Dom Casmurro

agosto 2019 / Dom Casmurro / Robert Duncan

Texto publicado na edição #232

Robert Duncan

Quatro poemas de Robert Duncan

> Por Robert Duncan

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Passage over the water

We have gone out in boats upon the sea at night,
lost, and the vast waters close traps of fear about us.
The boats are driven apart, and we are alone at last
under the incalculable sky, listless, diseased with stars.

Let the oars be idle, my love, and forget at this time
our love like a knife between us
defining the boundaries that we can never cross
nor destroy as we drift into the heart of our dream,
cutting silence, slyly, the bitter rain in our mouths
and the dark wound closed in behind us.

Forget depth-bombs, death and promises we made,
gardens laid waste, and, over the wastelands westward,
the rooms where we had come together bombed.

But even as we leave, your love turns back. I feel
your absence like the ringing of bells silenced. And salt
over your eyes and scales of salt between us. Now,
you pass with ease into the destructive world.
There is a dry crash of cement. The light fails,
falls into the ruins of cities upon the distant shore
and within the indestructible night I am alone.
Passando sobre as águas

Nós saímos para o mar, nos barcos, à noite,
e nos perdemos, com as imensas águas de pavor diante de nós.
Os barcos se separaram uns dos outros, e acabamos sós
sob o céu incalculável, indiferente, doente de estrelas.

Deixe os remos pra lá, meu amor, e esqueça que agora
nosso amor como uma faca entre nós
definindo as fronteiras que jamais poderemos cruzar
nem destruir enquanto derivamos para o coração de nosso sonho,
cortando o silêncio, astutamente, a chuva amarga em nossos lábios
e a ferida escura se fechando atrás de nós.

Esqueça as bombas de profundidade, a morte e promessas que fizemos,
os jardins estão largados, e, além dos lixões a oeste,
bombardeados os quartos onde ficamos juntos.

Mas bem enquanto saíamos, o seu amor deu as costas. Eu senti
sua ausência como o badalar de sinos silenciados. E o sal
sobre seus olhos e camadas de sal entre nós. Agora
você vai fácil para o mundo destrutivo.
Há um choque seco de cimento. A luz falha,
cai sobre ruínas de cidades sobre um litoral distante
e dentro da noite indestrutível, estou sozinho.

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This place rumored to have been Sodom

might have been.
Certainly these ashes might have been pleasures.
Pilgrims on their way to the Holy Places remark
this place. Isn’t it plain to all
that these mounds were palaces? This was once
a city among men, a gathering together of spirit.
It was measured by the Lord and found wanting.

It was measured by the Lord and found wanting,
destroyed by the angels that inhabit longing.
Surely this is Great Sodom where such cries
as if men were birds flying up from the swamp
ring in our ears, where such fears that were once
desires walk, almost spectacular,
stalking the desolate circles, red eyed.

This place rumored to have been a City surely was,
separated from us by the hand of the Lord.
The devout have laid out gardens in the desert,
drawn water from springs where the light was blighted.
How tenderly they must attend these friendships
or all is lost. All is lost.
Only the faithful hold this place green.

Only the faithful hold this place green
where the crown of fiery thorns descends.
Men that once lusted grow listless. A spirit
wrapped in a cloud, ashes more than ashes,
fire more than fire, ascends.
Only these new friends gather joyous here,
where the world like Great Sodom lies under fear.

The world like Great Sodom lies under Love
and knows not the hand of the Lord that moves.
This the friends teach where such cries
as if men were birds fly up from the crowds
gathered and howling in the heat of the sun.
In the Lord Whom the friends have named at last Love
the images and loves of the friends never die.
This place rumored to have been Sodom is blessed
in the Lord’s eyes.
Este lugar que rumores dizem ter sido Sodoma

talvez tenha sido.
Certamente estas cinzas terão sido de prazeres.
Peregrinos em suas jornadas aos lugares sagrados observam
este lugar. Não está claro para todos
que estes montes de terra foram palácios? Aqui um dia
havia uma cidade de homens, um encontro de almas.
Que foi julgada pelo Senhor e considerada em falta.

Que foi julgada pelo Senhor e considerada em falta,
destruída por anjos que na saudade vivem.
Com certeza esta é a Grande Sodoma onde aqueles lamentos
como se homens fossem pássaros voando para longe do charco
ressoassem em nossos ouvidos, onde aqueles medos que um dia
foram desejos caminhassem, quase espetaculares,
espreitando as desoladas circunferências, os olhos vermelhos.

