Paiol Literário

janeiro 2012 / Paiol Literário / Roberto Gomes

Texto publicado na edição #114

Roberto Gomes

Roberto Gomes nasceu em Blumenau (SC), em 1944, e, duas décadas depois, mudou-se para Curitiba (PR), onde vive. É formado […]

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Roberto Gomes no Paiol Literário. Foto: Matheus Dias

Roberto Gomes nasceu em Blumenau (SC), em 1944, e, duas décadas depois, mudou-se para Curitiba (PR), onde vive. É formado em filosofia pela PUC-PR e foi professor da Universidade Federal do Paraná até 1998. É editor, cronista do jornal Gazeta do Povo e autor de livros como Crítica da razão tupiniquim, Sabrina de trotoar e de tacape, Alegres memórias de um cadáver, Exercícios de solidão, Os dias do demônio e Júlia, entre outros. Em sua participação no projeto Paiol Literário, durante a I Bienal do Livro de Curitiba, Roberto Gomes, proprietário da Criar Edições, falou, entre vários outros assuntos, sobre o mercado editorial brasileiro, a falta de interesse dos leitores jovens pela literatura nacional e o resgate de fatos e personagens históricos presente em algumas de suas obras.

• Humorismo e costura
A literatura e a leitura entraram cedo na minha vida. Meu pai era jornalista, lia muito, tinha uma biblioteca e trazia revistas para casa. Na época, havia uma revista de humorismo chamada Careta, com excelentes textos e caricaturas. Comecei a ler nessa revista. Foi meu primeiro contato com a leitura. E eu me divertia muito com aquilo. Curiosamente, meu segundo contato se deu por meio de minha mãe, que era costureira. Ela assinava uma revista de moldes de costura, de vestidos, aquela coisa toda. E, no interior dessa revista, na sua página central, vinha sempre publicado um conto. Já nem me lembro dos autores que os escreviam. Só me lembro que eram contos ilustrados. Metade da página era uma bela ilustração. Eu tinha talvez nove, dez anos, e adorava ler. Eu lia aquelas histórias e, como sempre desenhei — e até hoje desenho —, minha grande curtição era copiar as ilustrações. Copiava a ilustração e lia a história.

• Pirado no Twain
Fui adquirindo certo fascínio pelas coisas relacionadas aos livros e à leitura. Quando eu tinha dez, onze anos, um casal de amigos da minha mãe me presenteou, num aniversário, com um livro. Foi o primeiro que ganhei. Um livro ilustrado sobre as origens do petróleo, imaginem. Mas ele era cheio de dinossauros, havia vulcões, e terra explodindo, e uma história muito bem contada. Até hoje guardo a minha sensação de fascínio por aquilo. Eu ficava horas olhando para o livro, querendo saber mais. Foi algo muito espontâneo. Nenhum professor me orientou quanto a isso. Nem mesmo meu pai. Eu sabia que ele lia. Mas ele não chegava para mim e dizia: “Leia isso, faça aquilo”. Até que, quando fiz 13 anos, meu irmão Orlando me deu As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Uma história extraordinária, própria para aquele momento da minha vida. Os personagens são moleques de 12, 13 anos, a fase de aprontar encrenca na vizinhança, uma delícia. Então, ele me trouxe aquela obra. O primeiro livro de 300 e tantas páginas que eu pegava. E foi curioso: comecei a lê-lo na sexta-feira, meio desconfiado. Letrinha pequenininha, muita página. “Certo, vamos ler.” Comecei e não parei. Li sexta, sábado e domingo. E causei certa estranheza nos meus amigos. Eles foram me procurar dizendo: “Escuta, você não vai jogar futebol?”. “Não, depois eu vou.” “Como depois? O jogo é agora. O que você está fazendo?” “Eu estou lendo.” Aí, eles ficaram assustados. Acharam que eu tinha pirado. “Estou lendo um negócio, depois eu vou.” Sei que li o livro de sexta a domingo, e o terminei. Há algumas coisas que não podem ser explicadas.

