Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Rumor silencioso

Texto publicado na edição #138

Rumor silencioso

A morte é um dos temas centrais da literatura universal, já presente nas tradições orais e depois em toda a […]

> Por PATRICIA PETERLE

A morte é um dos temas centrais da literatura universal, já presente nas tradições orais e depois em toda a produção escrita, da mesma forma que a vida. Vida e morte, morte e vida caminham juntas, não numa relação dicotômica, mas numa complementaridade. Aquiles, ambíguo personagem da Ilíada, é o herói que opta pela glória imortal, por isso morre combatendo. O seu desejo é ser lembrado, transcender a condição humana, levar consigo uma honra. A bela morte, como nesse caso, só tem sentido se houver um ou mais poetas para cantá-la. Mas o que poderia significar enfrentar a morte? Seria ela algo conclusivo? Morte como possibilidade(s)? Morte como um canal para estabelecer relações com a arte, para lembrarmos de Blanchot (filósofo, escritor e crítico literário)? Enfim, como pensar a morte na produção literária mais contemporânea?

Esse é o tema central do livro organizado pela professora Lélia Parreira Duarte, De Orfeu e de Perséfone: morte e literatura, resultado dos debates de 2008 do grupo de pesquisa do CNPq, que reúne professores e estudantes de várias instituições do país. De fato, o que se tem é uma coletânea de artigos assinados por pesquisadores brasileiros e estrangeiros que se debruçaram e debateram a temática da morte na literatura, por meio da análise de autores variados, às vezes bem diferentes entre eles, principalmente, da literatura brasileira e portuguesa.

O real negado, o irreal, o vazio, o obscuro, a ambigüidade, a anulação do tempo são todos elementos que chamam a atenção desse grupo de críticos nas obras e escritores presentes no livro. Guimarães Rosa, Milton Hatoum, Augusto de Campos, João Cabral, Florbela Espanca, António Lobo Antunes, José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luis, Maria Judite de Carvalho, Helder Macedo são alguns autores cuja obra é trabalhada e lida pelos refletores de uma filosofia marcada pela negatividade, pelo nada, mas que é uma potência em si. E é, justamente, nesse sentido que a morte, ou a experiência da morte, é tratada e trabalhada ao longo dos 19 ensaios. Negatividades que se intersectam, se sobrepõem num complexo jogo em que a linguagem/língua, matéria-prima essencial da literatura, apresenta-se como “uma vitória sobre a morte”. O que está em foco nos autores escolhidos e analisados não é a dimensão mimética ou pedagógica da literatura, mas o trabalho árduo da escrita e a sua dimensão performativa.

Verdades que não aparecem e desestabilizam as expectativas pode ser um olhar para as obras de António Lobo Antunes, uma escrita intensa, corrosiva, marcada pela dureza e pela cesura. Ao autor português são dedicados quatro ensaios. Talvez por sua escrita denunciar os próprios limites dela? Ou a consciência que Lobo Antunes, como escritor, tem das possibilidades-impossibilidades? Independentemente da perspectiva a ser considerada, Lobo Antunes, ao lado de José Cardoso Pires, também presente nessa coletânea, é uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea.

A expressão de Kafka “escrever para poder morrer — morrer para poder escrever” parece permear as falas e as análises. A literatura como oficina e objeto de observação do próprio autor. A literatura que reflete sobre a contemporaneidade sem dar respostas: esse não é o escopo, pois resposta não há. Até que ponto interessa desenvolver uma história certinha num mundo fragmentado? Numa sociedade que vive do e no espetáculo? Ou num “estado de exceção”, para retomar o pensamento de Giorgio Agamben, discutido em algumas passagens do livro?

O que interessa realmente é pensar o “fora” do real, para recuperar Maurice Blanchot, uma das leituras mais citadas em todo o volume de mais de 400 páginas. Nessa perspectiva, o “fora” do real é composto pelas possibilidades evocativas que as palavras carregam em si, uma ausência de referentes diretos, apontando para a morte de toda realidade “palpável”. O texto como uma imagem, sendo ela para Blanchot, numa das passagens de A parte do fogo, “[…] uma ausência absoluta, um contra-mundo que seria como a realização, em seu conjunto, do fato de estar fora do real”.

