Ensaios e Resenhas

julho 2012 / Ensaios e Resenhas / Riqueza incomum

Texto publicado na edição #147

Riqueza incomum

A literatura japonesa reflete seu país, nada de homogeneidade. Variada a sociedade, variada a literatura. Resultado: uma produção extremamente criativa […]

> Por LUIZ HORÁCIO

A literatura japonesa reflete seu país, nada de homogeneidade. Variada a sociedade, variada a literatura. Resultado: uma produção extremamente criativa e surpreendente.

Uma literatura que durante muito tempo parecia fechada, restrita às questões japonesas ou, caso prefira, orientais. Nos anos 1980/90, o Japão se aproximou de outros países da Europa, e dos Estados Unidos. Atualmente, os escritores japoneses parecem mais próximos dos ocidentais do que dos autores asiáticos. Mas muito mais próximos dos americanos. Alguns escritores japoneses relutam a essa aproximação, mais por razões políticas do que estéticas ou exclusivamente literárias. Diante disso, convém colocarmos a literatura japonesa na estante da literatura mundial, não exclusivamente japonesa.

Bastante peculiar, profissionalizada, impulsionada por um número nada modesto de prêmios literários. Resultado: autores de grande produção, sem prejuízo da qualidade, e um número grande, maior do que em muitos países europeus, de escritores que vivem da literatura.

Disse que a literatura japonesa deve ser vista como mundial, e um dos aspectos a comprovar isso diz respeito à conquista de dois prêmios Nobel: Yasunari Kawabata, em 1968, e Kenzaburo Oê, em 1994.

Outro aspecto curioso, principalmente em se tratando de Japão, diz respeito ao grande número de escritoras a vencer os mais prestigiosos prêmios literários: Miri Yu, Kaori Ekuni, Yoko Ogawa, Eimi Yamada, Mariko Ozaki, Hiromi Kawakami.

A maioria dos títulos das autoras acima permanece inédita em língua portuguesa e, por apreciar significativamente a literatura japonesa a partir dos anos 1980, os li em edições francesas.

Confronto com o vazio
Aqui tratarei de A valise do professor, de Hiromi Kawakami, autora também do excelente Quinquilharias Nakano (2010). Falei em prêmios anteriormente e A valise do professor conquistou um dos mais significativos em seu país, o Tanizaki.

Hiromi apresenta uma prosa fragmentada, mas, por mais estranho que isso possa parecer, objetiva. Nada é supérfluo, embora delicado e simples, em A valise do professor. Simples por se ocupar do dia-a-dia, da rotina, de um casal de solitários; delicado por valorizar os detalhes.

Não me alinho à trupe que enxerga “literaturas” — a masculina, a feminina, a negra, a gay. No entanto, a delicadeza que exala do texto de Hiromi, devo admitir, é uma delicadeza feminina.

As autoras citadas anteriormente podem ser “rotuladas” pós-feministas sem que isso implique qualquer movimento, apenas se diferenciam do feminismo histórico e do feminismo político. Elas conservam o individualismo e retratam, contestam o mundo cada uma a seu modo.

Em A valise do professor, o leitor estabelecerá um suave confronto com o vazio, o vazio fruto da solidão.

Mas se for para dizer que se trata de uma literatura feminista, favor acrescentar “diferente”.

Tsukiko, quase 38 anos, mistura o real e o imaginado, lembranças e reflexões. De repente encontra Harutsuma, seu professor de ensino médio, e passam a beber no bar de Satoru. O relacionamento é burocrático, frio. Assim, com sutilezas, Hiromi começa a mostrar costumes de seu Japão. Tsukiko e Harutsuma são dois seres solitários e temerosos de abandonar tal status. O professor, vale ressaltar, é bem mais velho que sua ex-aluna. Aqui a diferença de idade não chega a ser um problema, visto que solidão não costuma fazer distinção.

Continuei atrás dele contando as estrelas. Na décima quinta chegamos à rua onde nos separaríamos.

Tchau, acenei e, virando-se, ele repetiu tchau. Eu o segui com os olhos e depois continuei andando até em casa. No caminho contei vinte e duas estrelas, incluindo as pequenas.

O começo da relação é tenso, ao mesmo tempo, frio; logo descobrem pontos comuns, como a culinária. Várias vezes coincidem seus pedidos no bar de Satoru. Entre eles não há compromisso algum e às vezes desaparecem, mas voltam a se encontrar, sempre por obra do acaso.

Um tipo de relação aparentemente segura, livre de riscos de dependência, paixões e possíveis amores. Certo? Errado. Tsukiko — não vou atestar a paixão — passa a sentir algo mais forte pelo maduro professor. Sempre em companhia de sua valise.

A relação entre o professor, metódico, ríspido e seco, e Tsukiko, doce, delicada, um tanto intempestiva, é de uma riqueza incomum. Incomum porque simples, incomum porque não é fácil contar uma história simples e ao mesmo tempo profunda e repleta de significados — além do panorama do Japão, hábitos e costumes que Hiromi oferece ao leitor.

Afinal, minha vida é apenas isso. Andar sozinha por um caminho misterioso de uma ilha desconhecida, perdida de seu acompanhante, o professor, que eu acreditava conhecer, mas que de fato é para mim uma incógnita. Em uma situação assim, o jeito é ir beber. Dizem que as especialidades da ilha são os polvos, os haliotes e os grandes camarões. Vou comer montanhas de haliotes.

Volte ao começo deste texto, indispensável leitor. Repare que este aprendiz citou dois Prêmios Nobel, e agora me atrevo a anunciar para breve, muito breve, o terceiro: Haruki Murakami. Pode cobrar.

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Hiromi Kawakami

Hiromi Kawakami (c) Tomohiro Muta

Nasceu em Tóquio em 1958. Estudou ciências biológicas na Universidade de Ochanomizu e foi professora até 1994, quando estreou na literatura com o romance Kamisama. Com Hebi o fumu [Pisar uma cobra] recebeu em 1996 o Prêmio Akutagawa. Além de A valise do professor, seu romance Quinquilharias Nakano também foi publicado no Brasil.

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Hiromi Kawakami
Trad.: Jefferson José Teixeira
Estação Liberdade
232 págs.