Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Romance de afetação

Texto publicado na edição #121

Romance de afetação

  Isabela tem um cotidiano nada prosaico. Psicanalista, leva uma vida burguesa que poderia ser transposta para as telas de […]

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

 

Paula Parisot por Ramon Muniz

Isabela tem um cotidiano nada prosaico. Psicanalista, leva uma vida burguesa que poderia ser transposta para as telas de cinema, ou mesmo para os seriados de tevê, já que está entre a categoria dos desajustados e a dos incompreendidos. Isabela, no entanto, não está na tevê ou no cinema — ao menos por enquanto. O seu “palco” é o romance Gonzos e parafusos, assinado por Paula Parisot, editado recentemente pela Leya. A propósito de seu lançamento, a editora promoveu um evento (!) em torno de Paula Parisot, que ficou durante uma semana “presa” em um quarto projetado por uma designer em uma grande livraria em São Paulo. Segundo consta, a intenção da autora era reproduzir o quarto de repouso tal qual está escrito em Gonzos e parafusos. O resultado disso? Para além de algum destaque na imprensa, sem mencionar a inusitada visita do escritor Rubem Fonseca ao local, o happening do lançamento do livro diz muito acerca do significado literário da obra, como se o evento representasse parte fundamental do livro.

Para que as partes não fiquem soltas, é necessário (tentar) entender de que maneira a obra se constitui. Tarefa nada fácil, a despeito da narrativa esquemática de Paula Parisot. Explica-se. Embora cumpra com precisão as técnicas modelares desses cursos de escrita criativa, ou de alguns gurus do romance contemporâneo, o livro de Parisot, a rigor, não diz a que veio. Pior: é, do início ao fim, um romance de afetação, no qual a autora desfila com competência suas referências intelectuais, suas leituras e, claro, sua visão de mundo a partir da psicanálise. Que fique claro: não há nada de errado em ter e demonstrar erudição. Escritores de talento são pródigos em exibir essas virtudes. O problema está no fato de que esse desfile em nada ajuda a compreender a obra. Serve, em vez disso, para ocupar o terreno em que a narrativa deveria acontecer. Assim, já no começo, Isabela dispara que os versos de Quatro quartetos, de T. S. Elitot, não lhe saíam da cabeça. É o terceiro parágrafo de um romance que se assume de idéias, mas cujo resultado não ultrapassa a proposta.

Adiante, descobre-se quem são os amigos dessa jornada, a um só tempo, breve, porém densa no imaginário de Parisot/Isabela. De um lado, no campo das recordações, a memória afetiva da avó, dos pais, bem como suas histórias conturbadas ao lado da mãe. A idéia de suicídio permeia a trajetória de Isabela, que, afetada, parece carregar consigo a culpa de ser demasiado humana. Nesse ponto, a protagonista ora encara com normalidade, ora rejeita sua crise de identidade, sendo severa para consigo e leniente para com os pacientes. Por outro lado, seus amigos atuam como interlocutores presentes de um universo que não é imaginário, porém a relação, nesse caso, é tão ou mais conturbada. Federico Sanchéz, Amanda, Diogo, Tânia e Denise, a empregada, compõem uma galeria de personagens exóticos que concedem um tom bastante diversificado à narrativa, porém sem real importância para o desenvolvimento da obra. Como peças substituíveis, poderiam ser facilmente trocados, e o esquema da autora permaneceria intocável.

Como conseqüência, a história não avança de maneira articulada. Em defesa das escolhas de Parisot, pode-se argumentar que a autora, desde o princípio, não tinha o objetivo de adotar esse procedimento, digamos, aristotélico, haja vista que a obra é dividida em O começo que não é o início, Meio e O fim que continua. Em vez de “obra aberta”, o texto assume um caráter tão fragmentado que dá a impressão de ter sido construído sem as amarras necessárias ou aos pedaços. Por essa razão, o elo mais fraco é, curiosamente, o da escritura. Curioso porque a escritora consegue, sim, conceber tipos interessantes no tocante às personagens, assim como cria um histórico ideal como justificativa para a plausível inadequação de Isabela, do mesmo modo que envolve esses personagens em torno de uma história comum, ao estabelecer laços afetivos e até carnais entre si. Separadamente, são os componentes fundamentais para a construção de um belo tecido. É a costura, no entanto, que não sai adequada. Ao tentar constituir um tecido, Paula Parisot fabrica um arremedo de colcha de retalhos. Sem apelar às metáforas, um texto que tenta engatar várias vezes, mas sem iniciar de fato.

Discurso tortuoso
“Freud nunca é demais”, assevera Isabela, a certa altura do romance. Em verdade, com tal declaração, é possível constatar a estratégia de Paula Parisot. Para que as 164 páginas do romance tenham consistência, a escritora utiliza referências literárias, como Emily Dickinson, Flaubert e até mesmo Freud, autoridades que escondem a fragilidade da história de Isabela/Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt. Isso porque, a certa altura, e esse parece ser o mote da narrativa, Isabela não sabe qual é a linha que a separa de uma das mulheres de Gustav Klimt. Recorre, para resolver esse dilema, a um tratamento drástico, cujo resultado, verão os leitores, é simbólico para o tipo de literatura a que se propõe realizar Paula Parisot.

É nesse sentido que o romance se confunde com o happening do qual foi protagonista Paula Parisot. Ungida com as vestes de sua Isabela, a autora buscava dar vida a uma personagem cuja existência só é possível no campo da adaptação, da verossimilhança, da emulação. No universo ficcional, por sua vez, sua presença só se torna possível tomando emprestado outros elementos do romance, daí a necessidade constante das referências — não para render homenagem ou algo que o valha, mas, sim, para afiançar que uma figura como Isabela, desajustada e incompreendida, caso não existisse, teria de ser inventada pelos mestres da literatura.

Como romance, Gonzos e parafusos é uma ambiciosa tentativa de peça literária, nada mais do que isso. Embora possa ser lido de diversas maneiras (um quase-romance, um caderno de fragmentos de textos clássicos etc.), trata-se, essencialmente, de um texto exemplar de certa casta da literatura brasileira contemporânea. Um grupo cujo grande projeto estético é o da aparência, detalhe que atualmente faz todo sentido na lógica da sociedade do espetáculo. Nesse cenário, acontecimentos como o do lançamento do livro não servem apenas como representações ou metáforas. São, isto sim, estruturas subjacentes à ficção. É o triunfo da vida como performance.

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Paula Parisot

paula

Gonzos e parafusos é o segundo livro e o primeiro romance de PAULA PARISOT. A escritora carioca, mestre em Belas-Artes pela New School University, em Nova York, é autora do livro de contos A dama da solidão, publicado pela Companhia das Letras em 2007.

Ele me disse seu nome, Yevgeny Ivanovich. Aquele nome pareceu-me saído de Dostoievski ou de Tchekov, com seus personagens que amam com desespero, choram de felicidade, extremistas que se deixam criar pelas paixões. Eram assim os russos da minha imaginação. Grandes amantes, violentos, capazes de gestos covardes e atos heróicos. Há quem diga que os russos são sujeitos em média grosseiros que, antes da Revolução, se dividiam entre camponeses ignorantes e aristocratas que disfarçavam com superficial elegância a sua má índole e gostavam de falar francês.

Paula Parisot_Gonzos_parafusos_121

Paula Parisot
Leya
164 págs.