• Todos os livros são um só livro
A leitura é uma coisa exigente. Você pode dirigir o seu carro ouvindo música. Pode ouvir música andando, entre várias pessoas. Pode ver uma exposição de quadros ao lado de muita gente. Pode folhear um livro com reproduções de obras de arte e escutar música ao mesmo tempo. Mas a leitura exige uma solidão, uma concentração. Exige que você se desligue do resto do mundo. Algumas pessoas — eu inclusive — não conseguem ouvir música enquanto lêem. A música atrapalha, interfere na própria música do texto. Então, a leitura é uma coisa muito exigente. Mas é uma experiência de individualidade, de subjetividade. Ela exige esse isolamento. E o processo fundamental da leitura é certa descoberta que você faz de si mesmo. Um processo de descoberta que dura o resto da sua vida. Nesse sentido, todos os livros são um livro só. Você vai lendo, lendo e lendo e, no fundo, está tentando descobrir quem você é, afinal. É um processo contínuo, que não cessa nunca. O processo da leitura é este: um contato de você com você mesmo. Um processo de autotransformação.

• Família de ciganos
Tenho um livro chamado Todas as casas, um romance em que acompanho o meu personagem desde o nascimento até os seus 19 anos. E, nesse período de vida, ele vive em 12 casas diferentes. E ele vai mudando, de casa em casa, o que corresponde um pouco à minha própria experiência pessoal. Não sei por que, mas a minha família parecia uma família de ciganos. Para lá e para cá. Moramos em muitas casas. E, nesse livro, cada capítulo é uma casa, um lugar onde esse meu personagem esteve, com todas as suas características, preocupações, amigos, problemas, dificuldades. E algo comum a essas 12 casas, e que vai dando sentido à história, é justamente o processo de leitura. É a leitura que vai costurando todas essas etapas da vida do indivíduo.

• Ampliação do mundo
Eu era morbidamente tímido. Hoje sou apenas tímido. Mas, como eu era morbidamente tímido, é claro que eu tinha essa tendência de ficar meio isolado, me protegendo, não deixando que outros me perturbassem a vida. E, nesse sentido, o livro tem certo aparato que você tece exatamente para isso. O que também não explica nada. Eu tinha amigos extremamente extrovertidos que também curtiam ler. Então, duas coisas eu ressalto na questão da leitura. Uma é esse processo de individuação, de autodescoberta, crescimento, amadurecimento, auto-investigação, algo que caminha no sentido da subjetividade. E a outra coisa é o seu sentido de ampliação do mundo. É um conceito muito bonito da leitura. Se eu leio, mergulho num outro universo. Num universo que não é meu, onde nunca estive e onde talvez nunca vá estar; penso coisas que não me ocorreram antes e sou submetido a experiências que, às vezes, me dão medo, pavor ou alegria. E isso tudo enriquece a minha experiência. Se eu leio, o mundo em que vivo, mesmo dentro do meu quarto, é enorme. É um mundo gigantesco. A leitura me dá essa possibilidade de ampliação do universo no qual eu vivo.

• O canhão de Victor Hugo
Há um livro de Victor Hugo (Os trabalhadores do mar) que li há muitos anos. Lá pelas tantas, seus personagens estão transportando uma tropa num navio. Uma tropa e um canhão, enorme, imenso, no porão. Só que, no caminho, enfrentaram uma tempestade muito forte, e o canhão, que estava preso, cheio de amarras, aos poucos foi se soltando. À medida que a tempestade se desenvolvia, o canhão “andava” para lá e para cá, pois tinha rodas. Jogado pelo mar, derrubava uma parede, uma porta, um pilar. E Victor Hugo nos vai contando essa cena. Os marinheiros têm que lutar contra o canhão, têm que fazê-lo ficar quieto, sossegado. E toda a luta deles contra o canhão, e aquela tempestade enorme, e o navio ameaçado de naufragar, e aquela sensação de medo e de pavor, e a superação de cada um — acho que tudo isso é a literatura. Por uma experiência dessas nós nunca passamos, e espero que nunca passemos. Mas, pela literatura, a gente vive isso. Somos capazes de reviver isso, de ter uma memória afetiva ligada a um evento que fomos buscar num livro.

Foto: Matheus Dias

 

• Um truque
Meu primeiro livro é de ensaios, de filosofia (Crítica da razão tupiniquim). Mas, na verdade, eu já escrevia ficção antes disso. Comecei tentando fazer ficção. (…) E sei que, quando comecei a ler, eu lia de um modo diferente. Só fui perceber depois. Certas pessoas liam livros e me contavam: “A história é assim e assado, acontece isso e aquilo, o personagem principal é assim”. E vi que eu lia o mesmo livro de outra forma. Eu o lia e pensava: “Interessante como o autor começa este diálogo e, ao fim dele, nos faz dar risada. Mas por que é que a gente dá risada? Se o autor está fazendo a gente rir, então ele tem um truque”. Eu queria saber como é feito o texto. Minha preocupação, mesmo naquele momento, quando ainda não havia escrito nada, era saber como é que se fazia o texto, o que era preciso fazer para o leitor se emocionar, rir, ficar na expectativa do que iria acontecer.

