Inquérito

abril 2015 / Inquérito / Salvar a linguagem

Texto publicado na edição #179

Salvar a linguagem

  Sérgio Rodrigues recebeu recentemente um dos mais importantes prêmios literários do país — o Portugal Telecom — pelo romance […]

> Por RASCUNHO

Sérgio Rodrigues. Foto: Bel Pedrosa/Divulgação

Sérgio Rodrigues. Foto: Bel Pedrosa/Divulgação

 

Sérgio Rodrigues recebeu recentemente um dos mais importantes prêmios literários do país — o Portugal Telecom — pelo romance O drible, já considerado uma das principais ficções em que o futebol é protagonista. Nascido em Muriaé (MG), em 1962, Rodrigues vive no Rio de Janeiro desde 1980. Lá, fez da literatura seu ganha-pão. Ficcionista, crítico literário e jornalista, mantém há quase uma década o blog Todoprosa (todoprosa.com.br), uma referência literária na internet. É autor do romance Elza, a garota (Nova Fronteira) e das coletâneas de contos O homem que matou o escritor (Objetiva) e Sobrescritos (Arquipélago), entre outros livros. Em 2011, ganhou o Prêmio Cultura do Governo do Estado do Rio pelo conjunto de sua obra.

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Aos 14 anos, quando concluí que escrevia melhor do que desenhava. Comecei imediatamente a escrever um conto atrás do outro. A ideia era estar consagrado aos 18, mas não deu certo. 

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Nunca falar do que estou escrevendo ou planejando escrever, pelo menos até o trabalho estar bem adiantado. 

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Sempre comecei o dia lendo jornais. Hoje o Twitter vem primeiro.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Os sermões do padre Antônio Vieira.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Uma história já nos trilhos e muitas horas livres pela frente.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Um ótimo livro e algum sossego.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Aquele em que escrevo qualquer coisa que resista a meia dúzia de releituras.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Editar. Cortar, mover bloco, consertar uma frase emperrada, pentear aqui, despentear ali, enxugar, ampliar. Editar.

Qual o maior inimigo de um escritor?
São dois, gêmeos antípodas como Esaú e Jacó: a falta de autocrítica e o excesso de autocrítica.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Ser cheio de escritores. 

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Samir Machado de Machado, autor de Quatro soldados.

Um livro imprescindível e um descartável.
Memórias póstumas de Brás Cubas é imprescindível. Descartáveis são tantos que não vou citar nenhum para não cometer injustiças.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A afetação, um estilo que tenha mais espuma do que chope.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Espero que nenhum.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
De um bolo de fios de cabelo tirado do ralo do box, que virou uma cena-chave de um conto do meu primeiro livro, O homem que matou o escritor. Sim, eu já tive cabelo.

Quando a inspiração não vem…
 Tento trabalhar sem depender da inspiração. Ela adora faltar aos compromissos.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Vladimir Nabokov, mas duvido que ele aceitasse. Como plano B, Dashiell Hammett, que batizaria o café com bourbon.

O que é um bom leitor?
Aquele que, mesmo já tendo lido muito, não perde a capacidade de ler com olhos livres.

O que te dá medo?
Quase tudo o que leio no noticiário do Brasil e do mundo. Não sinto medo por mim, mas pelos meus filhos.

O que te faz feliz?
Na literatura, chegar ao ponto final. Na vida, o de sempre: comer, beber, viver. Os atos em si, não aquele filme homônimo do Ang Lee. Se bem que o filme é ótimo e me deixou feliz também.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
A dúvida: será que vai dar pé? A certeza: não há nada que eu gostaria de estar fazendo além disso.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Conseguir não torrar a paciência do leitor sem fazer nada para bajulá-lo.

A literatura tem alguma obrigação?
Está mais para razão de ser, mas talvez se possa chamar de obrigação: salvar a linguagem. Zelar pelo fio das palavras. Ser uma espécie de máquina de hemodiálise que filtra o discurso envenenado da política, do direito, da burocracia, da publicidade, da imprensa, do showbiz, das redes sociais, de tudo o que todo dia tenta matar a linguagem a golpes de banalidade, obscurantismo, mentira ou clichê.

Qual o limite da ficção?
Por definição, o limite da ficção é a não-ficção. Mas essa fronteira nunca foi pacífica e anda cada vez menos clara.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu o aconselharia a tentar uma abordagem menos clichê.

• O que você espera da eternidade?
Nada. Um não-ser infinito está de bom tamanho para mim.

LEIA RESENHA DE O DRIBLE.

Print Friendly

Deixe uma resposta