Ensaios e Resenhas

fevereiro 2014 / Ensaios e Resenhas / Revolução e peregrinação

Texto publicado na edição #166

Revolução e peregrinação

Conheçam Nikólai Rubashov: bolchevique de primeira hora, arquiteto do Partido, protagonista de O zero e o infinito, de Arthur Koestler […]

> Por FLÁVIO RICARDO VASSOLER

Arthur Koestler por Robson Vilalba

Conheçam Nikólai Rubashov: bolchevique de primeira hora, arquiteto do Partido, protagonista de O zero e o infinito, de Arthur Koestler (1905-1983) — e prisioneiro de Stálin.

Consta que o duce Benito Mussolini, outrora socialista, teria sentenciado que, “após a revolução, resta o problema dos revolucionários”. Rubashov não apenas assistiu ao naufrágio (contrar)revolucionário de Outubro de 1917. As engrenagens repressivas o coagiram a se tornar um náufrago, isto é, Rubashov teria que assinar uma autoconfissão conspiratória (forjada) antes que sua nuca fosse fuzilada com 9 mg de chumbo à queima-roupa em uma das masmorras da Praça Lubianka — então sede do NKVD, a polícia política soviética, mãe da não menos temível KGB.

Li O zero e o infinito em Cuba. Da janela do apartamento em que eu estava hospedado, podia vislumbrar o panorama putrefato do centro de Havana. Casas com fachadas descascadas e escoradas por aríetes de madeira; cadillacs remendados que datam da época em que Hemingway ainda pescava na ilha de Fidel; mercados estatais e talões de racionamento; mulheres e seus “amigos” cafetões à espreita de turistas, clientes em potencial. Enquanto a hipocrisia institucionalizada do Estado/Partido coíbe a prostituição e o mercado negro, uma avalanche de lindas cubanas se oferece por intermédio dos cafetões que, com bom tino comercial, ainda oferecem a este brasileiro caixas de charuto Cohiba (do Fidel!) e/ou Monte Cristo (do Che!) lacradas e recém-desviadas das fábricas de tabaco. A trágica experiência do socialismo real nos ensina que, sob a propaganda do capitalismo de Estado, ou pior, do socialismo de migalhas, o mercado negro restitui aos mais bem apaniguados a usurpação da riqueza social produzida coletivamente.

Quando vivi em Moscou, uma de minhas professoras de russo na Universidade Russa da Amizade dos Povos, verdadeira nostálgica do período soviético, chegou a admitir que o mercado negro era necessário. Certa vez, após algumas rodadas de vodka, ela sentenciou que, “infelizmente, a realidade é mais complexa do que os planos qüinqüenais”. Assim, muitas bailarinas do Bolshói se prostituíam ao redor do teatro após as apresentações; insumos eram desviados das fábricas para que o darwinismo social paralelo ao socialismo de fachada pudesse recompensar os vencedores do mercado negro com mais abonança do que a propaganda oficial admitia — a máfia, braço direito do Partido, dava verdadeira sobrevida à utopia. Em julho de 2013, como o leitor e a leitora bem vêem, pude presenciar a mesma hipocrisia objetiva em Cuba. Ora, quando se pretende fardar a história, a verdade dinâmica e contraditória irrompe pelas frestas das boinas, galões e coturnos. Quando a norma não é telúrica e viva, o mercado negro sentencia que a infração é que se torna normativa. Logo, el comandante precisa discursar por horas a fio para auto-emular a revolução contrarrevolucionária e atestar para os devidos fins paternalistas que la garantía soy yo!

Vamos agora à cidade colonial de Trinidad, a umas quatro horas de Havana a bordo de ônibus chineses. Lá eu conheci a bela Mirela — chamemo-la assim. Mirela é estudante de Letras da Universidade de Havana e estava em Trinidad a passeio. Exímia dançarina, Mirela tentou me ensinar a dançar salsa na Casa de la Música, fracasso que ao menos a fez dar boas risadas do meu bailado robótico. Também conheci as amigas de Mirela que lá estavam, bebemos muito rum, e logo todas quiseram me levar a um city tour pela madrugada para que eu visse mais atrações coloniais dos séculos 17 e 21. Quando fazíamos menção de deixar o perímetro da Casa de la Música, quatro policiais à paisana nos abordaram. Eu logo fui liberado — o turista tem sempre razão —, mas Mirela e suas amigas passariam por maus bocados. A princípio, tentei argumentar com os agentes que estávamos todos celebrando, mas não houve conversa: cubanas ao lado de turistas são revisionistas do mercado negro, uma vez que Fidel há anos sentenciou que não há prostituição em Cuba. (Consta que, certa vez, um rei intumescido por seu poder absoluto sentenciou que o sol não poderia nascer na manhã seguinte.) Mirela só conseguiu escapar das garras dos agentes da polícia política subordinada ao Ministério do Interior (Minint) porque eu consegui convencê-los de que ela era minha namorada e de que já estávamos juntos desde Havana. A mentira tornada verdade por uma nota de cem dólares que meu polegar escondeu até que eu cumprimentasse o policial não conseguiu isentar as amigas de Mirela. Segundo o espião do Minint, “as demais serão levadas a uma delegacia e poderão sofrer processo por rufianismo e meretrício. Se condenadas, é possível que fiquem umas duas ou três temporadas em fazendas de reeducação pelo trabalho”. Antes de me deixar partir com Mirela, o pelego do Minint, a reboque de um devido senso de justiça recompensada, me ensina o catecismo cubano para evitar novos contratempos:

