Dom Casmurro

setembro 2019 / Dom Casmurro / Robert Penn Warren

Texto publicado na edição #233

Robert Penn Warren

Seis poemas de Robert Penn Warren

> Por André Caramuru Aubert

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Robert Penn Warren (1905-1989) é prova de que não só o Brasil é pródigo em esquecer. Pouquíssimo lembrado hoje, Warren foi um dos mais influentes autores norte-americanos do século 20. Dono de três prêmios Pulitzer, ele foi o único, até hoje, a vencer tanto nas categorias de ficção (um) quanto de poesia (dois). Se fosse pouco, a versão para o cinema de seu romance All the King’s men ainda levaria o Oscar de melhor filme de 1949.

Ornithology in a world of flux

It was only a bird call at evening, unidentified,
As I came from the spring with water, across the rocky back-pasture;
But I stood so still sky above was not stiller than sky in pail-water.

Years pass, all places and faces fade, some people have died,
And I stand in a far land, the evening still, and am at last sure
That I miss more that stillness at bird-call than some things that were to fail later.
Ornitologia num mundo em movimento

Era apenas o canto de um pássaro, à tarde, desconhecido,
Enquanto eu voltava do riacho, trazendo água, através do pasto pedregoso;
Mas fiquei tão imóvel que o céu acima não parecia mais imóvel do que o céu num balde d’água.

Os anos passam, lugares e os rostos se desfazem, pessoas morreram,
E eu permaneço numa terra distante, a tarde imóvel, e tenho afinal a certeza
De que sinto mais falta daquela eternidade no canto de um pássaro do que de tantas outras coisas que também desapareceram.

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Wind

The wind comes off the Sound, smelling
Of ice. It smells
Of fish and burned gasoline. A sheet
Of newspaper drives in the wind across
The great distance of cement that bleeds
Off into blackness beyond the red flares. The air

Shivers, it shakes like Jello with
The roar of jets — yes, why
Is it you think you can hear the infinitesimal scrape
Of that newspaper as it slides over the black cement, forever?

The wind gouges its knuckles into my eye. No wonder there are tears.
Vento

O vento sai do Som, com odor
De gelo. Ele tem o odor
De peixe e de gasolina queimada. Uma página
Do jornal voa ao vento através
Da grande distância de cimento que sangra
Na escuridão para lá das chamas vermelhas. O ar

Trepida, sacode como Gelatina sob
O ronco dos jatos — sim, por que
É que você crê que consegue ouvir o arranhar infinitesimal
Daquele jornal deslizando sobre o cimento negro, eternamente?

O vento enterra as juntas dos dedos em meus olhos. Não admira haver lágrimas.

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The leaf (Part D)

The voice blesses me for the only
Gift I have given: teeth set on edge.

In the momentary silence of the cicada,
I can hear the appalling speed,
In space beyond stars, of
Light. It is

A sound like wind.
A folha (Parte D)

A voz me abençoa pela única
Dádiva que ofertei: dentes nas bordas.

No transitório silêncio da cigarra,
Posso ouvir a surpreendente velocidade,
No espaço além das estrelas, da
Luz. É

Um som como o do vento.

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Eidolon

All night, in May, dogs barked in the hollow woods;
Hoarse, from secret huddles of no light,
By moonlit bole, hoarse, the dogs gave tongue.
In May, by moon, no moon, thus: I remember
Of their far clamor the throaty, infatuate timbre.

The boy, all night, lay in the black room,
Tick-straw, all night, harsh to the bare side.
Staring, he heard; the clotted dark swam slow.
Far off, by wind, no wind, unappeasable riot
Provoked, resurgent, the bosom’s nocturnal disquiet.

What hungers kept the house? under the rooftree
The boy; the man, clod-heavy, hard hand uncurled;
The old man, eyes wide, spittle on his beard.
In dark was crushed the may-apple: plunging, the rangers
Of dark remotelier belled their unhouseled angers.

Dogs quartered the black woods: blood black on
May-apple at dawn, old beech-husk. And trails are lost
By rock, in ferns lost, by pools unlit.
I heard the hunt. Who saw, in darkness, how fled
The white eidolon from the fangèd commotion rude?

Espectro

A noite inteira, em maio, os cães latiram nas matas desertas;
Roucos, lá nos confins escondidos onde não há luz,
Junto aos troncos iluminados pela lua, os cães soltaram a voz.
Em maio, sob a lua, sem lua, e então: eu me lembro
Do clamor distante, do timbre, gutural e apaixonado.

O menino, a noite inteira, deitado no quarto escuro,
Colchão de palha, a noite inteira, virado para o lado vazio
Lá longe, ao vento, sem vento, o implacável tumulto
Causou, ressurgente, uma inquietude noturna no peito.

