hoje. (Essa pequena região do retrato é uma singularidade. Não pertence a 2001, mas a 2000. Ou a 1950, não sei.)

A conversa ramifica-se. Galhos e folhas atingem o teto, atravessam a laje. Marcelo Mirisola parece encantado com as raízes que reverberam Heidegger em russo. (JR Duran registra a conversa, sobrepõe datas e rostos.) Não há nada mais real do que a realidade virtual.

Se as ruas e os edifícios não mudassem tanto de endereço, o passado seria algo fácil de libertar. Freada brusca, buzinada. (Um mapa não é um mapa, é uma capitulação da mente). Congelado ao abrir a porta do táxi, Joca Reiners Terron parece enxergar apenas o avesso dos pedestres. (Pulmões, intestinos, rins, fígado.)

PROCURAM-SE
O sofredor do ver e Hospício é deus, de Maura Lopes Cançado.
Os eleitos para o sacrifício e A coleira de Peggy, de Holdemar Meneses.
O dragão, de José Alcides Pinto.

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