Ruído branco

janeiro 2013 / Ruído branco / Sabedoria secreta

Texto publicado na edição #101

Sabedoria secreta

A arte e a literatura eruditas sempre permutaram material com a arte e a literatura populares. Se a matriz popular […]

> Por LUIZ BRAS

A arte e a literatura eruditas sempre permutaram material com a arte e a literatura populares.

Se a matriz popular pode ser facilmente surpreendida no Dom Quixote, de Cervantes, no Fausto, de Goethe, e no Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, a matriz erudita também pode ser facilmente flagrada nos folhetos de cordel que parodiam os clássicos da literatura, como Os sertões, Dom Casmurro e São Bernardo.

Quando Shakespeare, Mozart e Eisenstein produziam arte de altíssimo nível para o povo analfabeto, recortando e colando material popular, os três estavam propondo outra rica maneira de as duas esferas se relacionar.

Mas a arte e a literatura eruditas também se relacionam de maneira ainda mais atrevida e agressiva com a arte popular, oral, analfabeta: transformando-a em representação edulcorada, engessando-a, aprisionando-a em pequenas jaulas.

Está escutando os urros, os cacarejos, os latidos?

Livros lado a lado, justapostos, encostados, enfileirados, capa a capa.

Livros em cima e embaixo. Paredes de livros, muralhas de livros.

As grandes livrarias, os grandes sebos, as grandes bibliotecas impressionam e intimidam.

Você entra, pára, ergue os olhos e encara todas essas estantes, todos esses livros, milhares, milhões, em dezenas de idiomas, e fica paralisado, sem ação, sem fôlego.

Você, criatura limitada e assustada, você realmente é minúsculo diante da vasta cultura letrada. Quinhentos e tantos anos de imprensa caçaram, capturaram e aprisionaram todo o conhecimento do mundo em pequenas jaulas de papel e tinta.

As grandes livrarias, os grandes sebos, as grandes bibliotecas são um tipo estranho e maravilhoso de zoológico.

Estantes lado a lado, justapostas, encostadas, enfileiradas, madeira contra madeira, aço contra aço. As jaulas maiores, com prateleiras e divisórias, encerrando as jaulas menores, de papel e tinta.

Está escutando os zumbidos, os mugidos, os grasnados?

Sorte sua que são apenas sons. Já pensou se fossem garras e presas saltando sobre sua carne?

Nas pequenas jaulas de papel e tinta há milhares, milhões de criaturas inteligentes e sedutoras prontas pra educar, entreter, aborrecer, encantar, doutrinar, enganar, irritar, perturbar e deslumbrar a mente do leitor caçador.

Quinhentos e tantos anos de imprensa caçaram, capturaram e aprisionaram todo o conhecimento do mundo em pequenas jaulas de papel e tinta.

Exagero?

Sim.

Você sabe que sim.

Agora menos impressionado e intimidado, você caminha pelas alamedas da livraria, do sebo ou da biblioteca e logo percebe que boa parte do conhecimento do mundo não está aí.

Falo do conhecimento antigo, oral, analfabeto, transmitido de geração para geração durante séculos.

Infelizmente boa parte desse conhecimento foi perdida. Você sabe disso.

Não falo da sabedoria dos Sidartas, dos Sócrates ou dos Jesuses anônimos e desconhecidos que vieram antes ou depois de Sidarta, Sócrates e Jesus, mas não tiveram a felicidade de ter seu conhecimento registrado por terceiros.

Os contos maravilhosos, por exemplo.

Falo dos contos criados e difundidos pela cultura popular e estudados por Vladimir Propp e Bruno Bettelheim, entre outros. Falo dos contos também chamados de contos folclóricos ou contos de fada.

Andando pelas alamedas da livraria, do sebo ou da biblioteca você sabe que muitos desses contos estão aí nos livros.

Mas você também sabe que esses contos que estão aí nos livros não são exatamente os da cultura popular.

Eles são diferentes. Mais macios, menos toscos. Mais agradáveis, menos inquietantes.

Os contos de fada que escaparam do esquecimento graças à cultura letrada não são os mesmos que circulavam longe dos palácios e dos salões refinados.

Não são os mesmos que circulavam no campo, nas aldeias e nos vilarejos mais pobres da Europa e da Ásia.

O advogado e acadêmico Charles Perrault era um poeta clássico que escrevia para a elite culta da França de Luís XIV. O folclore francês só despertou seu interesse quando o poeta já estava com sessenta anos.

A baronesa Marie d’Aulnoy além de romancista era isso mesmo: baronesa. Ela vivia no bem-bom, promovendo festas e saraus. Foi ela quem cunhou a expressão conto de fada.

Os irmãos Grimm eram filólogos, lingüistas e pesquisadores do folclore alemão, além de participarem do Círculo Intelectual de Heidelberg.

Ao virarem texto nas mãos desses autores, os contos de fada da cultura popular sofreram várias modificações.

Porque era preciso manter certa elegância diante das sensibilidades mais refinadas.

Porque era preciso poupar as crianças das questões existenciais mais graves.

Porque era preciso respeitar a moral judaica, cristã ou islâmica dos leitores, disfarçando e neutralizando o paganismo exacerbado de certos contos.

Está escutando os balidos, os grunhidos, os assobios?

Andando pelas alamedas da livraria, do sebo ou da biblioteca você ouve os especialistas no assunto.

Você ouve Propp e Bettelheim.

Você ouve Joseph Campbell.

