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abril 2012 / Fora de sequência / Samadhi (uma história e uma divagação)

Texto publicado na edição #144

Samadhi (uma história e uma divagação)

No fim do mundo, um tiro certeiro a manchar o currículo de um homem bom

> Por FERNANDO MONTEIRO

Ilustração: Theo Szczepanski

Creio que possa ser dito tudo de bom do homem modesto que agora vai partir do nosso posto. Nesta unidade que ainda é mantida “para observação”, ele era o chefe-de-intendência, e fazia seu trabalho não menos que irrepreensivelmente. Não se faz um chefe de uma hora para outra — e Intendência é uma ciência complicada num posto avançado como este, frente às montanhas azuis da fronteira, as Duas Mendigas Velhas que eu não sei por que têm esse nome tão indigno das suas espinhas direitas, com os picos nevados que não lembram cabelos de qualquer cor, de mulher ou de homem.

Porém, ele cometeu um crime. Tudo que dele se possa dizer de bom encontrará sempre esse crime no seu caminho de homem modesto — e que não se defenderá, com certeza, quando disserem: “Você matou um homem num quartel do deserto”. E ele de fato matou um homem num posto que chamarão de quartel, e que não fica no deserto, mas sim em face a montanhas que não parecem velhas. Ou seja: os círculos de confusão — mínima e máxima — irão causar dor e aborrecimento, sempre, porque esse homem reto tomou uma decisão, fez aquilo que lhe parecia o certo e não hesitou, não foi sequer precipitado, mas agiu no tempo medido pela sua régua, um pace stick de oficial intendente a afastar moscas e a medir a desonra, eventualmente, que pode advir mesmo do pequeno gesto um pouquinho desarmônico…

Tenho pena dele. Posso vê-lo a arrumar as malas, de novo, solene e direito, um homem que matou outro homem, é verdade, mas sendo a vítima um ser perfeitamente vil que cometeu a maior das vilezas, daquela forma que oculta o mal e faz parecer que o homem morto fazia o bem quando morreu. Ou quando o mataram. Ou quando este bom homem verdadeiro o matou com um único tiro limpo e certeiro — um estampido ecoando até entre as Duas Velhas, sob o clamor disfarçado do céu prometendo chuva que não caiu (pelo menos durante a tarde).

À noite, choveu. Regos, caminhos de lama se abriram para as botas, quando se tratou de levar o corpo da vítima para a capela improvisada. Talvez fosse um altar de Shiva em ruínas, reaproveitado como alojamento do Deus branco e militar: o Cristo não parecendo lá muito desconfortável na sua cruz envernizada, olhando o olhar vago dos Jesus que parecem fracos para os nativos (um deus compassivo demais para ser acreditado aqui, como Deus).

Fiquei tentado pela possibilidade real (que havia) de encobrir tal crime, com o poder que eu detinha, emanado da Casa do Rajá, e também como uma espécie de fiscal, de inspetor, de vigia todos sabem de quem. Isto teria sido especialmente útil em nome da “proteção”, digamos, da Mahani — pois o caso teve a ver com ela, isso é sabido e desagradável quando se pensa naquela jovem senhora penteando a grande cabeleira, alheia, os olhos ainda sonhadores acreditando, surpreendentemente…

O assunto — que parecia de pouca importância, a princípio — hoje me revolta não apenas por envolver estrangeiros (o que é pior). Parece-me inaceitável que, num primeiro momento, não tenhamos sabido fazer o que era necessário (a palavra que me consola, que significa um bom e forte tronco de carvalho onde você pode espalmar a mão, respirar e tomar a trilha pouco usada, que sobe por entre as árvores). Sabem o que eu quero dizer, não? Nem sempre a trilha principal é a melhor, e é preciso parar para ver mais alto do que a janela do primeiro andar dos escritórios de administradores de queixo recém-escanhoado e olhar desviado da pequena tempestade que se forma…

Não foi o meu caso, bem entendido. Não sou o administrador, nem seu braço direito — a estender a toalha seca para o chefe entediado.

“Quais são as novidades de hoje, meu caro? O que se passa por aí que eu precise saber…?” — assim pergunta um homem mesmo fazendo a barba do absurdo no meio de uma multidão de nativos barbudos que consideram a nossa cara uma espécie de bunda sem pêlos, surgindo do pescoço de pavão apertado. Pensem nisso: os nativos não compreendem porque andamos assim, metidos nas fardas desconfortáveis e criadas — segundo parece — para atrapalhar que a mão coce onde está coçando… Por Alah!, um homem tem o direito de se coçar, mesmo que a serviço da Coroa que está se coçando para nós todos neste fim de mundo desolado, quase debaixo de duas montanhas de neve coçada pelo verão como o colarinho daquele bom homem que nunca usava arma, o amanuense sem ódios, sem inimigos, sem obrigação de resolver nada por nós, e que deu um tiro certeiro no coração do compatriota (“nada como nunca atirar, para acertar em cheio, quando se atira” — foi escrito no Diário do meu companheiro de alojamento, que eu não deveria ler, reconheço). Não, ele não agiu como um assassino “para nos agradar” (conforme também foi escrito), não se espalhe isto, ainda mesmo que dos pequenos círculos concêntricos de um diário escrito mais por tédio do que por interesse num acontecimento extraordinário, um crime de um branco contra outro, à vista de todos. Ora, ele também se sentira ofendido no seu silêncio, na paz em comunicação com a tranqüilidade das Duas Montanhas, e sendo que (há que ser justo, embora não haja nada sobre isso no Diário deixado à minha vista), o disparo foi feito após uma verdadeira provocação, ou mesmo duas (a segunda lhe dando plena entrada naquela questão já então “complicada” para nós, os súditos da Coroa inglesa).