• Meio maluquinho
Quando fiz 16 anos, eu já trabalhava. Precisava trabalhar. Estudava à noite e trabalhava durante o dia, na prefeitura de Blumenau, como desenhista. Quando terminou o meu primeiro mês de trabalho, eu disse à minha mãe: “Vou receber meu salário” — que devia ser um meio salário mínimo. E minha mãe: “O primeiro salário é seu. Faça o que quiser com ele. Sobre o próximo, nós conversamos”. (risos) Ela queria uma participação. Aí, aconteceu uma coisa tão espontânea que, até hoje, não entendo direito, e até acho que foi maluquice mesmo. Eu peguei meu primeiro salário, um pacotinho marronzinho com dinheiro dentro. Ainda não se pagava salário com cheque, nada disso. Peguei aquilo e fui direto à loja de um sujeito que consertava relógios. Nos fundos da loja, ele vendia bugigangas. Coisas usadas. Rádios. E, lá, eu tinha visto uma máquina de escrever. Perguntei a ele: “Quanto custa essa máquina de escrever?”. Era uma máquina de escrever checa, na época nada era feito no Brasil, uma imensa máquina, gigantesca, com um carro enorme. “Essa máquina quanto custa?” E ele: “Custa tanto”. Era um pouco mais que a metade do meu salário. Uma máquina usada, claro. Mas eu a comprei, a botei nas costas e fui para casa. Minha mãe, já acostumada, porque eu era meio maluquinho, quando me viu, perguntou: “O que é isso, que história é essa?”. E eu: “Seguinte, decidi que vou ser escritor”. Disse isso espontaneamente. Ela, claro, deve ter pensado: “Esse guri não tem jeito”. Pus a máquina no meu quarto, num canto. Não tinha mesa, nada. E comecei a escrever coisas.

• Escrevi, e agora?
Seis meses depois de comprar a máquina, escrevi minha primeira crônica. Um pequeno texto em que eu falava mal dos políticos. Mas não sabia o que fazer com aquilo. “Escrevi, e agora? Tenho que publicar.” Meu pai era jornalista, mas pensei: “Não vou mostrar isso para ele”. Eu tinha um grande respeito pelo meu pai. “Ele escreve, ele é jornalista. Vai dar risada de mim. Vai achar que isso não faz sentido.” Então, resolvi mandar o texto para ele pelo correio. Datilografei a crônica e a botei num envelope, para mandá-la para o jornal onde ele trabalhava. Não escrevi meu nome, é claro. Escrevi “R. G.”. Mas quando cheguei ao correio, pensei: “Não, ele vai descobrir. R. G. sou eu, Roberto Gomes”. Então, voltei para casa, datilografei tudo de novo e escrevi “G.R.”. Inverti as letras. Botei a carta no correio e sofri umas duas semanas. Até que, um dia, estava lá na banquinha o jornal com o primeiro texto que escrevi. Foi uma coisa ao mesmo tempo pirada e espontânea. Não tem muito segredo.

• Peso emocional
Essa ligação entre filosofia e literatura, não sei, não. Tenho alguns contos em que alguns personagens se preocupam com questões de filosofia. Falam sobre questões de filosofia. Mas acho que as preocupações da ficção, da minha, são bem diferentes das preocupações da filosofia. A filosofia é uma produção racional, refletida. Na ficção, você coloca emoções, intuições, medos e desejos. Essas coisas emocionais. Na filosofia, você coloca as coisas racionais. Acho difícil juntar as duas. Você pode ter um personagem pensador, filósofo. Mas a história como tal tem que ter um peso emocional.