As possibilidades de abordagem do material literário, uma trama que faz e se desfaz, uma literatura do “não”, como aponta a organizadora na apresentação do livro. Ainda nas palavras de Lélia Parreira Duarte: “[…] uma forma de melhor sondar e compreender os saberes de uma escrita que privilegia as questões da textualidade e da leitura, pois se trata de textos que se ironizam a si mesmos, confessando-se artefato, artifício, elaboração, jogo, arte, revelando consciência de seu caráter de linguagem, exibição do vazio e da falta que caracterizam o sujeito”.

Todas as obras citadas, prosa ou poesia, perpassam ou apresentam questões e problemáticas centrais como o desamparo, o “gênero humano perdido”, a melancolia, a negatividade. A escrita aparenta ser, ao mesmo tempo, solidão e fascínio. Parece interessar tanto ao escritor quanto ao estudioso pesquisador, pela abordagem crítica, o percurso para a configuração do texto e da sua imagem. Como está colocado explicitamente no primeiro ensaio: “A literatura não é imagem dos objetos do mundo, mas a sua própria imagem, imagem da linguagem, linguagem imaginária”. Afirmação que legitima a dimensão performativa já mencionada.

Assim, o campo semântico da morte, aqui, não é aquele mais conhecido como o do misterioso, lúgubre, caminho e destino final, término. É, talvez, ainda mistério. Um mistério, todavia, que também é aquele da literatura e das ambigüidades que fazem parte dela. A experiência da morte sem morrer, um paradoxo que pode reencontrar a vida. A morte como libertadora das concepções apropriadoras e limitadoras, essas sim capazes de nos levar a uma morte real. Ela existe num lugar impreciso, é um rumor inerente às palavras, está “em seus interstícios: é deserto e exílio fora da terra prometida, errância, algo sempre por vir”, nas palavras da organizadora.

Temáticas da literatura, mas não só de todo um pensamento que ganha força no século 20, que no título desse livro estão emblematizadas nas figuras mitológicas: Orfeu e Perséfone. Os cantos de Orfeu e as máscaras de Perséfone. Perséfone, rainha do mundo dos mortos, que divide o ano entre luz e sombra, morte e vida, inferno e não inferno. Filha de Deméter, a deusa da Terra, raptada por Hades, rei do mundo subterrâneo, ela se divide entre esses dois mundos. Assim, temos as famosas máscaras de Perséfone. Orfeu, outra figura mitológica, que não consegue recuperar Eurídice e é morto pelas mulheres trácias de quem despreza o amor. O que resta dele, após a morte, é a prova de sua impotência, a sua obra encantadora que é, ao mesmo tempo, a impossibilidade da completude e da união com Eurídice.

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Lélia Parreira Duarte

É professora titular de Literatura Portuguesa da UFMG. Coordena o grupo de pesquisa “De Orfeu e de Perséfone: figurações da morte nas literaturas portuguesa e brasileira contemporâneas”. Suas mais recentes publicações são Ironia e humor na literatura (2006), As máscaras de Perséfone (2006), A escrita da finitude (2009), Exercícios de viver em palavra e cor (2009), que reúne poemas e reproduções de seus quadros. Em 2011 publicou Potência e negatividade em Fernando Pessoa, ensaio sobre Fernando Pessoa, ilustrado com quadros seus (sobre poemas do poeta).

Estudar essas obras literárias é, portanto, uma forma de melhor sondar e compreender os saberes de uma escrita que privilegia as questões da textualidade e da leitura, pois se trata de textos que se ironizam a si mesmos, confessando-se artefato, artifício, elaboração, jogo, arte revelando consciência de seu caráter de linguagem, exibição do vazio e da falta que caracterizam o sujeito [...]

Lélia_Parreira_Duarte_Orfeu _Persefone_138

Org.: Lélia Parreira Duarte
Ateliê
448 págs.