Dom Casmurro

fevereiro 2018 / Dom Casmurro / Ron Padgett

Texto publicado na edição #214

Ron Padgett

Dez poemas de Ron Padgett

> Por André Caramuru Aubert

Ron_Padgett_214

Seleção e tradução: André Caramuru Aubert

After Reverdy

I would never have wanted to see your sad face again
Your cheeks and your windy hair
I went all across the country
Under this humid woodpecker
Day and night
Under the sun and the rain

Now we are face to face again
What does one say to my face

Once I rested up against a tree
So long
I got sucked to it
That kind of love is terrible
Depois de Reverdy

Eu jamais desejei olhar novamente para sua triste face
Suas bochechas e seu cabelo esvoaçante
Eu viajei pelo país inteiro
Sob este úmido pica-pau
Dia e noite
Sob sol e chuva

Agora estamos de novo face a face
O que alguém dirá à minha face

Uma vez descansei recostado em uma árvore
Por tanto tempo
que acabei preso a ela
Um tipo de amor que é terrível

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Blacktop

The newly blacktopped highway with the bright yellow stripe down the middle slides under and behind you like a deep carpet as you whiz toward home in the silent and starry night, but deep inside the motor the pistons are incredible hot and intense, and the noise is terrible, and the sparkplugs are spitting little zaps of electricity like crazy — and all for you, moviegoers laughing on your way home.
Asfalto

A estrada de asfalto recente com a brilhante faixa amarela no meio desliza por baixo e para trás de vocês como um denso tapete enquanto vocês vão zumbindo pra casa na calma e estrelada noite, mas nas profundezas do motor os pistões estão incrivelmente ativos e quentes, e o barulho é terrível, e as velas estão como loucas cuspindo pequenos jatos de eletricidade — e tudo pra vocês, que saem do cinema, sorridentes, a caminho de casa.

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Poem (1976)

I don’t know
I may not be much
Be a mess
Personality no good
All surface no inner strength
Poetry not any good
I might die an old man
Scribbler of trash
Forgotten paper-scratcher
But I’ll tell you this
I really love to lay around on my ass
Totally watching television
Poema

Não sei
Posso não ser grande coisa
Ser uma zona
Personalidade nada boa
Todo superfície sem força interior
Poesia nem um pouco boa
Eu talvez morra bem velho
Escrevinhador de lixo
Um esquecido rabiscador de papel
Mas vou lhe dizer
Que realmente adoro ficar por aí sentado em minha bunda
Largado assistindo televisão

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Night poem

The lights go on,
heart
pitter-pat-clunk-bop.
I go out
in the dark,
stars up
behind a tree
past which the wind
is shifting and flows
along the back of
my neck, where
childhood is.
Poema noturno

Luzes se acendem
o coração
tum-tum-puf-pum.
Vou para fora
no escuro,
estrelas no alto
atrás de uma árvore
através da qual o vento
está virando e corre
por trás
do meu pescoço, onde está
a infância.

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Matins

I come here and sit down
with no faith in what
I’m about to do, that is
keep these words from flying
off the whoosh there goes one
and whoosh another, little paper
airplanes that take off on
their own, one to the first
blue jay of the day,
the other to the pulsing
inside of my entire body.
And it’s quiet outside,
rain on the way.
Matinas

Chego aqui e me sento
sem qualquer fé no que
estou prestes a fazer, que é
evitar que estas palavras voem
daqui, zupt, lá se foi uma
e zupt outra, como aviões
de papel que decolam por
conta própria, um para o primeiro
gaio-azul do dia,
o outro para a pulsação
dentro do meu corpo inteiro.
E está calmo lá fora,
a chuva a caminho.

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The stapler

When my mother died
she left very little: old clothes,
modest furniture, dishes, some
change, and that was about it.
Except for the stapler. I found it
in a drawer stuffed with old bills
and bank statements. Right off
I noticed how easily it penetrated
stacks of paper, leaving no bruise
on the heel of my hand.
It worked so well I brought it home,
along with a box of staples, from
which only a few of the original 5,000
were missing. The trick is remembering
how to load it — it takes me several minutes
to figure it out each time, but I persist until
Oh yes, that’s it! Somewhere in all this
my mother is spread and floating
like a mist so fine it can’t be seen,
an idea of wafting, the opposite of stapler.
O grampeador

Quando minha mãe morreu
deixou muito pouco: roupas velhas,
móveis baratos, louça, algum
troco, e isso foi basicamente tudo.
Exceto pelo grampeador. Eu o achei
numa gaveta repleta de contas velhas
e cartas do banco. Logo de cara
me dei conta de quão facilmente ele penetrava
pilhas de papel, sem deixar marcas
na palma da minha mão.
Ele funcionava tão bem que o levei para casa.
Junto com uma caixa de grampos, da qual
só estavam faltando uns poucos dos
5.000 originais. O difícil é lembrar
como recarregá-lo — isso a cada vez me toma
alguns bons minutos, mas eu insisto até que
Ah, sim, é desse jeito! Em algum lugar no meio
disso minha mãe está presente e flutuando
como uma névoa tão leve que não pode ser vista,
uma sensação de sopro, o oposto de grampeador.

