Ensaios e Resenhas

março 2016 / Ensaios e Resenhas / Revolução sem fim

Texto publicado na edição #191

Revolução sem fim

"Orpheu: 1915-2015", organizado por Carlos Felipe Moisés, é fundamental para se entender o modernismo português e sua importância

> Por HENRIQUE MARQUES SAMYN

Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Não poderia ser mais adequada a epígrafe escolhida por Carlos Felipe Moisés para Orpheu: 1915-2015: “Orpheu acabou. Orpheu continua” — palavras com as quais Fernando Pessoa encerra um texto publicado em 1935 na revista SW Sudoeste, dirigida por Almada Negreiros, intitulado Nós os de Orpheu. De fato, como dar conta do impacto provocado na cultura portuguesa por aqueles dois volumes, publicados duas décadas antes, que tanto escândalo haviam provocado? Seria possível mensurar esse efeito, dimensionar suas ressonâncias? “Cá estamos sempre”, escreve Pessoa no mencionado texto — dado à estampa, diga-se de passagem, no ano de sua morte; e a sensação que permanece após a leitura do volume agora publicado é que os de Orpheu, de fato, permanecem, mais de um século após abalarem “rilhafolescamente” a vida cultural portuguesa.

Orpheu está longe de ser um episódio datado”, afirma Carlos Felipe Moisés já na abertura do prefácio à obra, evocando todo o conjunto de efêmeras revistas que surgiriam até meados dos anos 20 — Exílio (1915), Centauro (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922) e Athena (1924) —, a longeva revista Presença — que surge, em 1927, com a pretensão de dar continuidade à tarefa modernista (“a geração de Orpheu só através da Presença realizou grande parte da sua ação”, chegaria a escrever Adolfo Casais Monteiro), o que ensejaria uma acutilante ponderação de Eduardo Lourenço — e as reflexões em torno do cinquentenário de Orpheu, que já apresentavam a renovação provocada pela revista como um processo inacabado. Em um dos artigos publicados nessa ocasião, afirmava João Gaspar Simões:

De 1915 para cá, tudo que se faz em Portugal em matéria de arte e literatura sem tomar em conta a revolução operada pelo Orpheu não chega a ser arte nem literatura. Eis a razão por que nem sequer hoje, que a segunda metade do século vai na segunda dezena de anos, se pode dizer com justiça que o modernismo foi superado ou que vivemos independentemente do modernismo órfico.

Enfatizando a atualidade dessa observação, afirma o organizador de Orpheu: 1915-2015: “Passados outros 50 anos, é possível que o juízo de Gaspar Simões venha a ser reposto, em termos similares. Pensar em Orpheu, hoje, ainda será (re)pensar a história da modernidade em Portugal”.

A força da contradição
É curioso falar em “textos doutrinários” no caso de Orpheu, que tinha entre seus principais núcleos de força o fato de conjugar perspectivas contraditórias, reunindo um conjunto de criadores que não seguia um programa estético comum — em contraste com os presencistas, mais tarde, ou os neorrealistas, por exemplo; não obstante, o uso da forma plural acaba por enfatizar precisamente essa multiplicidade de tendências, abordada de forma perspicaz e consistente por Carlos Felipe Moisés no prefácio. A esse respeito, duas de suas ponderações são especialmente valiosas: primeiro, a natureza dialética intrínseca ao periódico, perceptível pela tensão entre o que denomina “vanguarda moderada e conservadora” (exemplificada por Luís de Montalvor, Armando Cortes-Rodrigues e Ronald de Carvalho) e “vanguarda radical” (materializada em Pessoa/Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros); segundo, o fato de que esses polos contrários não ocuparam “trincheiras opostas”, ignorando-se mutuamente. O vigor de Orpheu deve-se, com efeito, à (impossível) tentativa de síntese entre essas vertentes, o que acabou por obstar a publicação do prometido “Manifesto da Nova Literatura” — que resumiria, afinal, a proposta estética subjacente ao periódico, tarefa só parcialmente realizada em textos publicados posteriormente por Pessoa, alguns de seus heterônimos e Almada.

