Ensaios e Resenhas

junho 2018 / Ensaios e Resenhas / Sarcasmo e mediocracia

Texto publicado na edição #218

Sarcasmo e mediocracia

"Cummunká", romance de Menotti Del Picchia, ri com deliciosa ironia das contradições modernistas da Semana de 22

> Por RODRIGO GURGEL

Menotti del picchia

Meses antes da Semana de Arte Moderna, um de seus mentores, Paulo Menotti Del Picchia, já consagrado autor do poema Juca Mulato, repudia, em crônica no Correio Paulistano, a classificação de “futurista” para o grupo de escritores que representa. O termo, segundo ele, designara “na Europa a reação genial e idiota de uma horda de avanguardistas reacionários, cujos generais eram talentos e cujos aderentes eram imbecis”. O poeta não deseja, para as transformações estéticas que devem ocorrer no Brasil, o mesmo destino das italianas, pois estas, “desmoralizadas, se transformaram em blague”. Ao mesmo tempo, contraditório, aceita o qualificativo e conclui: “O futurismo de São Paulo odeia tudo quanto é escola. (…) A fórmula do futurismo paulista encerra-se, pois, nisto: máxima liberdade dentro da mais espontânea originalidade”.

Depois, em plena Semana, na conferência que pronuncia a 15 de fevereiro, Menotti resume os ingredientes defendidos pela pretensa revolução modernista, recusa “a arte dos embalsamadores”, empolga-se: “(…) Que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último deus homérico, que ficou, anacronicamente, a dormir e sonhar, na era do jazz-band e do cinema, com a flauta dos pastores da Arcádia e os seios divinos de Helena!”.

De fato, ser modernista, em 22, é, acima de tudo, posicionar-se como antiparnasiano: “Morra a Hélade! Organizaremos um zé-pereira canalha para dar uma vaia definitiva e formidável nos deuses do Parnaso!”. Pequena dose de imaginação recria o tom em que as exclamações eram proferidas: “Nada de postiço, meloso, artificial, arrevesado, precioso: queremos escrever com sangue — que é humanidade; com eletricidade — que é movimento, expressão dinâmica do século; violência — que é energia bandeirante”. O discurso expõe as influências do movimento — e as ponderações de Menotti contra o futurismo se esvaziam, implodidas pela retórica que, na forma e no conteúdo, ecoa as ideias de Filippo Tommaso Marinetti, pai dos futuristas, publicadas em 1912: “No aeroplano, sentado sobre o cilindro da gasolina, queimado o ventre da cabeça do aviador, senti a inanidade ridícula da velha sintaxe herdada de Homero. Desejo furioso de libertar as palavras, tirando-as fora da prisão do período latino!”.

Bastariam sete anos, contudo, para Menotti perceber os limites da Semana: quando lança, em 1929 — com Alfredo Élis, Plínio Salgado, Cassiano Ricardo e Cândido Motta Filho —, o Manifesto do Verde-Amarelismo ou Nhengaçu Verde Amarelo, também chamado de Manifesto da Escola da Anta, o tom é completamente diverso, opondo-se, inclusive, ao Manifesto Antropófago que Oswald de Andrade, eterno imaturo, publicara em 1928. Enquanto este se aferrava às suas imprecações herméticas, adaptáveis a qualquer disparate, os autores do Verde-Amarelismo escolhem seguir caminho diverso: contrapõem os tapuias (representantes do “preconceito” e do “jacobinismo”, antropófagos que se isolam no sertão, inimigos do colonizador português — clara referência a Oswald, encastelado num experimentalismo inócuo) aos tupis, que aceitaram “diluir seu sangue no sangue da gente nova”, representam a “ausência de preconceitos” e são os grandes vencedores do processo colonizador, pois triunfaram “dentro da alma e do sangue português”. Dessa dicotomia nasce uma visão estética em tudo distinta do sectarismo oswaldiano: a Escola da Anta almeja congregar as diferenças, porque “jacobinismo quer dizer isolamento, (…) desagregação”. Tendo superado os slogans de 22, Menotti e os amigos recuperam o bom senso:

Convidamos a nossa geração a produzir sem discutir. Há sete anos que a literatura brasileira está em discussão. Procuremos escrever sem espírito preconcebido, não por mera experiência de estilos, ou para veicular teorias, sejam elas quais forem, mas com o único intuito de nos revelarmos, livres de todos os prejuízos.

O verde-amarelismo surge, dessa forma, não só como resposta às criancices de Oswald — às quais parcela da nossa literatura encontra-se acorrentada até hoje —, mas, principalmente, como repúdio ao modernismo que se satisfaz no papel de “público de si mesmo”; deseja alforriar a literatura da “tirania das sistematizações ideológicas”, defendendo a “liberdade plena” de “cada um ser brasileiro como quiser e puder”.

