Ensaios e Resenhas

maio 2015 / Ensaios e Resenhas / Romancinho bem-intencionado

Texto publicado na edição #180

Romancinho bem-intencionado

Ribeiro Couto e seu Cabocla estão sentados ao lado do capeta no inferno das boas intenções

> Por RODRIGO GURGEL

Ilustração: Hallina Beltrão

Ilustração: Hallina Beltrão

Escrever um romance não exige apenas ânimo. Essa prova de resistência não requer somente fôlego, mas disciplina e técnica. Refiro-me, é claro, a verdadeiros romances — e não a esses contos ampliados que algumas editoras publicam em papel de alta gramatura e com letras grandes, do contrário o texto caberia num folheto de cordel. Não me refiro a esses livrinhos citados como romance, anunciados como romance, vendidos como romance e criticados como romance — mas que não passam de opúsculos.

O desprezo pela classificação das obras segundo gêneros literários ou, dizendo de outro modo, a insistência em relativizar essa classificação, se, por um lado, parece dar maior conforto aos escritores, libertando-os de quaisquer parâmetros, por outro contribui à mesmice em que chafurdamos, na qual muitos se sentem obrigados, para agradar aos membros de sua panelinha, a fazer de conta que é impossível discernir as diferenças entre Morte em Veneza e Doutor Fausto.

Ora, afirmar que não há dessemelhança formal entre Missa do Galo e Dom Casmurro exige imensa dose de cinismo. E mostra que não se trata apenas de apregoar a duvidosa implosão dos gêneros literários, mas de cumprir uma agenda política — trata-se de, numa afetação própria da chamada modernidade, confundir, baralhar, induzir leitores e escritores ao erro.

Mas voltemos ao início.

À literatura, como à própria vida, não bastam disposição e boas intenções. Se bastassem, temas sugestivos, na mão de qualquer alfabetizado, se transformariam em grandes livros. Na verdade, o inferno da literatura está repleto de bem-intencionados que produziram banalidades.

É o caso de Ribeiro Couto e seu Cabocla, publicado em 1931.

Detalhista sensível

O livro abre com o narrador-protagonista, Jerônimo, anunciando sua contrariada partida para a Fazenda do Córrego Fundo, em Vila da Mata, no Espírito Santo. Ali, na propriedade de seus primos, iniciará o tratamento de uma lesão pulmonar. O jovem boêmio paga o preço da vida desregrada. Mas não o faz sem ironia:

O doutor dissera que eu tinha uma lesão de primeiro grau no pulmão direito. Sua luneta de tartaruga, de cordão preto atrás da orelha, dava-lhe um ar de sábio infalível. Eu não acreditava na lesão, mas acreditava no doutor.

Nesse estilo simples, despojado, o narrador apresenta fatos centrais de sua vida e seus casos amorosos, incluindo Pequetita Novais, “a mais esquiva de todas as cariocas”, sem deixar de insistir, bem-humorado, na decepção por não fazer o tratamento em algum país europeu.

O texto flui de maneira agradável — e Ribeiro Couto domina os recursos que a língua oferece. Veja-se, por exemplo, esta descrição, uma das primeiras impressões do viajante quando chega ao lugarejo que circunda a estação ferroviária, poucos quilômetros distante da fazenda:

No rés-do-chão era a vendinha do José da Estação, com duas portas. No compartimento ao lado, também com porta para a rua, havia o refeitório do hotel. Nas prateleiras de um armário velho, com bicos de papel de cor, empilhava-se a louça grosseira, junto à qual um paliteiro de porcelana azul parecia desterrado como um objeto de luxo.

Logo a seguir, a composição de Zuca, cabocla por quem Jerônimo se apaixona, mostra-se perfeita. A jovem não é modelo de beleza, o que concede verossimilhança à narrativa:

Eu ia agradecer a Siá Bina as boas palavras, quando surgiu da cozinha, num vestido de chita vermelha, uma espécie de Nossa Senhora morena, com um rostinho redondo em que tudo era gracioso: o queixo, a boca, o nariz. Apenas a fronte era larga, por cima de uns olhos pretos de expressão austera; parecia que aqueles olhos não sorriam nunca.

[…]

Aproximou-se de mim: era uma mulherzinha de pés pequenos, cintura fina, mas com seios opulentos. Este pormenor chocou-me, parecia quebrar a castidade do conjunto.