O próprio Rajá estava constrangido. Não estava dormindo nada bem, foi o que me disse o seu mordomo (que dorme ao pé dele, quando o Rajá dorme só).

Não havia mais o equilíbrio delicado — que se mantinha como uma ponte suspensa entre nós e o posto necessário, admitido por acordo consignado em tratado que recebeu a aprovação dos dois reinos. O mal não prosperara em questão alguma, em qualquer querela surgida após se acrescentarem os selos àquelas palavras escritas na língua antiga, para maior solenidade de um negócio tão sério. E aí aparece alguém, como um bêbado sem estilo, a romper com a teia sutilmente juntada das babas de uma muito paciente aranha quieta…

Bem, todos ficam atônitos, mas ainda presos pelo resto de regras de cortesia que norteiam as boas sociedades, por menores e mais distantes que estejam das capitais que suportam tudo. Aqui estamos muito longe, vemos picos furando as nuvens e animais delicados — que não são caçados pelos nativos — bebendo água nos regatos sempre límpidos das frases feitas. Confiamos nas palavras — e nas intenções.

Confiamos? Que raça estranha. Parece que nascemos para sermos postos à prova em lugares remotos, em competições difíceis para a nossa crença firme nos meiões até os joelhos de homens que não agem exatamente como se pensa (isto é, que somos brutais mal disfarçados pelos tais meiões e pela indumentária inteira, passada a ferro em barracões úmidos o tempo todo, na estação enlouquecedora das chuvas), não é bem assim, nossa cultura tem mil anos de quietude vigiada por céus nervosos… Se uma inofensiva aranha aparece esmagada, isso trava o leite nos nossos copos de ouro e, talvez, trave até o leite das mulheres no ouro do seu peito, sob as muitas voltas dos colares. Deus, que é Justiça acima de tudo, não gosta de ver as coisas confusas aos nossos olhos, destroçadas por alguma alma pouco gentil que pisa no tapete de seda com um sapato de areia grossa que agride o tecido nunca dobrado. Sei que estou me alongando. A revolta ainda ronda e, entretanto, no círculo mais íntimo do Rajá e da Mahani… Não, isso deve ficar sob o véu de decência da discrição que prefere cometer pequenas injustiças a fomentar um grande escândalo. Meu Deus, como o mundo pode ser injusto — com um bom (?) motivo.

Esse excelente homem, Chefe-de-Intendência, parte com as suas coisas modestas num saco de lona. Não leva moedas de ouro ou de prata, dentro, como o Rajá gostaria que levasse. Não seria cortês premiá-lo — como gostaríamos! — em virtude da sua desonra, entre os seus. Mas ele será sempre bem lembrado, aqui nesta região distante dos lugares para onde segue, agora, o bom homem modesto da intendência que nos livrou do pior dos casos, em muitos anos. Seu rumor de pequeno escândalo, seus círculos de propagação nos ouvidos, por bastante tempo ainda, seguirão subindo das fogueiras dos caçadores… quando começar a se contar, de novo, o “caso do Samadhi”. Será conhecido assim, mais tarde. Um chefe branco com vergonha dos brancos (o que é muito raro e deveria ser motivo de comemoração também, como uma vitória da justiça que nem sempre triunfa, etc.). Estão desolados. Nada se pode fazer por esse inglês que não é um selvagem, e que parte somente com a maleta modesta, tendo perdido todos os anos de trabalho, e alguns nem sequer lhe estenderão a mão quando ele descer para o alpendre ensolarado, a farda composta, a irrepreensível limpeza, o bigode direito, caminhando direto para o transporte que o espera debaixo do sol tão quente.

Os cães latirão como latem para qualquer ruído de motor engasgando antes de pegar a força necessária, e a sua alta cabeça desaparecerá pelo portão fechando-se sobre a solidão do posto deixado para trás, sob a cega visão das Duas Mendigas distantes.

Uma divagação
Alguém lê devanagari*?

Então leia, devagar, o que realmente significa samadhi, em sânscrito.

— Bem, significa paz interna, olhar-para-o-Interior, no caminho contrário da consciência dual, porque se alcançou a União (ou Realidade), num estado “de estar ciente da nossa existência sem pensar”, conforme qualquer ex-hippie de esquina poderia lhe dizer. Ainda há alguns deles tocando instrumentos fanhosos no metrô…

— Não, não. Não simplifique tanto o sentido de samadhi, meu caro. Esse brasileiro obviamente inculto irá pensar o quê? Que samadhi é apenas a bobagem usual que se lê nas revistas de introdução ao conhecimento oriental longe de todos nós, ocidentais ignorantes (o que é pleonasmo). Tudo, para ele, se tornará claro como os textos de propaganda de meditação “yóguica” que definem samadhi como “a consciência pura, que se alcança em três etapas da ascese espiritual: Savikalpa, Nirvikalpa e Sahaja Samadhi”…

— De fato, é mais do que isso, rapaz. Quando o yogui ascende a tais níveis, ele os encara como a confirmação final do estado de libertação, pois samadhi significa, como deve ter entendido, o estado superior entre os superiores, quando o Ego (alma) renuncia ao corpo físico e, compreenda, até a respiração pára…

* Alfabeto antigo no qual se escrevia a “língua dos deuses”.

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