Este lugar que rumores dizem ter sido uma Cidade certamente foi,
apartada de nós pela mão do Senhor.
Os devotos espalharam jardins pelo deserto,
pegando água de nascentes onde a luz secou, arruinada.
Quão docemente eles devem tratar essas amizades
ou tudo estará perdido. Tudo está perdido.
Somente os que creem mantém verde este lugar.

Somente os que creem mantém verde este lugar
onde desce a flamejante coroa de espinhos.
Homens um dia luxuriosos se tornaram apáticos. Um espírito
envolto em nuvem. Cinzas mais do que cinzas,
fogo mais do que fogo, se elevam.
Somente esses novos amigos se encontram aqui, alegres,
onde um mundo igual a Grande Sodoma jaz sob o medo.

Um mundo igual a Grande Sodoma jaz sob o Amor
e sabe não ser a mão do Senhor que move.
Isso os amigos ensinam onde tais lamentos
como se os homens fossem pássaros voando para longe das massas
se encontrando e uivando sob o calor do sol.
No Senhor a Quem os amigos nomearam, por fim, Amor
as imagens e os amores dos amigos jamais morrem.
Este lugar que que rumores dizem ter sido Sodoma é abençoado
Aos olhos do Senhor.

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Roots and branches

Sail, Monarchs, rising and falling
orange merchants in spring’s flowery markets!
messengers of March in warm currents of news floating,
flitting into areas of aroma,
tracing out of air unseen roots and branches of sense
I share in thought,
filaments woven and broken where the world might light
casual certainties of me. There are

echoes of what I am in what you perform
this morning. How you perfect my spirit!
almost restore
an imaginary tree of the living in all its doctrines
by fluttering about,
intent and easy as you are, the profusion of you!
awakening transports of an inner view of things.
Raízes e galhos

Naveguem, borboletas-monarcas, subindo e descendo
mercadoras alaranjadas nos mercados floridos de primavera!
mensageiras de março flutuando nas cálidas correntezas de novidades,
voando para regiões de aromas,
desenhando no ar raízes e ramos de sentidos
cujo significado compartilho,
filamentos tecidos e rompidos onde a luz do mundo poderia iluminar
as casuais certezas sobre mim. Existem

ecos do que sou naquilo que vocês fazem
nesta manhã. Como vocês melhoram minha alma!
quase restauram
uma árvore imaginária dos que vivem em todas as suas crenças
voando a esmo por aí,
atentas e relaxadas como são, na sua profusão!
ressurgentes carregadoras da íntima visão das coisas.

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Often I am permitted to return to a meadow

as if it were a scene made-up by the mind,
that is not mine, but is a made place,

that is mine, it is so near to the heart,
an eternal pasture folded in all thought
so that there is a hall therein

that is a made place, crated by light
wherefrom the shadows that are forms fall.

Wherefrom fall all architectures I am
I say are likenesses of the First Beloved
whose flowers are flames lit to the Lady.

She is Queen Under The Hill
whose hosts are a disturbance of words within words
that is a field folded.

It is only a dream of the grass blowing
east against the source of the sun
in an hour before the sun’s going down

whose secret we see in a children’s game
of ring a round of roses told.

Often I am permitted to return to a meadow
as if it were a given property of the mind
that certain bounds hold against chaos,

that is a place of first permission,
everlasting omen of what is.
Às vezes tenho permissão de voltar a um prado

como se fosse uma cena inventada pela mente,
que não é minha, mas um lugar inventado,

que é meu, que fica tão perto do coração,
uma pastagem eterna embrulhada em todos os pensamentos
de modo que há ali uma sala

que é um lugar inventado, criado pela luz
de onde caem sombras que são formas.

De onde caem todas as arquiteturas eu sou
eu digo são semelhantes ao Primeiro Amor
cujas flores são chamas acesas para a Senhora.
Ela é Rainha Sob A Colina
cujos hóspedes são uma atrapalhação de palavras dentro de palavras
que é um campo dobrado.

É apenas um sonho da relva soprando
em direção ao leste contra o lugar onde nasce o sol
uma hora antes do sol se pôr

cujo segredo vemos numa brincadeira infantil
de ciranda cirandinha.

Às vezes tenho permissão de voltar a um prado
como se ele fosse uma óbvia propriedade da mente
que certos laços mantêm longe do caos,

aquele lugar da primeira permissão,
o eterno presságio do que é.

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