Dom Casmurro

dezembro 2011 / Dom Casmurro / Ribamar

Texto publicado na edição #123

Ribamar

42. Mi – “sa” Kafka (8/16) Mínima Franz escreve em seu Diário: “Vejo que em mim tudo está pronto para […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Marco Jacobsen

42.

Mi – “sa”
Kafka (8/16)
Mínima

Franz escreve em seu Diário: “Vejo que em mim tudo está pronto para o trabalho poético”. Está com 28 anos. Sabe que a literatura é um caminho sem volta. Tenta viver, pensa em se casar, mas só a poesia representa para ele “uma entrada real na vida”.

Traz, porém, as mãos algemadas. Para se tornar poeta, precisa se libertar do pai. Que algo o impedia de escrever, não duvido. Mas seria mesmo o pai?

Aquele homem metódico, Hermann Kafka, que passa seus dias debruçado sobre um balcão de comércio a contabilizar encomendas e a reclamar dos fregueses, não tem, provavelmente, a força que o filho lhe atribui.

As garras do próprio Franz o seguram. As minhas próprias unhas que, desde cedo, nunca me cansei de afiar. Fincadas no corpo de Franz (agarradas a meu corpo) elas sangram. É só o que temos em comum. Eis onde nos tornamos irmãos: nas feridas.

É um sangue que não se pode ver. Não o sangue vermelho que circula nas veias, com sua presença gritante, mas um líquido invisível que, nos momentos extremos, escorre de mim.

Nas horas de desânimo, telefono para o professor Jobi. Aconselho-me ou me torturo? Eu invisto Jobi do papel de carrasco. Ele me vigia. Oferece-me um patíbulo. Castiga-me. Pobre professor que acredita ser o meu mestre.

A frase de Franz me faz recordar de outra frase que, certa manhã, ouvi de Jobi: “Você é um poeta. Mas, para sustentar o que é, terá de matar muitas coisas dentro de si”.

Jobi me fuzila com a frase em pleno elevador. Leva seu cachorro para um passeio, está apressado. Ainda grita: “Pense nisso. Mal não lhe fará”. Está sempre a me consolar com suas teses de portaria. Não sei onde quer chegar.

Agora, pelo telefone, repete a mesma lição. “Você é um poeta. Não se esqueça disso.” Ora, não escrevo versos. Nunca escrevi. As notas que tomo para o livro que escreverei formam uma prosa difusa, que não é nem reflexão, nem confissão, nem ficção, e é tudo isso um pouco. Poesia não é.

Não sei por que o professor supõe que existe um poeta dentro de mim. Quer, provavelmente, me aprisionar em um papel que lhe seja útil. E, dessa forma, me comandar. Reter-me em um selo, me enfileirar em uma classificação.

Diante das lições de Jobi, por contraste, aprendo a amar seu silêncio, meu pai. Você não gostava de me dar conselhos. Expressava suas preocupações com muxoxos, suspiros ou comentários rápidos que me pareciam banais. Tinha consciência da inutilidade dos laços que ligam um pai a um filho. Preferia investir suas energias em outras coisas. Estava certo.

Já não sei se me esquivei da luta. Tampouco posso entender por que você sublinhou justamente a frase que afirma isso. Seria para assinalar um mal-entendido? Para apontar aquele ponto negro (de desencontro) em que a relação entre Franz e Hermann estagnou?

Os dois se perfilaram, frente a frente, prontos para o combate. Ali ficaram à espera de um sinal para o ataque. Não havia um juiz, a platéia estava vazia. Não conheciam as regras. Tornaram-se prisioneiros de um sonho.

Acho que você diria: “Meu filho não é assim”. Tivemos, sim, nossas pequenas lutas. Fracas, banais. Mas por que desprezá-las? Lutamos. Você vê coisas onde não existem. Não sublinhei a maldita frase.

Talvez eu tenha escolhido armas inadequadas, como um boxeador que, ao subir ao ringue, em vez de vestir as luvas, porta um sabre. Ou um esgrimista que, por engano, usa um manto de toureiro.

Foi o erro que cometi, quem sabe, quando lhe dei a Carta ao pai. Dias a fio, vi o livro largado em sua mesa de cabeceira. Quando você não estava em casa, eu o folheava em busca de algum sinal de leitura, alguma mensagem. Nada encontrei.

Aquele livro, que lhe entreguei como quem constrói uma ponte, se transformou em um obstáculo. Erguido entre nós, ali ficou a nos emudecer. Não uma ponte, mas uma muralha alta e escura a me oprimir.

Um dia, ouvi minha mãe lhe perguntar: “O que faz esse livro aqui?” Nunca esqueci sua resposta: “É só um livro que quero emprestar a um amigo”.

Nada mais que isto: um empréstimo. Algo que se refere a um terceiro, e não a mim. Um livro que só de forma muito indireta, e insuficiente, fala de nossa relação.

Desde então, nunca mais vi o livro. Não sei se você o emprestou, se o guardou, se o vendeu. Ele desapareceu no grande abismo que nos separa. Ressurgiu agora, não para vedá-lo, porque isso não é mais possível, mas para me levar a escrever.