A menina que, na frente dos pais, apresenta-se de “olhos baixos” e “envergonhada”, muda de comportamento ao ver-se sozinha com Jerônimo. Torna-se falante, ri, confundindo o protagonista:

Que significava aquele desembaraço, aquele tom? O vestido de chita e o chinelo cara-de-gato, de repente, se me afiguraram um disfarce. Não era mais a filha do José da Estação, era uma menina da cidade em travesti de moça de roça. Minha expressão de surpresa devia parecer-lhe cômica, porque ela se pôs a rir, divertida.

Essa personalidade algo complexa, insinuante, delineada já no Capítulo II, mescla-se ao perfil idealista de Jerônimo, também anunciado desde seu primeiro momento na roça:

[…] Súbito, pensei em Pequetita Novais, irônica, citadina, com um brilho de malícia nos grandes olhos verdes. Pensei em Pepa la Sevilhana, festiva, mercenária, pública. Uma ternura indefinível me invadiu, não apenas por aquela mocinha, mas também por todas as outras, pelo país afora, nos lugarejos apagados; todas as que, como Zuca, eram criadas nos arranjos da casa, sem vaidades, nem ambições, e amanhã seriam mães, educariam com a mesma simplicidade e para o mesmo fim outras brasileirinhas de cara redonda. Até eu não conhecia do Brasil senão a multidão do Rio, atormentada de dificuldades de dinheiro e do desejo incontentável de divertir-se. Pela primeira vez me pareceu doce o destino de viver obscuramente, acordando com o sol e dormindo com o recolher das galinhas, no ar livre dos campos, longe dos carnavais e dos cassinos.

Tais sentimentos evoluirão no transcorrer do romance, passando por uma crise de melancolia até chegar à decisão de se estabelecer definitivamente na zona rural.

A estas características, devemos acrescentar a indiscutível habilidade para compor cenários. Ribeiro Couto sabe selecionar os elementos e revelar pormenores eloquentes:

O fordinho estava encostado à porta. Poeirento, com placas de lama ressequida, sem capota, seria risível nas ruas do Rio. Ali, entre aqueles casebres decadentes, parecia uma carruagem de luxo. Dois velhos caboclos de barbicha rala, acocorados, fumando o pito com cusparadas metódicas a cada instante, examinavam abstratos as rodas imóveis. Na estação, a sineta anunciou que um trem partira da localidade mais próxima. A casa do chefe, ao lado da plataforma, tinha um quintalzinho plantado de couves, protegido por uma cerca de bambus. Na praça, os casebres continuavam fechados, mas dos telhados principiava a sair uma fumaça lenta. Pau d’Alho despertava.

Há outros componentes elogiáveis. Veja-se, no Capítulo VII, Mulher, como Ribeiro Couto constrói a cena na qual Jerônimo descobre o noivado de Zuca. O narrador entremeia de divagações ciumentas o seu diálogo com o jovem caixeiro, em que esmiúça o relacionamento da cabocla. Devagar, o ciúme torturante cresce e se transforma em cólera, ainda que contida. Minutos mais tarde, quando o leitor acredita que a emoção foi superada, o encontro com dois vendedores obriga-o a remoer o sentimento:

[…] E como o hoteleiro tivesse subido para levar as valises aos quartos, um deles — que era bexigoso e tinha um anel de brilhantes num dedo cabeludo — curvou-se para mim, confidencialmente:

— Conhece a pequena aqui do hotel?

Piscou-me um olho. O outro, reforçando a intenção da pergunta com um gesto, inclinou-se também:

— Isto que é um pedaço de morena!

O escritor que é detalhista sensível — ele pode nos mostrar, meio escondida sob a blusa de Zuca, “a camisinha de morim barato, enfeitada de renda ordinária” — também consegue dar vida a personagens cativantes, cujas personalidades se revelam principalmente nas cartas que escrevem. E não estamos diante de um autor que apenas sabe tecer construções frasais — Ribeiro Couto faz transbordar de cada frase, de cada escolha vocabular, de cada erro gramatical, o personagem inteiro.

Não escrever Cabocla na forma de um romance epistolar foi um tremendo erro. Ele teria produzido trabalho memorável, superior, em todos os sentidos, ao medíocre A correspondência de uma estação de cura, de João do Rio, que analisei neste Rascunho e em Esquecidos & superestimados.

Pai desconhecido

O escritor, contudo, não consegue sustentar essas qualidades, não mantém um padrão, parece mesmo desistir da trama complexa que anuncia no primeiro terço do romance.

O comportamento dúbio de Zuca, anunciado logo no início, não se concretiza. Ou melhor, a cabocla que dá título ao livro, promessa de mulher insinuante, mas que finge pureza na frente dos pais, torna-se uma sonâmbula. Pode jogar beijos furtivos a Jerônimo logo depois do primeiro rápido encontro e mostrar-se extremosa quando a tuberculose o prende à cama, mas pouco fala e raramente age.

