Ensaios e Resenhas

janeiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Salvo da banalidade

Texto publicado na edição #153

Salvo da banalidade

  Hugo de Carvalho Ramos sofre, desde 1917, as avaliações errôneas e injustas que cansamos de descobrir no substrato do […]

> Por RODRIGO GURGEL

 

Ilustração: Carolina Vigna-Marú

Hugo de Carvalho Ramos sofre, desde 1917, as avaliações errôneas e injustas que cansamos de descobrir no substrato do nosso cânone. A recepção superficial dos contos de Tropas e boiadas torna ainda mais indecoroso o derramamento de elogios a, por exemplo, Afonso Arinos, cujas lenga-lengas medíocres analisei no Rascunho #139. As sementes desse incompreensível desdém, bem como da exagerada preferência que a academia reserva ao beletrismo de Arinos, talvez possam ser encontradas em nossa devoção — tão apaixonada quanto inconsciente — à eloqüência. Ou, talvez, a injustiça nasça apenas de um erro de reiteração, no qual muitos estudiosos incorrem por absoluta preguiça.

A verdade, entretanto, é que as narrativas do goiano Hugo de Carvalho Ramos estão acima do que se costumou chamar, entre nós, de regionalismo, termo dúbio e sempre aberto a revisões. Impregnados de tom épico, alguns contos parecem nascer de episódios da Chanson de Roland e outras canções de gesta, com seus personagens heróicos, reticentes no que se refere a introspecções, mas sempre prontos à presteza e à coragem, aceitando com naturalidade a vida sob permanente tensão. Tal influência, aliás, é apresentada de forma clara no transcorrer do livro, em que as histórias dos 12 pares da França e do imperador Carlos Magno são recordadas mais de uma vez. O autor ultrapassa, assim, a mera recopilação de costumes ou vocábulos dos tropeiros do Centro-Oeste, nega à linguagem típica o papel de protagonista e, desobrigando o leitor de visitas freqüentes ao dicionário, prefere seduzi-lo com a trama instigante.

Destemor e covardia
O elogio do destemor nasce logo no início do volume, no conto Caminho das tropas, em que um dos tropeiros define, orgulhoso, seu desprezo pela covardia: “Assombramento, tenho ouvido casos, verdade seja, mas as mais das vezes falta de coragem, turvação do medo e da bebida”. A própria narrativa é construída de forma a enaltecer a ousadia: o pavor, crescente, acaba reforçado pela pausa do arreeiro, que saboreia a expectativa dos que o escutam; a seguir, o anticlímax fecha a história com o ensinamento moral: “Enfim, creiam mecês, é ter sempre desapego ao perigo”.

A perfeita cena de luta — em Nostalgias — não é apenas um modelo de descrição:

O crioulo marrou-lhe, a bem dizer, uma pontada direita ao coração; ele torceu e deixou-o passar. De novo, frechou-lhe em cima a anspeçada, faca a prumo, num bote curto, procurando aberta; novamente ele furtou o corpo, mas esperava-o dessa vez na ponta do ferro, onde o cabra veio espetar-se, bruscamente, o sangue esguichando com fartura para os lados, aos borbotões.

A febre do instinto jorra semelhante às golfadas que o vencedor comemora: “— Ah, como que ainda sentia pelas mãos, na cara — vão 45 anos — o sangue do Minguinhos salpicando-o d’alto abaixo, todo fumegante, como brasa!”.

O conto Ninho de periquito apresenta outra face da coragem, desta vez contra a natureza, e mostra-nos como, muitas vezes, a bravura precisa vir acompanhada de agilidade: no meio da mata, o roceiro não hesita em, depois de arrancar a cabeça da serpente, decepar a própria mão, a fim de impedir os efeitos do veneno. Não há espaço para a dor, mas apenas o saborear da vitória:

E enrolando o punho mutilado na camisola de algodão, que foi rasgando entre os dentes, saiu do cerrado, calcando duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa, como um deus selvagem e triunfante apontando da mata companheira […].