Quais são as fomes que sustentam a casa? Sob os caibros do telhado
O garoto; o homem, sujo de terra, as mãos ásperas abertas;
O velho, de olhos rasgados, saliva na barba.
O arbusto esmigalhado na treva: mergulhando, os guardiões
Da treva, remotamente bramindo suas raivas pagãs.

Cães destroçaram as matas escuras: o sangue negro no
Arbusto ao amanhecer, a castanha da velha faia. E as trilhas sumiram
Entre as pedras, perdidas entre samambaias, junto a lagoas escuras.
Eu ouvi a caçada. Quem viu, na escuridão, como o espectro
Branco escapou daquela comoção rude e com dentes?

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Treasure hunt

Hunt, hunt again. If you do not find it, you
Will die. But I tell you this much, it
Is not under the stone at the foot
Of the garden, nor by the wall at the fig tree.
I tell you this much to save you trouble, for I
Have looked, I know. But hurry, for

The terror is, all promises are kept.

Even happiness.

Caça ao tesouro

Cace, cace de novo. Se não encontrar, você
Vai morrer. Mas eu vou lhe contar que
Ele não está sob a pedra no caminho
Do jardim, nem sob muro da figueira.
Vou lhe contar para poupá-lo de problemas, porque
Eu vi, eu sei. Mas corra, porque

O terror está lá e todas as promessas serão cumpridas.

Até mesmo a felicidade.

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Fox-fire: 1956

Years later, I find the old grammar, yellowed. Night
Is falling. Ash flakes from the log. The log
Glows, winks, wanes. Westward, the sky,
In one small area redeemed from gray, bleeds dully.
Beyond my window, athwart that red west,
The spruce bough, though snow-burdened, looks black,
Not white. The world lives by the trick of the eye, the trick
Of the heart. I hold the book in my hand, but God
— in what mercy, if mercy? — will not let me weep. But I
Do not want to weep. I want to understand.

Oh, let me understand what is that sound.
Like wind, that fills the enormous dark of my head.
Beyond my head there is no wind, the room
Darkening, the world beyond the room darkening,
And no wind beyond the cleave, unclot, the thickening
Darkness. There must be a way to state the problem.
The statement of a problem, no doubt, determines solution.
If once, clear and distinct, I could state it, then God
Could no longer fall back on His old alibi of ignorance.
I hear now my small son laugh from a farther room.

I know he sits there and laughs among his toys,
Teddy bear, letter blocks, yellow dumptruck, derrick, choo-choo —
Bright images, all, of Life’s significance.
So I put the Greek grammar on the shelf, beside my own,
Unopened these thirty years, and leave the dark room,
And know that all night, while the constellations grind,
Beings with folded wings brood above that shelf,
Awe-struck and imbecile, and in the dark,
Amid History’s vice and velleity, that poor book burns
Like fox-fire in the black swamp of the world’s error.
Fosforescência dos fungos: 1956

Anos depois, encontro a velha gramática, amarelada. A noite
Vem caindo. Flocos de cinzas da lenha. A lenha
Brilha, tremula, diminui. No oeste, o céu,
Numa pequena área livre do cinza, sangra com força.
Além da minha janela, através daquele oeste vermelho,
O galho de abeto, ainda que carregado de neve, parece negro,
Não branco. O mundo vive das ilusões dos olhos, das ilusões
Do coração. Seguro o livro nas mãos, mas Deus
— em que misericórdia, será que é misericórdia? — não me deixará lamentar. Só que eu
Não quero lamentar. Quero entender.

Oh, faça com que eu entenda o que é aquele som.
Igual ao vento, que preenche a enorme treva em minha cabeça.
Para além da minha cabeça não há vento, o quarto
Escurecendo, o mundo para além do quarto escurecendo,
E nenhum vento para além da fenda, expandida, e a escuridão
Ficando espessa. Deve haver um jeito de se enunciar o problema.
A enunciação do problema, sem dúvida, determina sua a resolução.
Se uma vez, clara e nitidamente, eu puder enunciá-lo, então Deus
Não mais poderá se esconder em Sua antiga alegação de ignorância.
Ouço agora a risada de meu filhinho em um cômodo distante.

Eu sei que ele fica lá, rindo, com seus brinquedos,
O urso de pelúcia, os blocos de letras, o caminhão amarelo, a torre, o trenzinho —
Imagens luminosas, todas, da importância da Vida.
Então eu coloco a gramática grega na estante, ao lado da minha,
Fechada por trinta anos, e deixo o quarto escuro,
E sei que por toda a noite, enquanto as constelações brilharem,
Seres com as asas dobradas ficarão chocando acima daquela estante,
Apavorados e estúpidos e, na escuridão,
Em meio aos vícios e veleidades da História, aquele pobre livro queimará
Como a fosforescência dos fungos no pântano escuro dos erros do mundo.

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