— Se você quiser andar pelas ruas com uma novia cubana sem ser importunado novamente, vá até uma delegacia e registre a sua relação perante o Estado. Você e sua novia receberão uma declaração que atestará para os devidos fins que não estão transgredindo as normas de Cuba.

Ora, quer dizer que o Estado se ramifica até o mais recôndito da minha vida privada? Quer dizer que a vontade do Partido se insinua em meu quarto como minha camisinha? Faço menção de gritar com o agente, mas o desespero de Mirela me puxa pela cintura e só faz dizer gracias por todo, señor, hasta luego!

Revolução ceifada
Se este escritor esquerdista já senti uma tristeza vertiginosa diante da contrarrevolução cubana, que sentimento se apoderou do bolchevique Nikólai Rubashov ao ver que a foice vermelha passara a ceifar a revolução? Como a personagem de Koestler não se suicidou — apesar de saber que logo seria suicidada após a autoconfissão —, Rubashov passou a fazer a pergunta inevitável: por quê? N. S. Rubashov, fundador do Partido Bolchevique, teórico socialista, começa a percorrer os subsolos contraditórios da história a partir do movimento revolucionário que se volta contra si mesmo.

Seria preciso questionar radicalmente o caráter inequívoco do devir histórico rumo à emancipação. Rubashov entrevê uma série de tragédias em tal concepção que Marx toma de assalto de Hegel. Se o real é racional e se o racional é real, as manifestações históricas, suas expressões factuais, não apenas apresentam a logicidade da história, mas também despontam como eventos necessários — o que é é e não poderia deixar de ser assim. Dessa maneira, a teleologia histórica se aproxima de uma teologia laica, por meio da qual a razão universal — para o Marx do Manifesto comunista, a revolução emancipatória do proletariado — exprime de modo inexorável o darwinismo social daquilo que conseguiu subjugar todas as demais possibilidades que não se transformaram em fatos. À iminência de se ver transformado em óleo lubrificante para as engrenagens da repressão, Rubashov entende com os tornozelos e os pulsos aguilhoados que o determinismo histórico amordaça precisamente as contingências revolucionárias. Senão, vejamos.

Lênin e Trótski deram início ao processo de ampla centralização do poder com a progressiva supressão dos sovietes. Afinal, o jovem Marx do Manifesto, influenciado pela ditadura republicana dos revolucionários franceses, não hasteou a necessidade da ditadura do proletariado? A mordaça aos sovietes vedou uma das maiores possibilidades da história da humanidade de transformar a democracia em expressão efetiva das camadas populares. Ora, logo a Revolução de Outubro passaria a sofrer as investidas dos russos brancos, os contra-revolucionários emigrados que recebiam amplo patrocínio das potências ocidentais temerosas com o possível espraiamento do socialismo para além da Rússia. Traçou-se o cordão sanitário para isolar a URSS do restante da Europa. Assim, frisa o determinismo histórico, a origem do Terror Vermelho foi a guerra civil que os bolcheviques tiveram que lutar, a paranóia de não saber quem eram os patriotas e quem eram os espiões, quem lutava pela revolução e quem sabotava as fábricas. Se a URSS se via à iminência de uma invasão estrangeira, como não agir com pulso firme contra os kulaks? (Os kulaks, os proprietários rurais que resistiam ao processo de coletivização forçada e, mais ainda, à necessidade de entregar boa parte de sua produção a preços ridículos para que a URSS cada vez mais urbana fosse alimentada.) A política de Stálin de pilhagem aos kulaks levou à inanição milhões e milhões de camponeses russos — mas, se não fosse assim, como é que os burgueses do campo aprenderiam a cooperar e como é que a URSS montaria seu parque industrial sem alimentar os trabalhadores? E sem um forte parque industrial-militar, como resistir às investidas estrangeiras e ao fascismo que prometia exterminar o bacilo comunista? Hitler não prometera transformar Moscou em uma represa? Ao acompanharmos a cadeia de inevitabilidade histórica desdobrada por Rubashov, chegamos às portas de um dos acordos mais improváveis em termos ideológicos: o pacto Ribbentrop-Molotov, que estabeleceu um acordo de não-agressão entre os fascismos de direita e de esquerda, entre a Alemanha sob o punho de Hitler e a URSS sob a bota de Stálin. Analisemos mais detidamente as causas necessárias que fundiram a revolução à reação.

