Ensaios e Resenhas

outubro 2015 / Ensaios e Resenhas / Salto de que andar mesmo?

Texto publicado na edição #185

Salto de que andar mesmo?

Em Uma longa queda, Nick Hornby trata o suicídio de maneira aparentemente leve e descontraída

> Por ANDRÉ ARGOLO

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Nick Hornby, autor de Uma longa queda.

Oi, tudo bem? O que fiz no Ano-novo? Ah, subi num edifício pra me matar. Encontrei uma galera pensando em fazer o mesmo. Acabamos todos descendo, da beirada do terraço e do prédio. Desde então nos encontramos de vez em quando pra falar de suicídio (os nossos), trocar uns sarros, xingamentos, risadas e, no fundo, tentar enxergar se a vida vale a pena, apesar da infelicidade do dia a dia.

Um dos personagens de Nick Hornby em Uma longa queda bem podia ser dono de uma fala assim. O estilo do autor está mais na história toda e nas escolhas que fez para montar a narrativa do que no texto. Nessa fala, está o básico da história, construída em pouco mais de 300 páginas.

Parece raso, pelo tema que é? Vejamos…

São quatro os personagens principais. Eles vão se alternando no livro, com relatos em primeira pessoa, em vozes muito bem definidas — depois de algumas páginas, nem seria mais preciso ter os nomes deles no topo, são reconhecíveis pelo texto. Mas o que o autor faz é reproduzir um jeito de falar característico dos meios sociais ou idades de cada um: Jess, Martin, Maureen e JJ.

Jess é uma garota de vinte e tantos anos que fala palavrões em quase todas as frases, faz força para ser vista como a que tem um parafuso a menos. Filha de político influente, não vive grandes problemas com dinheiro. Arruma seus problemas nos bares e relacionamentos amorosos. Ela vai se revelando desencaixada socialmente e isso parece ser o motivo de sua infelicidade e da intenção de se matar.

Maureen tem a história mais convincentemente triste. Cinquentona, cuida do filho que sobrevive em estado vegetativo. É católica e descrita como cheia de culpas. Não vê felicidade possível na vida.

Martin, homem maduro (pela idade), é apresentador de televisão. Por meio da história dele, de sua fama, Hornby destila suas observações nada amigáveis dos meios de comunicação ingleses. O sujeito esteve preso porque teve relações sexuais com uma garota menor de 16 anos — 15 anos e alguns dias, tendo acreditado que tinha 18. Era casado e com filhos, perdeu a família, o emprego e virou escândalo nacional.

JJ aparece por último no terraço do edifício Topper’s House, como entregador de pizzas. Esse quarto elemento costura os outros. A infelicidade do garotão é mais abstrata do que a de Maureen e a de Martin. Combina mais com a de Jess. É músico, é norte-americano, está frustrado.

As biografias são factíveis, quase todo mundo conhece umas parecidas, vive ou já viveu questões semelhantes. Esses personagens decidiram pela beirada da vida, por desespero. Mas o livro, não. O livro não corre riscos. É escrito de forma descomplicada e claramente buscando leitor que não deseja (em um momento, ao menos) grandes dificuldades, mas apenas ler, ler, ler e descobrir o que vai acontecendo na história. Existe uma inegável habilidade técnica do escritor nisso, costurando os fatos nas diferentes vozes — é fácil perder a linha, e não parece que tenha perdido.

Há três partes — na primeira, o encontro no terraço para o suicídio; na segunda, a vivência deles ganha os jornais, até porque Martin é famoso; na terceira e final, eles tentam digerir um grande choque que sofreram ao fim da segunda parte e cada um vai reencaminhando a vida, enquanto decide sobre pôr ou não nela um ponto final.

O tema é difícil. É tabu. Quem tem a vivência de perder alguém — familiar ou amigo — que tenha tirado a própria vida normalmente não acha leve nem simples o assunto. O fato de Hornby ter se aproximado do suicídio com aparente leveza pode incomodar. Ou pode carregar na forma um significado, algo como tudo na vida ser relativamente banal. O leitor que julgue.

Pelo texto não há aprofundamento das questões.

Os depoimentos dos personagens vão revelando ao mesmo tempo as ações deles na história e os problemas que os levaram até o topo do edifício naquele Ano-novo. Os dramas pessoais estão implícitos nas descrições, mas sem o peso da caneta de Hornby.

Na página 86, o autor coloca na fala de JJ o que parece uma reflexão a esse respeito:

“A gente estava, os dois, no terraço do Topper’s House, e ia se jogar de lá”, disse a Jess, tornando, assim, uma longa história consideravelmente mais curta e, justiça seja feita, deixando de fora bem poucas informações relevantes.

Referências
O tempo todo o autor inclui referências culturais e populares desse nosso tempo. Por meio do JJ, fala muito de rock, por exemplo. A doença incurável que o personagem primeiro inventa, por vergonha de não ter um motivo objetivo para se matar, chama-se CCR — iniciais de Creedence Clearwater Revival.

O próprio JJ é quem traz ao grupo um pouco de literatura. Em um encontro dos quatro, propõe que se tornem uma espécie de grupo de estudos. E sugere autores que tenham se matado. Chegam a ler Virgínia Wolf. A garota, Jess, relata a tentativa de intelectualizar a ligação entre eles: “li só, tipo, umas duas páginas de um livro sobre um farol, mas já foi suficiente pra saber por que ela se matou: foi porque não conseguia se fazer entender. Basta ler uma frase pra perceber”.

Martin é construído como alguém que só olha o próprio umbigo. Maurren é recatada demais. Jess, uma típica jovem nem aí para nada. JJ, aí para tudo, mas de alguma forma também iludido, à margem do mundo. Ao mesmo tempo há pistas de que sejam mais do que o rótulo óbvio que carregam. Nisso também pode estar um mérito do autor, em trazer para a estrutura do livro a mesma superficialidade da atual sociedade europeia (que talvez tenha equivalência cultural com a classe média brasileira), transformando o que parece raso em crítica aguda.

No mundo real o suicídio causa no mínimo estranhamento. E não raramente, sofrimento, profunda incompreensão, também culpa aos que tinham convivência com a pessoa. Ainda mais quando cometido por pessoas jovens. Então ficaram algumas perguntas na leitura: precisa ser mais pesado na forma para ser boa literatura? Mesmo com ritmo cinematográfico, uso simplificado do vocabulário e a mimetização da linguagem corriqueira, Uma longa queda é só um pulinho da janela do térreo, ou tem um poço fundo que não se vê direito?

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Nick Hornby

É inglês e nasceu em 1957. Trabalhou como jornalista e crítico musical. Já publicou livros muito vendidos no mundo todo, como Febre de bola e Alta fidelidade. É comum suas obras virarem filmes de sucesso.

E de repente lá estava eu com três potenciais suicidas devorando as pizzas que eu deveria entregar e olhando pra minha cara. Aparentemente esperavam que eu desse uma de Abraham Lincoln e discursasse sobre por que valia a pena que eles continuassem a viver sua vida estropiada e sem sentido. O que era irônico, sério, considerando que eu estava pouco me fodendo se eles iam pular ou não.

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Nick Hornby
Trad.: Christian Schwartz
Companhia das Letras
329 págs.