Cumprindo suas instruções, eu escrevo. Estranha carta que dirijo a você, mas que, na verdade, me chega. Sou a origem e o destino. Você é só uma palavra que carrego.

43.

Pausa
Aves (7/10)
Semínima

O professor Jobi insiste na pergunta: “Você continua a escrever só por vingança?” A ligação está péssima, uma tempestade cai sobre Parnaíba. A voz do professor me chega deformada. Mas qual é sua forma real?

Ele me provoca: “Você continua procurando uma resposta. Esqueça seu pai e cuide de sua vida”. Aconselha-me a pegar o primeiro ônibus de volta para Fortaleza. Um pouco de sol, o mar, a brisa é do que preciso.

Nunca pensei em escrever para me desforrar. A escrita como uma vingança? Como punir alguém que já não está mais aqui?

Nem sei se escrevo um livro sobre você, pai. Tudo que me resta é seu nome, Ribamar. Em torno dele, eu sobrevôo. Seu nome é um furo que, como em um ralo, me suga. O repuxo me movimenta, é só isso.

O que me interessa não é tanto você, pai, mas o homem que dentro de você se esconde. Ser pai é um papel. Todo pai é uma máscara. Quem a porta?

Preparo-me para escrever não um livro sobre meu pai, mas um livro através de meu pai. Uma viagem através de você. Minha aventura não começa, mas termina em Parnaíba. A cidade é só um destino — como a etiqueta fixada em uma mala.

Não posso negar que eu o feri. Ninguém se torna pai sem alguma dor. Só o fato de existirem dois (e não um) já produz um rasgão. Falar do pai é falar da ferida que nos conectou e que, ao mesmo tempo, nos separou. Como um oceano, que liga, mas afasta dois continentes.

Tento me esquecer de você, meu pai, e buscar o homem que o interpretou. A vida é um teatro e cada um sustenta seu papel como pode.

Sonhei, um dia, que era um ator. Escolheram-me para o mais difícil papel de minha vida: interpretar a mim mesmo. Estava em um ensaio, sabia meu texto de cor, mas, quanto mais lutava para ser o filho que sou, mais dele eu me afastava.

O ensaio termina. Já na calçada, dou com um cartaz que, fixado em um muro, anuncia minha estréia. O título da peça me surpreende: José posta-restante. Não um filho natural. Mas um filho (como a correspondência depositada no correio para que a reclamem) que precisa lutar para ser. Que deve ser convocado, ou não existirá.

Restante: não passo daquilo que, nos esforços para ser, restou de mim. E isso — restar — é existir.

44.

Sol – “fri”
Parnaíba (11/40)
Colcheia

Alguém que o tenha conhecido. Para quem você, Ribamar, não seja só um nome. Algum sobrevivente — com a condição de que ainda saiba dizer quem é. Decido: é o que procuro em Parnaíba. Alguém que o conheceu.

Que saiba ainda dizer quem é — mas que exigência estúpida! E lá sei eu dizer quem sou? Mal sei dizer o que procuro, o que não me impede de prosseguir. Simplifico: alguém que testemunhe.

Mesmo suspeitando de minha sanidade, meu tio Antonio sugere: “Vou levá-lo ao Lar de Alan. Lá talvez você encontre o que procura”.

Faço uma reportagem sobre a velhice, gostaria de conversar com a diretora da instituição. Chego à sala de Madame Aquiel, última filha viva de Jean-Claude Aquiel, um francês, descendente de judeus, que se refugiou em Parnaíba nos anos 40. Com seu diploma de otorrino, fundou o asilo. Morreu atropelado por um boi.

Madame me observa. O calor não desmancha a pose européia. Há um hóspede que já passou dos 100 anos de idade. Os documentos divergem, mas deve ter nascido entre 1904 e 1908. “Não sei o que um velho cego e demente poderá lhe dizer.” Mas já que insiste.

45.

Sol – “o”
Parnaíba (12/40)
Colcheia

Enquanto madame remexe em suas chaves, noto em seu rosto (estou sempre preso a redes literárias) restos das feições da escritora Nathalie Sarraute, que conheci em Paris, em uma situação embaraçosa.

Agendei uma entrevista com Michel Butor, a sentinela do Novo Romance. Encontramo-nos no La Maison Folle, um restaurante do Marais onde, uma hora depois, ele almoçaria com Nathalie. Sempre cautelosa, porém, ela chegou antes da hora combinada.

Fomos apresentados. A escritora se recusou a me apertar a mão. Não escondeu que o papel, miserável, de acompanhante a humilhava. Do queixo fino, a papada escorria sobre o colar de pérolas. Não abriu a boca. Guardo na memória, nítidos, os traços de sua humilhação.

Enfim — sintoma da literatura: sei que vi Sarraute em madame Aquiel. Aquilo me gelou. Da gaveta, ela puxou uma ficha. “É nosso hóspede mais antigo.”

Falava de Mateus Martins, ocupante do quarto 17. Cego, o doutor (ele exige que usem o tratamento) vive entre ruínas. “Você mesmo não será mais do que um esboço”, madame me adverte.

Acrescenta, para me intimidar: “Chamamos sua cela de Monte Citorão”.

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