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Poem (1979)

When you get out of the shower
in 1932
Los Angeles
is gleaming with light,
a shiny modern city surrounded
by groves of lovely oranges,
and as you reach for the towel
a cloud of dust is rising
and I have been wondering,
which part of your body do you dry first?
Poema

Quando você sai do chuveiro
em 1932
Los Angeles
brilha com a luz,
cidade moderna e cintilante rodeada
por pomares de laranjais adoráveis,
e enquanto você tenta alcançar a toalha
uma nuvem de poeira se levanta
e eu tenho pensado,
que parte do seu corpo você seca primeiro?

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Sonnet

Lights in daytime indoors make outside
less real until night
falls. Night is falling now, 6
p.m., March 26, 1972, Vermont, USA:
too late for tea and too early for dinner,
reminiscent of the Windsor Diner
on US 5 today: shining silver with red
trim perched over an abyss. Risk
your life for a hamburger? With
mayonnaise and tomato? Outside now
the snow is blue with purple rips,
brown snags, tufts of gray and green
twigs reaching toward treehood. Pretty
soon dark, dinner, smoke and lights out.
Soneto

Luzes de dia dentro de casa deixam lá fora
parecendo menos real, até que a noite
caia. A noite vai caindo agora, seis
da tarde, 26 de março de 1972, Vermont, EUA:
muito tarde para um chá e muito cedo para o jantar,
lembrança de hoje no Windsor Diner
na rodovia 5: a prata brilhando com o balcão
vermelho empoleirado sobre um abismo. Você arriscaria
a vida por um hambúrguer? Com
maionese e tomate? Lá fora, agora,
a neve está azul, com listas roxas,
manchas marrons, tufos de cinza e galhos
verdes na direção das copas das árvores. Logo
mais, escuridão, jantar, cigarro e apagar as luzes.

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To myself

And another thing.
This same window
I looked out of
how many years ago
and heard my future
in the form of car tires
hissing against pavement
and now read of it
in a poem written that night
I had on an old bathrobe
black and gray and white
thick heavy cotton
out of a thirties movie
and at the bottom
of which my legs stuck out
with wool socks on feet
that shuffled me over
to the window
that had raindrops
all over it and shuffled me
back to my desk to write
that poem, feeling moved
by the height of the quiet waiting,
an animal in the dark
wanting to sing in English.
Para mim

E mais uma coisa.
Esta mesma janela
pela qual olhei para fora
quantos anos atrás
e ouvi meu futuro
na forma de pneus de carros
assobiando no asfalto
e agora leio sobre isso
num poema escrito naquela noite
eu usava um velho roupão de banho
preto e cinza e branco
de algodão grosso
saído de um filme dos anos trinta
e sob o qual
minhas pernas ficaram presas
com meias de lãs nos pés
que me lançaram em
direção à janela
cheia de gotas de chuva e me lançaram
de volta à minha mesa para escrever
aquele poema, tocado
pelo ápice da espera serena,
um animal no escuro
querendo cantar em inglês.

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Poem (1990)

When I am dead and gone
they will say of me,
“We never could figure out
what he was talking about,
but it was clear that he
understood very well
that modernism is a branch
that was cut off decades ago.”
Guess who said that.
Mutt and Jeff
who used to look so good
in the comics.
I especially liked their mustaches,
and the sense in it
that God is watching
from some untelevised height,
and sometimes
throws himself on the ground.
There is a tremendous impact,
for the molecules of God
are just tremendous.
Poema

quando eu estiver morto e enterrado
as pessoas dirão de mim,
“Nós jamais conseguimos entender
sobre o que ele estava falando,
mas estava claro que ele
sabia com clareza
que o modernismo é um galho
que foi cortado há décadas.”
Adivinhe quem falou isso:
Mutt e Jeff
que apareciam bem
nos quadrinhos.
Eu gostava especialmente de seus bigodes,
e a sensação que passavam
de que Deus está de olho
a partir de alturas não televisionadas
e às vezes
lança-se contra o chão.
Quando ocorre um tremendo impacto,
porque as moléculas de Deus
são simplesmente tremendas.
Ron Padgett
Nasceu em Tulsa, Oklahoma, em 1942, e é considerado um dos poetas mais importantes da segunda geração da New York School. Discípulo de Frank O’Hara e Allen Ginsberg, alguns de seus poemas apareceram com destaque no filme Paterson, de Jim Jarmusch.

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