Dom Casmurro

março 2020 / Dom Casmurro / Roberto Deidier

Texto publicado na edição #239

Roberto Deidier

Cinco poemas de Roberto Deidier

> Por PATRICIA PETERLE

Roberto Deidier (Roma, 1956), em sua escrita refinada e delicada, expõe tensões que vão de uma esfera mais íntima até eventos e situações que no cotidiano tocam todo e qualquer indivíduo. Uma língua moderna que não esquece a tradição, mas a revisita em diferentes níveis, da cultura greco-latina a interlocuções com Kafka, Montale, Wilcock, para não falar da pintura, que também se faz presente em seus poemas. Para além do pintor Andrea Mantegna, com sua utilização peculiar do espaço da tela, outro nome a ser lembrando é o de Edward Hopper, com suas atmosferas inquietantes, que colocam em primeiro plano um limiar, mesmo que não definido. Seu último livro corrobora essa ligação com as artes visuais, de fato Dietro la sera, publicado em 2017, é composto por doze poemas e cinco aquarelas de Giancarlo Limone.

Além de poeta, Roberto Deidier é professor universitário e organizou importantes edições, como a obra completa de Sandro Penna, poeta que faz parte da linha “anti-novecentista”, expressão cunhada por Pier Paolo Pasolini para se referir à poética que se distanciava do hermetismo em voga. Os autores da “linea anti-novecentista”, como Bertolucci e Caproni, tendiam a uma linguagem poética mais imediata, com tons narrativos, sem esquecer os fortes laços com a tradição. Sem dúvida alguma, a escrita de Deidier e também suas preferências como crítico e estudioso seguem essa linha.

A questão da linguagem, o pensar a poesia, a solidão, a condição humana na contemporaneidade são questões inerentes ao seu fazer poético, que mais ou menos já aparecem na seleção abaixo, composta por cinco poemas, que integram Solstizio [Solstício], publicado em 2015 pela Mondadori. Para alguns críticos, Solstizio pode ser lido como uma viagem, para além do tempo e do espaço, justamente pelas incursões propostas por Deidier.

Ogni confine ha alle spalle un confine
Ogni passato declina il futuro.
Una valigia appena chiusa, una maniglia
Girata. Gesti cresciuti come ricordi
In una disarmante felicità.

Toda fronteira deixa uma fronteira
Todo passado declina o futuro.
Uma mala apenas fechada, uma maçaneta
Girada. Gestos crescidos como lembranças
Numa desarmante felicidade.

>>>

La mano libera rapprende
L’azzurro sulle voci del quartiere,
Scopre il nudo tra il cielo e la strada,
Le crepe negli sguardi dei passanti.

Adesso so quanta folla dimora
Nella mia inerzia. Ancora
Mi sento respirare sotto il sale.

A mão liberta enrijece
O azul sobre o vozerio do bairro,
Desvenda a nudez entre o céu e a rua,
As fissuras no olhar dos transeuntes.

Agora sei que a multidão mora
Na minha inércia. Demora
Meu respiro que sinto sob o sal.

>>>

Notte di San Giovanni

Figura persa, chiunque tu sia,
Forma disfatta, cenere quaresimale
Trascorri nell’acqua del solstizio
Da bordo a bordo d’una ciotola lustrale,
Muta nell’arsura di giugno.

Noite de San Giovanni

Figura perdida, sejas quem for,
Forma desfeita, cinza quaresimal
Transcorre na água do solstício
De uma borda a outra de uma bacia lustral
Muda na secura de junho.

>>>

Il secondo trapezio

V.
Non capivo quanto fosse difficile
Quell’arte di giocare con le altezze,
Di passare da un vuoto a un altro vuoto
E farne corpo, fasci, movimento.
Così scorreva intera la sua vita,
All’inizio cercando perfezione
Poi per un’abitudine tiranna.
Se era al seguito di una compagnia
Giorno e notte restava sul trapezio:
Quel poco che chiedeva come cibo
O quant’altro gli occorreva, all’istante
Gli salivano pronti gli inservienti.

O segundo Trapézio

V.
Não compreendia o quão era difícil
A arte de brincar com as alturas,
De passar de um vazio a outro vazio
E disso fazer corpo, feixe e moto.
Assim transcorria sua vida inteira,
No início buscando perfeição
Em seguida por hábito tirano.
Se viajava com uma companhia
Dia e noite ficava no trapézio:
O pouco que pedia para comer
Ou o que lhe servia, na mesma hora
Subiam prontos ali os auxiliares.

>>>

Adamo

Avevo appena appreso a dire il mondo,
A chiamare fiore il fiore, sole il sole
E luna e notte e tutta quella vita
Che s’agitava nel fondo dei miei occhi
E non sapevo quanta poca fosse,
Quanto vero il deserto oltre il giardino.
Ma se lo avessi raggiunto avrei avuto
Ancora segni per farmi comprendere?
C’era un luogo all’incrocio dei sentieri
Che mi prefigurava quel deserto:
Le mie parole non chiamavano nulla,
I nomi che tentavo mi tornavano
Addosso come torna un’eco chiusa.
In quel silenzio passavamo i giorni
Perché era lì che volevamo andare,
Dove ogni pianta, fiume, animale
Perdeva senso come un foglio vuoto.
Dicevo “albero”, invece era um varco
Tra rami, foglie e frutti rossi,
Un buco oscuro, vortice o ferita
Per cui la terra cessava la sua recita
E il cielo dismetteva la sua luce.
Sarebbe iniziata lì, la nostra storia.

Adão

Aprendera há pouco a dizer o mundo,
A nomear flor a flor, sol o sol
E lua e noite e toda aquela vida
Que remexia no fundo dos meus olhos
E não sabia o quão escassa era,
Quão real o deserto além do jardim.
Mas se o tivesse alcançado inda teria
Sinais que me ajudassem a entender?
Havia um lugar no cruzar das trilhas
Que traçava em mim aquele deserto:
Minhas palavras não evocam nada,
Os nome que ensaiava retornavam
A mim como retorna um eco mudo
Neste silêncio passávamos os dias
Porque era ali que queríamos ir,
Onde cada planta, rio, animal
Perdia sentido como uma folha vazia.
Dizia “árvore”, mas era uma abertura
Por entre ramos, folhas e frutas rubras,
Um buraco escuro, vórtice ou ferida
Pelo qual a terra cessava sua récita
E o céu renunciava à sua luz.
Iniciaria ali, a nossa história.

Print Friendly