• Mentiroso
O escritor é fundamentalmente um mentiroso. Necessariamente um mentiroso. Como é que começou a narrativa literária de ficção? Começou lá na época das cavernas, quando alguém, uma tribo, um grupo qualquer, voltou de uma caçada e juntou-se em torno do fogo. Um deles, alguém que enfrentou uma batalha, que fez qualquer coisa diferente, que foi a um lugar diferente, disse: “Olha, eu estava em tal lugar e aconteceu o seguinte”. E contou a sua história. Esse é o ficcionista. Só que ele conta a sua história sempre transformando a realidade. Ele sempre tem que acrescentar, à realidade, algum dado que não esteja nela.

• Épico no Sudoeste
A Revolta dos Posseiros de 1957 aconteceu no Sudoeste do Paraná, ali em Francisco Beltrão, em Pato Branco, em Barracão, nessa região toda. Ali, se deu um dos episódios mais importantes da história brasileira. Um episódio raríssimo. As pessoas viviam submetidas ao terrorismo dos jagunços, um exército de jagunços que perseguia colonos, que os estuprava, matava suas crianças, tocava fogo em suas casas, exterminava suas criações. Esse grupo de pessoas se reuniu, organizou sua própria defesa e conseguiu fazer uma coisa única na história do Brasil. Foi o único episódio na nossa história em que uma revolução armada ganhou. Todos os outros levantes armados do Brasil foram derrotados. Aconteceu em Canudos e no Contestado. Aconteceu com os muckers. Neste país, sempre que houve um levante popular, uma revolta popular, ela foi derrotada. Esse caso de 1957, no Sudoeste paranaense, foi o único vitorioso. Eles derrubaram as companhias de terra, ficaram contra o governador da época, Moysés Lupion, contra os poderes locais, contra o exército de jagunços. Se organizaram e ganharam. Por isso, sempre estranhei que um episódio tão forte, tão importante, fosse tão pouco conhecido. Aí comecei a me interessar pelo assunto. E, para escrever o meu romance Os dias do demônio, estudei uns dez anos. Fiz pesquisa, fui à região, entrevistei gente, fotografei o lugar, conversei com os sobreviventes da época, li livros. E percebi o seguinte: aquela era uma história épica, daquelas em que as pessoas se superam e fazem coisas que normalmente não fariam, em que demonstram uma coragem que, em geral, não têm.

• Os fardos de Júlia
Meu romance Júlia é sobre uma poeta que nasceu em Paranaguá e, ainda muito jovem, aos seis anos, foi morar em São Francisco do Sul, Santa Catarina. Viveu lá a vida inteira. Júlia da Costa foi uma poeta importante. Uma mulher que não era bonita, que não se destacava pela beleza. Mas todos se sentiam fascinados por ela, apesar de Júlia não possuir um tipo físico bonito. Era extremamente inteligente, e fazia coisas que uma mulher jamais faria naquela época (Júlia da Costa nasceu em 1844 e morreu em 1911). Discutia com os homens de igual para igual. Publicava, nos jornais, textos sobre a Guerra do Paraguai, a questão da república e da monarquia, a liberdade de imprensa, a escravidão. Era uma mulher atuante e corajosa que, no entanto, sofreu exatamente por isso. Júlia sempre dizia que a inteligência é um dos fardos mais pesados para uma mulher. E era perseguida justamente por seu brilho, sua inteligência, sua coragem. Me senti fascinado por ela, e pesquisei mais uns quatro, cinco anos, para escrever esse romance.

“O escritor é fundamentalmente um mentiroso. Necessariamente um mentiroso.”

• Rua Júlia da Costa
Se você continua escrevendo é porque acredita nisso: por meio da literatura, as pessoas podem ser despertadas para certos problemas. As pessoas sabem que há, em Curitiba, uma rua chamada Júlia da Costa. E isso é o máximo que elas sabem. Às vezes, elas não sabem nem onde fica essa rua. Se perguntarem a elas quem foi Júlia da Costa, elas vão dizer: “Não sei”. Esses nomes históricos, essas pessoas tendem a virar anônimas. Elas somem. Com o tempo, desaparecem. Rua Júlia da Costa. Mas a literatura, não sendo abstrata, não sendo uma elaboração teórica, recupera a concretude das coisas. Isso é algo interessante da literatura: você pode pegar uma personagem como a Júlia da Costa, e trazê-la para a sua experiência. Ela deixa de ser uma mera rua, ou uma poeta que viveu no século 19, ou uma mulher muito avançada para o seu tempo. Ela vira um ser humano como qualquer outro.