Você ouve Nelly Novaes Coelho.

Você ouve Shelton Cashdan.

Todos eles dizem que os contos de fada, em sua forma original, oral, amoral, espontânea, vulgar e anônima, traziam fortes doses de adultério, incesto, canibalismo, tortura e mortes hediondas.

Tudo isso foi atenuado quando a cultura letrada entrou na história.

Você ouviu bem: eu disse atenuado, não expurgado.

No livro de Perrault, Chapeuzinho Vermelho realmente tira a roupa e deita com o lobo, antes de ser devorada pela fera, que vence no final.

Em vários contos compilados pelos Grimm muitas situações tão cruas e violentas como essa conseguiram escapar da censura. Neles ainda há usurpadores, feiticeiras e madrastas más sendo julgados, torturados e executados em praça pública.

(Nessa hora você lembra o conto da Moura Torta, de origem árabe. No final da história a malvada é enfiada em um barril cuja parede interna está cheia de pregos que vão furando seu corpo durante a infindável descida de um morro.)

A observação de Chesterton (“Contos de fadas são a mais pura verdade, não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos”) ainda vale para vários contos compilados pelos Grimm.

Neles ainda há crianças desamparadas e infelizes por terem perdido o pai e a mãe.

Neles ainda há um pouco de crueldade, licenciosidade e erotismo.

Neles vez ou outra ainda há a vitória do mal sobre o bem.

“Originalmente concebidos como entretenimento para os adultos, os contos de fada eram contados em reuniões sociais, nas salas de fiar, nos campos e em outros ambientes onde os adultos se reuniam. Não nas creches. É por isso que muitos dos primeiros contos de fada incluíam exibicionismo, estupro e voyeurismo. Em uma das versões de Chapeuzinho Vermelho, a heroína faz um strip-tease para o lobo, antes de pular na cama com ele. Numa das primeiras interpretações de A bela adormecida, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida. E no conto A princesa que não conseguia rir, a heroína é condenada a uma vida de solidão porque inadvertidamente viu determinadas partes do corpo de uma bruxa.” (Cashdan, em Os sete pecados capitais nos contos de fada)

Mas você não é bobo.

Você caminha pelas alamedas da livraria, do sebo ou da biblioteca e sabe que o que foi aprisionado pela cultura letrada, o que realmente entrou nos livros, foi bastante purificado pelo puritanismo da norma culta.

Você caminha pelas alamedas da livraria, do sebo ou da biblioteca e sabe que quinhentos e tantos anos de imprensa caçaram, capturaram e aprisionaram quase todo o conhecimento do mundo em pequenas jaulas de papel e tinta.

Quase todo.

Mas agora o que ficou de fora dos livros atiça sua curiosidade.

As histórias originais, orais, amorais, espontâneas, vulgares e anônimas.

As histórias cheias de arestas, espinhos e quinas.

As histórias perdidas pra sempre.

Outra lógica, outra ética, outra moral.

E assim, que bela surpresa: você, que normalmente é bastante alegre e otimista, vai encerrando esta crônica de maneira taciturna e melancólica.

Com saudade dos contos de fada que não chegaram até nós.

Com saudade dos contos de fada que chegaram até nós, mas não na versão integralmente popular.

Felizmente, parte dessa saudade pode ser apaziguada agora mesmo, por via indireta.

Pela via do cinema.

A emoção poética provocada pela Chapeuzinho Vermelho estranha e onírica de Neil Jordan, de Na companhia dos lobos, não pode ser desprezada.

Nem o arrepio incômodo provocado pela Branca de Neve sombria e solitária de Michael Cohn, da Floresta Negra.

O lobo, no primeiro longa-metragem, e a madrasta, no segundo, são figuras sedutoras e profundas, perversas e sensuais.

São figuras cheias de conflitos e dilemas.

Diferente das versões cinematográficas de Disney ou de Spielberg (encantadoras, sim, mas superficiais), a de Jordan e a de Cohn não deixam de fora as muitas camadas profundas que os contos originais apresentavam.

As muitas camadas obscuras, secretas e irracionais.

Você caminha pelas alamedas da livraria, do sebo ou da biblioteca e espera que, talvez por milagre, em um dos milhares, dos milhões de livros espalhados à sua volta estejam aprisionadas as versões intocadas dos contos de fada originais, orais, amorais, espontâneos, vulgares e anônimos.

As versões intocadas pela moral judaica, cristã, islâmica.

As versões intocadas pelo racionalismo acadêmico.

As versões intocadas “pelo desejo absurdo de proteger as crianças do que mais as perturbam: suas ansiedades amorfas e inomináveis, suas fantasias caóticas, raivosas e até mesmo violentas” (Bettelheim n’A psicanálise dos contos de fada).

E se isso não for apenas uma fantasia?

E se esse livro existir de fato?

Ah, se esse livro existir mesmo e se o leitor desta crônica souber seu título e o nome do autor, por favor, não demore a nos escrever.

Não deixe de dar a dica. Não deixe de enviar a referência.

Está escutando os trinados, os miados, os uivos?

Esse livro deve estar perdido nos milhares, nos milhões de galerias e alamedas da vasta e ruidosa biblioteca de Babel.

Sua voz baixa, rústica, distante, daqui eu quase posso ouvi-la sob a cacofonia reinante.

Se esse livro existir mesmo ele deve estar aí remoendo seus segredos em algum lugar do infinito labirinto das Letras.

À espera.

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