Peru de roda abre com a figura solar e excêntrica do Coronel Pedrinho, desde menino percorrendo as estradas de Goiás. Seu arreeiro, Joaquim Percevejo, descrito de forma impressionante, é, no entanto, o falso corajoso, cujo destino moral encontra-se anunciado no título da história. Parágrafo a parágrafo, o narrador desmonta os estereótipos e chega ao fim surpreendente, em que a intrepidez do coronel vence seu empregado e paralisa enorme grupo de homens armados, reunidos na propriedade de um rival. O estilo conciso ressalta os gestos, a firmeza:

Bateu violentamente a cancela, entrou montado no terreiro, saltou da sela; e, a corda na mão, caminhou direito sobre Percevejo.

Nem um único olhar lançara ao fazendeiro. Pegou o arrieiro pela barba, atou-a num ápice, em nó-de-porco, à embira; prendeu a ponta desta ao rabo da mula e achou-se montado de novo.

O coronel encarava-o aparvalhado, os olhos remelentos, rindo constrangido. Nem um gesto sequer. E ninguém se movera naquele rápido segundo. Olhavam, estarrecidos.

Viram-no ferrar esporas, a besta arrancar num trote largo. E, ao primeiro puxão, Percevejo se pusera também a trotar atrás, desesperadamente. Sumiram-se na quebra do cerrado. E nenhum tiro se ouviu.

Mais tarde, antes de ser despedido pelo Coronel Pedrinho, Joaquim Percevejo é obrigado a escutar a sentença: “— Vai-te perrengue! Um homem que se deixa amarrar pela barba, não é homem, não é homem! […]”. E a decisão posterior do tropeiro só confirma sua covardia: não muda de comportamento, mas prefere, apenas, cortar a barba…

Benedito dos Dourados, protagonista do desigual Gente da gleba, será derrotado por sua audácia irrefletida, mas a cena da captura de Malaquias poderia estar num western de Howard Hawks:

Mas alguém batera à porta. A festeira foi abrir. Montado, o pala escorrendo água, as abas do chapéu dobradas sobre o rosto, o forasteiro num relance varejou aquela cena. Descobriu Malaquias agachado sobre o garrafão de cachaça, a despejar o seu conteúdo no prato de açúcar, e berrou: 

— Negro! Vim buscar-te!

 Ele olhou, turvo, e apanhando sobre a mesa um facão amolado com que raspara a rapadura, saiu ao terreiro.

Da luta, em que o fugitivo sairá perdedor, a dupla passa a uma relação de companheirismo, na qual a honradez prevalecerá até o terrível, injusto fim de Benedito.

Quanto à narrativa Alma das aves, poderia inspirar Horacio Quiroga, que deixou vários contos protagonizados por animais. O que Hugo de Carvalho Ramos chama de “minúscula tragédia” é o embate desproporcional entre uma galinha e certa inconveniente cascavel. A valentia da ave tem arroubo humano — e contrapõe-se a outro famoso galináceo da nossa literatura, pertencente a Clarice Lispector: no interior do Centro-Oeste, as galinhas não podem ser “estúpidas, tímidas e livres”, mas apenas entregam-se ao instinto, dormindo para sempre depois, intoxicadas pela peçonha.

São histórias sem as soluções fáceis de enaltecimento ou idealização da vida sertaneja. A realidade pulsa, inquestionável, observada por um narrador que às vezes se permite momentos de lirismo — realidade em cujo centro encontra-se o homem, pronto a viver com desassombro e, se possível, alegria. E se há melancolia ou angústia, permanecem reservadas às poucas personagens femininas.