• Não é do meu tempo
Não preservamos a nossa história. Nós a jogamos no lixo, facilmente. Passados alguns poucos anos, já perdemos a noção do que nos aconteceu uma década atrás. Qual era o governo? Quem era o sujeito que renunciou, o que foi pego por corrupção, o que foi assassinado? Perdeu-se. É como se, no Brasil, as pessoas desligassem a sua preocupação e vivessem um presente instantâneo. Estamos vivendo hoje, e o que interessa é hoje. Uma das expressões de que não gosto — e que é mecânica, eu já usei, qualquer um já usou — é: “Isso não é do meu tempo”. Isso se diz com certa superioridade, como quem fala: “Eu sou jovem. Não é do meu tempo”. Na verdade, é um absurdo. Porque pela linguagem, pela recuperação da memória, tudo “é do meu tempo”. Se você pega um livro de um autor que viveu na Grécia Antiga, ou na Idade Média, ou no século 19; se você pega um poeta como Fernando Pessoa, se você lê um livro dele, ele é do seu tempo. Ele está ali, na sua frente, e você está conversando literariamente com ele. Tudo que ele diz é imediatamente refletido na sua vida.

• Romances banais
Hoje, é muito mais fácil fazer livros. Os recursos do computador tornam tudo mais fácil e mais rápido, e é possível fazer livros até com melhor qualidade. Isso melhorou. Hoje, temos livros com uma qualidade gráfica que não havia nos anos 80. Só que, por outro lado, houve uma banalização da literatura. A literatura virou uma coisa banal. Há autores demais preocupados demais com vendagens de livros. E se você verificar, esses livros, de um modo geral, podem ser resumidos — e as revistas que os divulgam os resumem — em quatro, cinco linhas. É mais ou menos o esquema do roteiro de cinema. Você faz um roteiro de cinema e tem um argumento de três linhas. Uma síntese de cinco linhas. “Eram dois amigos que viviam no Afeganistão, se separaram e um deles foi para os Estados Unidos e tal”. E aí historinha vai reuni-los numa outra situação. Um empina pipas, o outro rouba cartas.

• Dezessete de fora
Recebi, hoje, um pequeno jornal do Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Eles estão preparando a Bienal do Rio. E, nas páginas centrais do jornalzinho, a presidente do sindicato apresentava os grandes lançamentos que serão feitos durante o evento. Eram 17 lançamentos. Dezessete autores diferentes. Havia as fotos dos autores, as capas dos livros. E esses 17 autores eram estrangeiros. Dezessete autores não brasileiros. Acho isso muito esquisito. Temos dado uma ênfase muito grande a um tipo de literatura que vem dos Estados Unidos — e, às vezes, de outros lugares —, mas que nem é a literatura principal de seus países. E que chega aqui associada ao filme que foi feito baseado em tal livro ou à série de tevê que foi feita baseada em tal livro. E é isso que facilita a penetração dessa literatura no país.

• Preocupado com o menino afegão
É lamentável que exista sobre toda uma geração uma pressão tão grande de autores estrangeiros que, afinal, falam de problemas que não são exatamente os problemas que vivemos. Existe aí certa distância entre aquilo que você lê num determinado livro e aquilo que você vive. Às vezes, isso falsifica o seu modo de viver a sua vida. Você acha que é um personagem que, na verdade, não é. Você se imagina nova-iorquino. E não é. É brasileiro. (…) E aqueles 17 autores lançados na Bienal do Rio, todos estrangeiros, eram editados por dez editoras. No Brasil, existem 700, 800 editoras. Quer dizer, só dez aparecem. Então, sabemos que existem escritores produzindo boa literatura em todos os lugares do Brasil. Uma literatura que merece circular, ser lida. Escritores que falam de problemas que você encontra na sua vida. E, ao invés disso, você fica preocupado com o menino afegão. Há uma transposição muito complicada para isso. E isso também acontece com o cinema. Essa coisa colonizada que existe no Brasil.