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A pletora de perspectivas vigentes entre aqueles que publicaram em Orpheu é bem ilustrada pela antologia presente no volume. Ali estão os textos introdutórios aos dois números publicados da revista; algumas das tentativas pessoanas de definir o ideário órfico, datando de 1915 até 1935, por vezes assinadas por heterônimos ou sub-heterônimos como Álvaro de Campos e Antonio Mora; excertos de cartas de Sá-Carneiro a Pessoa; e textos publicados em publicações posteriores a Orpheu por Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvor e Almanda Negreiros, entre outros. O que esta seção deixa patente é a que ponto o anseio de renovação e enfrentamento era compartilhado por aqueles envolvidos com a revista; cada qual a seu modo, procuravam manifestar essa vontade de encontrar novas ideias e formas de expressão. É revelador o contraste entre o pendor reflexivo de Pessoa — que, num apontamento, registrava a tentativa de “criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço” —, o ímpeto do Ultimatum de Campos — segundo o qual “o maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais gêneros com mais contradições e dessemelhanças” — e o decadentismo de Montalvor — que, na abertura de Centauro, escrevia: “A decadência é para nós o símbolo com que vestimos o estado de alma coletivo de exilados da Beleza! Ser-se decadente é ser-se doente espiritualmente, é ser-se superior! A arte é a doença imortal dos pálidos de Deus e da Beleza…”.

Não menos valiosa é a fortuna crítica compilada na seção final do volume, que reúne textos indispensáveis para qualquer tentativa de compreensão do fenômeno Orpheu. Além de trechos de artigos veiculados na imprensa que registram a perplexidade com que a revista foi recebida — inclusive o sempre citado “Artistas de Rilhafoles”, publicado em A Capital — há textos, publicados integral ou parcialmente, assinados por José Régio, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, José Gomes Ferreira, Jorge de Sena, Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz, Eduardo Lourenço, Eugênio Lisboa e Nuno Júdice, entre outros.

Orpheu: 1915-2015 vem, portanto, somar-se às muitas obras destinadas a abordar o episódio fundamental do modernismo português; não obstante, vale destacar a importância do volume, especialmente, no cenário brasileiro. Se estamos entre os países que mais leem e estudam a obra de Fernando Pessoa, há que se notar que o público em geral — embora isso ocorra também nos meios acadêmicos — costuma apresentar pouca familiaridade com Orpheu e tudo o que cerca o periódico, conquanto seja impossível compreender o desenvolvimento da obra pessoana sem levá-lo em consideração. Nessa medida, tanto a antologia organizada por Carlos Felipe Moisés quanto seu denso prefácio vêm preencher uma lacuna patente entre nós, oferecendo uma obra de elevada qualidade aos leitores brasileiros.

 

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Orpheu: 1915-2015Org.: Carlos Felipe Moisés
Unicamp
304 págs.

 

o organizador
Carlos Felipe Moisés

Mestre e doutor pela Universidade de São Paulo, tem uma longa carreira de pesquisador e crítico literário dedicada à literatura moderna e contemporânea, em especial à poesia de Fernando Pessoa. O poema e as máscaras (1981), Mensagem: Roteiro de leitura (1996) e Fernando Pessoa: Almoxarifado de mitos (2005) são alguns dos livros que dedicou ao poeta dos heterônimos. Sua obra ensaística inclui ainda, entre outros títulos: O desconcerto do mundo (2001), Poesia e utopia (2007) e Tradição e ruptura (2012). Como poeta, seu livro mais recente é Noite nula (2008).

trecho
Orpheu 1915-2015

Cinquenta anos transcorridos, certo de que a lepidopteria de então era ainda mais botas d’elástico do que em 1915, Almada, com aquele “d” comprido a sair do quadro, brindou a todos com uma dose forte de irreverência e iconoclastia, para reforçar o que Pessoa profetizara em 1935: “Orpheu acabou. Orpheu continua”. O poeta da “Cena do ódio” recusou-se a aceitar que o pandemônio órfico estaria institucionalizado. A batalha devia prosseguir, ainda que reduzida ao esforço de um homem só.

 

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