Linguagem
Em termos estilísticos, Hugo de Carvalho Ramos consegue criar trechos antológicos, nos quais ao encadeamento das frases corresponde plena visualização dos gestos:

O tropeiro empilhou a carregação fronteira aos fardos do dianteiro, e recolheu depois uma a uma as cangalhas suadas ao alpendre. Abriu após um couro largo no terreiro, despejou por cima meia quarta de milho, ao tempo que o resto da tropa ruminava em embornais a ração daquela tarde. O cabra, atentando na lombeira da burrada, tirou dum surrãozito de ferramentas, metido nas bruacas da cozinha, o chifre de tutano de boi, e armado duma dedada percorreu todo o lote, curando aqui uma pisadura antiga, ali raspando, com a aspereza dum sabuco, o dolorido dum inchaço em princípio, aparando além com o gume do freme os rebordos das feridas de mau caráter.

Em Mágoa de vaqueiro, a cena da fuga de Maria, filha única que abandona o pai, ergue-se diante do leitor como um exemplo de síntese, no qual verbos, adjetivos e substantivos harmonizam-se graças também à pontuação perfeita, formando o período em que nenhum elemento é excessivo:

Em pontas de pé, dissimulando o tilintar das rosetas no cachorro das esporas, Zeca Menino alcançou o alpendre à banda, desamarrou a mula estradeira e voltou montado ao oitão da casa, raspando-se no peitoril duma janela, que arranhou suavemente com o cabo da açoiteira. Os tampos descerraram-se sem rumor; um vulto esquivo deixou-se escorregar para a garupa roliça da besta, e o estrépito abafado do animal, que ganhara a porteira e se afastava na cerração, misturou-se perdido aos zangarreios da sanfona, reavivando dentro a animação dos comparsas.

No final, vencido pela tristeza, o pai entrega-se à morte. A dramaticidade é intensificada não só pela seqüência de verbos construída em crescente sinonímia, mas graças à oposição entre, de um lado, a roupa humilde e a carne morta, e, de outro, a voracidade dos insetos:

Ao pé, na roupeta singela de algodão em que se enfatiotara, nas axilas, nos braços, pela boca e orelhas, ia cerce a faina das térmitas em rasgar, picar, cortar e estraçalhar aquele estorvo molengo que se lhes abatera desde cedo por cima da casa…

Em Alma das aves, o mero gesto de alimentar o galinhame no terreiro alcança novas dimensões e cumpre o esperado da literatura, isto é, que salve da banalidade inclusive as mínimas coisas:

E eram punhadas sábias para um lado, para o outro, de grãos saltitados, rápido estrelando o solo com o seu brilho alegre de ouro novo, mais depressa subvertendo-se naquela multidão de mendigos, cada qual apostado em exceder o vizinho em gula e solércia; o cuidado da mulher em ter uns dos outros afastados os galos de rinha, de aculeado esporão, ciosos e espancadores; e depois, tufada a paparia fulva, o pedinchar de quem ainda atende e a sua dispersão final — a custo resolvida — pelo cerrado dos arredores.

Há grandes cenas, em que a paisagem se mescla ao movimento dos tropeiros, às cores e ao brilho das vestimentas e dos arreios:

Ao longe, os peões bracejavam e sacudiam a taca, achegados à retranca dos lotes; e nos volteios do caminho, as suas cabeças amarradas em lenço de alcobaça — as pontas sarapintadas voltadas para trás — passavam como asas de borboletas, adejando num vôo indolente rasteiras ao solo, uma azul, outra amarela, outra encarnada, por sobre o verde-pálido indefinível da campina. Faiscavam às vezes, num movimento involuntário do pescoço, os metais das cabeçadas de prata; subia a toada contínua dos guizos e cincerros; e, a perder de vista, a terra estuava e desdobrava-se uniforme, na mesma e epitalâmica pujança de arruídos e de vida.

Sim, o período verga-se, principalmente no final, à eloqüência, pois “epitalâmica pujança” é nítido exagero. Mas o resultado cria um conjunto intenso, vivo.