• O sorriso da sociedade
As livrarias acabaram. Não existem mais livrarias, no meu conceito. Até dez, quinze anos atrás, um pouco mais talvez, elas eram lugares onde você encontrava livros, onde você pesquisava livros, onde você analisava livros. Hoje, você encontra nessas livrarias, as chamadas megastores, apenas os livros desta semana, ou deste mês. Depois de dois meses, os livros são retirados de lá. Então, as livrarias não têm mais um papel cultural, aquele papel de promover encontros, confraternizações, discussões. Não têm mais. A própria circulação dos livros está restrita ao “livro instantâneo”. Pela minha experiência, dos anos 1980 até hoje, o que mudou foi isso. A gente tinha uma literatura que, num certo momento, talvez possuísse preocupações sociais e políticas excessivas. E atualmente temos uma literatura que parece querer ser um mero adorno social. Coelho Neto tem aquela frase horrorosa, que diz que a literatura é o sorriso da sociedade. Hoje, é mais ou menos isso.

• Enxurrada de textos
Quando apareceu o cinema, diziam que ele ia acabar com o teatro. Quando apareceu a televisão, ela ia acabar com o cinema. Sobre a internet, quando ela apareceu, diziam que ninguém mais usaria palavras, só imagens. Eu me lembro, diziam isso. “Tudo é imagem. A palavra morreu.” E, no entanto, hoje há uma enxurrada de produção de textos na internet. Outra coisa é a qualidade desses textos. Mas o texto está presente. O problema é como esses textos serão elaborados literariamente por essa geração.

• Teatro, farra coletiva
A literatura é um pouco fechada. Às vezes, fechada demais. Enquanto que o teatro é essencialmente uma festa, uma farra coletiva. A (atriz e diretora teatral) Fátima Ortiz montou dois espetáculos com textos meus. Um foi Como tornar-se invisível em Curitiba, que também tinha outros autores, como o Jamil Snege; e o outro, só com textos meus, O amor, seja como for. Foi muito interessante. A Fátima faz uma coisa especial. Ela respeita o texto integralmente e, no entanto, consegue transformar aquilo em um espetáculo teatral muito denso. Isso é muito bom. O escritor sai um pouco daquele seu isolamento. Porque, se eu escrevo, sei que alguém vai ler. Mas quando esse alguém ler, não estarei ao seu lado, e ele talvez jamais me diga que leu um livro meu. Não vou saber. Agora, num teatro, você tem cem pessoas à sua volta, vendo aquele personagem que você inventou.

• O desafio da crônica
A cada quinze dias sou desafiado a produzir um texto (para o jornal Gazeta do Povo). É interessante como as pessoas me acompanham, me escrevem, me telefonam, mandam e-mails. De alguma maneira, elas fazem chegar a mim algum comentário sobre o que leram. Há escolas que, de repente, reproduzem algumas de minhas crônicas, a discutem, a colocam em um mural. Esse retorno é muito bom. Porque faz você sair um pouco daquele isolamento. E é um desafio. Porque você tem que pensar o seguinte: “Essa crônica agradou, mas e daqui a quinze dias?”. Quer dizer, você tem que se atualizar continuamente, recuperar-se, manter o nível que você deseja. (…) O exercício com a crônica faz com que você depure a sua linguagem. Ela fica, por um lado, mais segura e, por outro, mais sintética.

• Arte se faz com sofrimento
Sou de uma geração que não tinha toda essa quantidade de cursos universitários de hoje. Os próprios cursos de Letras não eram o que são hoje. Minha geração aprendia as coisas na rua. Nos botecos. Então, esse aprendizado extra-escola, extra-ensino formal, era o nosso grande barato. Não acredito realmente que as oficinas literárias possam ter um peso muito relevante na formação de um escritor. O escritor tem uma trajetória única e íntima, subjetiva, que cabe a ele desenvolver e transformar em texto. Se ele vai assistir a uma oficina literária, isso pode ajudá-lo tanto quanto o professor de línguas o ajudou a escrever numa língua padrão, mais correta. Na verdade, a arte não se faz com técnicas, nem com recursos estilísticos. A arte se faz com sofrimento. A arte se faz com o aprofundamento da experiência e da convivência humana. Isso é que é fundamental. Então, o escritor, como outros artistas, precisa dessa experiência profunda existencial que ele transforma em texto.

• Danado
Acredito muito num caminho individual irrepetível. (…) Há uma destinação. Literatura não é vocação, é danação. O sujeito está danado. Ele tem que fazer aquilo. Está condenado. Essa é a ótica que me coloco. Agora, repito o conselho de um escritor brasileiro, Marques Rebelo. Ele dizia: “Minha recomendação é a seguinte. É preciso ler quarenta páginas para escrever uma linha”.

Edição: Luís Henrique Pellanda

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