Males do intelectualismo
Cummunká, romance lançado em 1938, é uma das respostas de Menotti, na ficção, à estética militante de 22. Para realizá-la, o autor recupera a temática indigenista numa nova chave, em que o índio surge como elemento recivilizador da sociedade urbana, tecnológica, democrática — e também seu crítico severo, irônico.

O romance inicia apresentando Gualtério, proprietário do jornal Rebate, autor de artigos magistrais de economia, mas incapaz de pagar as dívidas da empresa. A cada crise financeira, ele dá vida a uma ideia supostamente genial — na verdade, sempre uma receita para enganar os leitores, aumentar a tiragem do diário e conseguir novos anunciantes. Agora, trata-se de organizar uma nova bandeira, expedição que desbrave o sertão, retome contato com os índios e leve a esses pobres ignorantes os benefícios do progresso. A ideia contagia os puxa-sacos e os aderentes do jornal, entre eles, Sérgio Menha, milionário angustiado e melancólico.

Num corte abrupto, o narrador conduz os leitores da sociedade industrializada à tribo dos xavantes, onde encontramos os indígenas refestelados em suas redes, à sombra dos buritis, mas, de forma inesperada, tecendo longos comentários críticos às canções que acabaram de ouvir no rádio:

— Todos os sambas são idênticos. Os caraíbas (homens brancos) começam a sofrer de uma franciscana indigência de imaginação acústica. Você não reparou, Ponkerê, que o barulho das cidades vai matando o sentido originário da música? As cidades eliminaram a linha melódica a qual é, no fundo, a verdadeira substância e a razão da ideia musical? (…) A música urbana e moderna está artificializada pela irrealidade da vida mecânica.

Os comentários são do personagem que dá nome ao livro, Cummunká, cacique da tribo, admirador de Bach, cuja música, em sua opinião, é uma “superposição de planos melódicos”.

O romance é construído sobre essas duas forças antagônicas: de um lado, os caraíbas, que se acreditam inteligentes, civilizados, mas que, entregues ao oportunismo, abandonaram seus valores, suas crenças; de outro, os índios, sábios, conhecedores da cultura e da tecnologia, mas que impõem limites ao uso de ambas, pois abandonar seus costumes seria “ceder à tentação do demônio da inteligência”.

A bandeira forjada pelo Rebate provocará, graças à inabilidade dos participantes, às espalhafatosas mentiras veiculadas pelo jornal e ao despreparo dos políticos, o confronto desses grupos, verdadeira guerra na qual os homens brancos serão derrotados pelo gênio de Cembeaçú, estudioso das batalhas napoleônicas, e pela fortuna de Sérgio Menha, que reencontra, na vida simples dos indígenas, seus esquecidos valores e também o amor. Todos são guiados pelos ensinamentos de Ambará, velho abaré, para quem o mundo moderno, limitado pelo “racionalismo científico, (…) sofre de duas doenças mortais: mediocracia e perda de espiritualidade”. A primeira trata-se de

uma infecção das massas pelos rudimentos descoordenados de cultura socializados pela técnica. Essa doença barbariza as multidões e instala nelas a força anarquizadora da violência. (…) Mediocracia é esse estágio de semicultura em que se encontram as massas que através do jornal, do rádio, do cinema e da mais rápida circulação do homem, se apossam de conhecimentos superficiais e esparsos, sem a coordenação de um sistema.

A narrativa é, assim, repúdio ao futurismo. O homem que Marinetti coloca, no Manifesto Futurista, “de pé sobre o cimo do mundo”, lançando “ainda uma vez mais o desafio às estrelas”, tornou-se, na visão de Menotti, um dos “neobárbaros” denunciados por Ambará: estão “contra a ordem clássica”; atacados de mediocracia, com seu racionalismo excessivo, “criticam e negam tudo (…), procuram agora destruir a própria civilização que criaram”.

Apesar das cenas idílicas entre Sérgio Menha e Cendi, a cunhantã por quem se apaixona, nas quais o casal, embriagado pelo amor crescente, embrenha-se numa pegajosa adjetivação alencariana, o que sobressai na história é o imprevisível, contagiante sarcasmo — e, em grande parte, a linguagem precisa. Numa arquitetura romanesca correta, Menotti pisoteia o indigenismo romântico; denuncia os crimes das multidões amorfas; desnuda sua própria consciência — e ri, com deliciosa ironia, não só das contradições modernistas, mas também das incongruências e dos exageros de uma sociedade subordinada ao que Cummunká chama de “males do intelectualismo”.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Jorge Amado e Capitães da Areia.

O AUTOR
Menotti Del Picchia
Nasceu em São Paulo (SP), em 20 de março de 1892, e morreu na mesma cidade, no dia 23 de agosto de 1988. Foi poeta, editor, jornalista, industrial, banqueiro, deputado estadual e federal. A edição de suas Obras completas, pela Livraria Martins Editora, é composta de 14 volumes, entre romances, poemas, ensaios, crônicas, contos, teatro e literatura infantojuvenil.

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