Apuro
O autor também nos mostra como é possível, usando inteligência, sensibilidade e apuro lingüístico, fugir dos lugares-comuns. A lua, uma das mais batidas referências da literatura universal, surge renovada nestes breves trechos:

A noite descia mansa e silenciosa, perturbada apenas pelo clamor longínquo das seriemas da campina no fundo dos vargedos, e a lua assomava como uma grande moeda de cobre novo por sobre os descampados, em vago nevoeiro. [Caminho das tropas]

Parei o pingo. Os pretos, imitando, pararam. Fiquei ali imóvel longo tempo, os olhos neles grudados, sem tino, enquanto que o minguante principiava a tingir de açafrão a copa folhuda das árvores, e lentamente ia abaixando a sua luz amarelada sobre o carreiro. [À beira do pouso]

E como a lua surdia no horizonte, como uma enorme roda de carro, avermelhada e triste dentre os vapores das derradeiras queimadas, alumiando ao longe os carreiros cor de barro e inundando o rosto pálido de Nhá Lica… [Gente da gleba]

Há o mesmo cuidado em relação ao sol, que, após sucessivos dias de queimada, “semelha de eito a eito um enorme carvão aceso e sangra pelos flancos a sua luz avermelhada e mortiça, numa atmosfera de forja, que nenhum sopro de aragem alenta”.

Língua portuguesa
Encontram-se, claro, problemas no livro. Mas um conto péssimo, A bruxa dos marinhos — de que salva-se apenas o diálogo final —, as irregularidades de Nostalgias — principalmente o último parágrafo, de excessiva adjetivação, preso ao desgastado tema do contraste entre campo e cidade —, as longas e desnecessárias digressões de Gente da gleba — que só confirmam a vocação do autor para a narrativa curta — e a insipidez de A madre de ouro não diminuem o vigor de Tropas e boiadas, não maculam os trechos que assomam como inesperadas descobertas.

Saborosas expressões locais podem iluminar certas passagens: “— Homem, a modo que já vão andando… Ah, meu tempo, aguentava firme no sapateio até pegar o sol com a mão!…” ou “— Qual, isso é ainda efeito da beijoca que dei ali atrás ao frasco de cachaça […]”. A breve frase consegue recriar um galope: “Engolimos num trago aquele chão”. A correta inserção de um detalhe concede nova perspectiva à cena: o fim iminente da festa, em Mágoa de vaqueiro, é anunciado, no primeiro parágrafo, pela mesa em que se encontram os “sobejos da ceia — frascos de licor e o doce de buriti esparramando-se na toalha besuntada […]”; no conto Gente da gleba, “as botas esturradas de mormaço ringindo ásperas no assoalho desigual, rumo à cozinha” revelam o vaqueiro que, apesar de livre para entrar na casa-grande, baralha no seu íntimo dedicação e subserviência. E não poderia faltar o perfeito sentido do riso e da ironia, presente no conto O Saci.

A última narrativa, Dias de chuva, surge plena de saudosismo. Não chega a ser um conto, mas destila linguagem extraordinária, às vezes lírica: “A chuvarada continuava aberta, naquele seu grande choro de desconforto, ensopando os campos”. Aqui, estamos muito além do que Wilson Martins chamou, ao se referir a Tropas e boiadas, de “implicações apotegmáticas”. O que temos diante de nós é a língua portuguesa em seus momentos límpidos. Inculta, talvez — e também por isso capaz de produzir coisas belas.

Nota
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Olavo Bilac e suas crônicas.

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Hugo de Carvalho Ramos

Hugo_Carvalho_Ramos_153

Nasceu em Vila Boa de Goiás (GO), em 21 de maio de 1895, e morreu no Rio de Janeiro (RJ), em 12 de maio de 1921. Depois de estudos secundários no Liceu de Goiás, muda-se para o Rio, onde cursa a Faculdade de Direito, que não concluirá. De temperamento retraído, extremamente tímido, pouco convive com intelectuais. Em 1920, abatido por uma crise de depressão, viaja ao interior de Minas Gerais e São Paulo. No ano seguinte, de volta ao Rio de Janeiro, comete suicídio. Suas Obras completas — além dos contos reunidos em Tropas e boiadas, cerca de 20 poemas — foram publicadas em 1950.