Seu mutismo não é o silêncio da caipira acanhada — o que seria compreensível —, mas uma imperfeição da narrativa, que a transforma num fantoche. Zuca é de uma passividade atordoante, cansativa. Não se esforça para seduzir — e o protagonista se apaixona; não verbaliza seus sentimentos — e o protagonista faz tudo por ela; não recusa ou aceita — apenas deixa que o mundo gire à sua volta. É uma esfinge — mas não esconde nenhum segredo. Ao contrário, é impossível ser mais invariável, insossa e rasa.

O autor também cria cenas inconsistentes. Veja-se, por exemplo, o final do Capítulo VII: é noite; Jerônimo parte, no fordinho do primo, para a fazenda; não estamos numa avenida iluminada, mas na escuridão do mato; ele diminui a velocidade quando a estrada circunda o laranjal nos fundos da residência de Zuca; e de repente, zás: um molho de cravos cai no seu colo, jogado não se sabe de onde. Com certeza foi a cabocla. Mas até esse momento ninguém havia informado ao leitor que a jovem possuía visão noturna. Além disso, ela precisaria ser uma atleta olímpica para fazer o feixe de cravos e cruzar o amplo terreno — levando-se em conta a descrição que o narrador oferece no primeiro capítulo — ao mesmo tempo que Jerônimo.

A narrativa se torna quase esquemática à medida que a saúde de Jerônimo se complica. Os capítulos XVII e XVIII são resumos do que merecia ser desenvolvido de maneira paulatina, a fim de construir, efetivamente, o drama diante do leitor. Mas Ribeiro Couto, movido por inexplicável pressa, ficou satisfeito em escrever um esboço.

O narrador fala muito de si mesmo. Centrado nos próprios sentimentos,  é fatal que seu bucolismo se torne entediante. Na última terça parte do livro já antevemos, dada a primeira linha de qualquer explanação, tudo o que ele nos dirá. Até seus sentimentos em relação a Zuca são repetitivos. E sua melancolia romântica, que faz lembrar as piores páginas de Álvares de Azevedo, enfastia o leitor mais benévolo.

Jerônimo poderia falar do que experimenta em seu coração sem esquecer de narrar a vida dos demais personagens. Mas o autor não quis ou não teve habilidade para compor um quadro complexo, em que várias histórias se entrecruzam ou o drama dos personagens secundários complementa o núcleo da narrativa. Assim, jamais saberemos como Pequetita Novais, sempre pronta a fisgar um bom partido, acaba por seduzir e casar com o próprio pai de Jerônimo, Joaquim. Este, aliás, que se mostra sábio, firme e decidido em grande parte do livro, acaba se fechando num silêncio incompreensível.

Mas o final reserva a pior surpresa. Zuca e Jerônimo passam o livro inteiro num namoro casto, de muitos beijos e… nada mais. O narrador faz contorcionismos fantásticos para assegurar ao leitor a pureza da relação. Muito bem. Eles casam e seguem felizes para seu destino pastoril. No trem, aconchegada nos braços protetores do amado, Zuca revela que está grávida — e o leitor, boquiaberto, fecha o livro com a certeza de que Ribeiro Couto esqueceu de contar quem é o pai.

Cabocla é, portanto, apenas um romancinho bem-intencionado, destruído por um escritor que não teve habilidade para ser perfeito de fio a pavio.

NOTA

Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Humberto de Campos e O monstro e outros contos.

 

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Rui Ribeiro Couto

Nasceu em Santos (SP), em 1898. Cursou a Escola de Comércio José Bonifácio em sua cidade natal e depois se matriculou na Faculdade de Direito de São Paulo, bacharelando-se, contudo, na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio, em 1919. Exerceu o jornalismo em São Paulo e no Rio. Promotor público dos estados de São Paulo e Minas Gerais, entrou para o serviço diplomático e serviu em vários postos europeus. Deixou os livros de contos: A casa do gato cinzento (1922), O crime do estudante Batista (1922), Baianinha e outras mulheres (1927), Clube das esposas enganadas (1933) e Largo da Matriz (1940). Além de volumes reunindo poemas, crônicas, ensaios e relatos de viagem, publicou o romance Prima Belinha (1940). Morreu em Paris, em 1963.

Nos riachos, no mato do Pinhalzinho, nos espigões, nos horizontes da fazenda, procurei em vão a alma de outros dias. Não tive gosto em nada. Não fora então a descoberta da terra, não fora a revelação daqueles mesmos ambientes que produzira a embriaguez antiga?