Perto dos livros

fevereiro 2019 / Perto dos livros / Rubem Fonseca flagra um país pós-humano

Texto publicado na edição #226

Rubem Fonseca flagra um país pós-humano

Aos 93 anos, autor revela uma vitalidade literária invejável, buscando compreender o tempo presente pela ficção

> Por MIGUEL SANCHES NETO

Rubem Fonseca, autor de Carne crua

Rubem Fonseca, autor de Carne crua

Com o passar dos anos, o leitor contumaz vai experimentando um estado de solidão diferente. Os lançamentos de mestres contemporâneos que ele admirava eram motivo de alegria e de descoberta. Estes autores, acompanhados por décadas, vão morrendo ou parando de publicar, tornando raras as oportunidades para este prazer, o de acompanhar extensamente uma produção.

É esta a alegria que senti lendo os novos contos de Rubem Fonseca — em Carne crua —, autor cuja produção acompanho desde o início dos anos 1980. Aos 93 anos, ele revela uma vitalidade literária invejável, buscando compreender o tempo presente pela ficção, a partir de seus temas eternos, que retornam em ondas concêntricas, em uma obsessão que delimita uma estética literária e social.

Nesta coletânea, encontraremos uma repetição deliciosa de trajetórias já consagradas pelo autor. O habitante ou visitante das periferias sociais do Rio de Janeiro, garotas de programa, cafetões e cafetinas, escritores marginais, viciados, anões, solitários perturbados pela falta de sentido de tudo, ricos desorientados, enfim uma fauna de fodidos, mesmo quando com grana. Neste zoológico humano, uma figura se destaca. O matador de aluguel. Já apareceu em várias biografias imaginárias criadas pelo autor, mas agora ressurge na identidade de José, narrador de sua novela O seminarista (2009), no único conto longo de uma obra voltada à brevidade: Nada de novo. Tanto lá quanto aqui, a ideia de um matador impiedoso que tem uma formação religiosa funciona para alertar o leitor para armadilhas dos que mascateiam a bondade, principalmente em um momento histórico em que tantos vendilhões do templo se arvoram santos. Esta conexão entre o representante da ordem religiosa e o crime tem, portanto, uma função crítica atual.

Em Nada de novo, o matador sofre uma perturbação psicológica, pois quer encerrar sua vida criminosa, mas está sob as garras ocultas, e extremamente perigosas, de quem o contrata. Pertence, enquanto instrumento de eliminação humana, a um dono. O conto mostra não o criminoso frio, mas uma pessoa que vive sob medicação e que tem um único objetivo — matar quem o contrata. A busca do Despachante (o mandante) se dá em um clima de tensão, em que José corre o risco de matar inocentes ou de ser flagrado. O final do relato em primeira pessoa deixa explícito o lado perverso do mundo religioso.

Se José se liberta de seu contratante, outros personagens buscam esta profissão rentável no universo social caótico do Brasil, do qual o Rio se faz a face mais visível. Em O mundo vai mal, o personagem desempregado retoma a vida como matador, eliminando um Papai Noel, pessoa que estava na categoria dos que não podem ser mortas, dentro da ética destes assassinos, ao lado de mulheres, anões e crianças. Ou seja, a situação é pervertida mesmo a partir do código de conduta do bandido.

Estas repetições de trajetórias intensificam um mapa humano muito conhecido e estão simbolizadas na repetição do nome do narrador em primeira pessoa: José, prenome de Rubem Fonseca, embora usado não por motivação autobiográfica, mas por ser o mais repetido no mundo, cumprindo assim o papel de representar o homem comum e universal.

Nem só de retomadas, no entanto, se fazem as narrativas. O livro amplia o universo ficcional de Rubem Fonseca, acrescentando dados novos ou definindo melhor outros.

No primeiro caso, é visível uma aproximação estilística com nada mais nada menos do que Dalton Trevisan, outro mestre contemporâneo e companheiro geracional de Rubem Fonseca. Esta vizinhança de procedimentos literários sempre existiu na construção de contos que lembram, até no formato, poemas. Estava em textos como Âmbar gris, Corrente e Os inocentes, de Lúcia McCartney (1969). Dalton também usa o mesmo recurso há tempos, mas ele o intensificou nas últimas obras, a tal ponto de seus contos mínimos se confundirem com poemas. Em Carne crua, são três contos-poemas: Aparecida, Falsificado e O ser é breve. Assim, os dois mestres comungam de uma compreensão comum do que possa ser o conto dos tempos de hoje, de leituras breves de internet.

Outra proximidade, que faz com que Rubem Fonseca se chame Dalton Trevisan em alguns momentos, está na tendência para o conto-piada, uma história que se esgota na chave humorística, e que o curitibano transformou em território próprio, como forma de compreender o universo farsesco da província.

Para além destas convergências, Carne crua aprimora uma tendência contemporânea. Seus narradores estão a todo momento recorrendo a pesquisas na internet para definir as coisas de maneira prolixa. Embora uns ainda usem o dicionário impresso, a maioria confessa dependência em relação às consultas online. “De volta à internet (já disse que sou viciado em internet)”, diz José em Nada de novo. E aí vem a enxurrada de informações desnecessárias, que funcionam apenas para estabilizar psicologicamente estes seres ávidos pela cultura inútil. Temos definições em praticamente todos os contos, quebrando assim o fluxo narrativo que é muito rápido.

Estas alternâncias de ritmo, e de voz, pois o que vem das pesquisas é uma outra linguagem, criam desconforto no leitor, ao mesmo tempo em que denunciam o presente como um grande naufrágio do conhecimento enquanto possibilidade de transformação humana. O acesso a e o acúmulo de fatos, datas, nomes e explicações não produzem nenhum impacto no indivíduo. “Hoje, ninguém lê livros, todo mundo tem coisas melhores e mais fáceis para fazer, ver televisão, andar de carro, cheirar cocaína, fumar maconha, tomar uísque, falar no celular, mandar mensagens no WhatsApp, foder — foder não, ninguém mais fode, quem quer ter filho faz inseminação artificial. Foder saiu de moda.” Ler também saiu da moda. Isso porque o ser humano está se desprogramando para a leitura literária em um ritmo muito rápido.

Os contos de Carne crua apresentam uma percepção do mundo apocalítico, em que findam as instituições, a solidariedade entre seres vivos, a cultura humanizante e mesmo a realização pelo encontro sexual com o outro, cabendo a esta imensa população desorientada ir se entredevorando, animalescamente. Não por acaso, o conto que dá título ao volume é a história sobre um canibal, viciado em carne de gente e de animais de estimação.

 

 

Rubem_Fonseca_Carne_crua_226

Carne crua
Rubem Fonseca
Nova Fronteira
144 págs.

 

 

Print Friendly