Guerra total
As democracias imperialistas Inglaterra e França não tinham o menor interesse em uma Alemanha forte — as cicatrizes da Primeira Guerra eram suficientemente recentes para lembrar aos senhores coloniais da Europa (e da África e da Ásia) que uma Alemanha belicista bem no coração do Velho Continente logo se espraiaria como uma metástase em busca de seu Espaço Vital. Assim, enquanto Hitler abocanhasse territórios a leste — sobretudo se houvesse “justificativas” como a anexação da Áustria germânica e dos Sudetos tchecoslovacos com população de ascendência alemã —, Inglaterra e França não se mostrariam efetivamente incomodadas, pois o III Reich se veria cada vez mais à beira de uma guerra total contra a URSS — o Ocidente não queria extirpar o cancro bolchevique? Por que não deixar Hitler fazer o serviço sujo para depois destronar o Führer? Ora, Stálin e sua camarilha bem perceberam as manobras maquiavélicas dos senhores coloniais. Então, o pacto de não-agressão com os nazistas se mostrou necessário para engatilhar os latidos do pastor alemão nazista contra a Europa Ocidental. Enquanto isso, a URSS conseguiria um tempo extra para aumentar a blindagem do Exército Vermelho e esperar pelo momento em que o pacto Ribbentrop-Molotov fosse enviado para um campo de concentração em Auschwitz ou na Sibéria.

Vista dessa maneira, a história não se torna tão causal quanto as leis de Newton? O que não despontou como fato não poderia ter sobrevivido — eis como a história escrita pelos vencedores é arregimentada como o transcurso rumo à vitória. Mas Rubashov bem nota que, se tal marcha inequívoca for desconstruída em seus momentos de constituição, o real mostrará Stálin e sua camarilha tomados pela hesitação e pela recalcitrância diante do pacto temerário com Hitler. Se a URSS tivesse sido aniquilada, a engenharia política de Stálin o teria transformado em revisionista-mor da grande revolução. A vitória referendou sua posição de Guia Genial dos Povos. Assim, Rubashov quer introduzir a conjunção se no ventre da história. Afinal, quem disse que o poder de agregação dos sovietes não seria mais democrático, horizontal e efetivo do que o Estado policial e paranóico? Se não houve contraste com a história, como afirmar que a democracia soviete apenas faria gerar o caos e o entrechoque de interesses dos diferentes grupos sociais, ao passo que a cadeia de comando fortemente hierárquica e consuetudinária seria a única força a lidar com o autoritarismo de Hitler? Quando a história é lida como a profecia do já ido, isto é, como um movimento progressivo que culmina nos fatos já conhecidos pelos historiadores, a análise e a interpretação via de regra se transformam em justificação. O caráter condicional das decisões e as possibilidades diversas são simplesmente preteridos em função do princípio de realidade imposto como destino — ou, para usarmos o jargão partidário, como lei das determinações objetivas da história. O passo seguinte à história apreendida como justificação é a sua conversão em hagiografia da vitória e, sobretudo, dos vitoriosos. Rubashov se dá conta de que, em termos verdadeiramente revolucionários, seria importante escrever a história do que quase foi, a história do que não foi, a história das enormes possibilidades perdidas, preteridas, vilipendiadas ou relegadas como utópicas justamente por aqueles que um dia hastearam a bandeira da utopia — a história dos perdedores.

Se levarmos a lei das determinações objetivas da história às últimas consequências, Fidel Castro e o bom e velho Che Guevara deverão ser condenados pelo fato de a revolução socialista na América Latina ter permanecido ilhada em Cuba. Analisemos a cadeia de fatos à luz da vitória: após decretar o caráter socialista da revolução, Fidel provoca a ira do Departamento de Estado e da CIA. Em 1961, John Fitzgerald Kennedy financia a invasão contra-revolucionária à Playa Girón, invasão frustrada pelas tropas castristas em poucos dias. (Até hoje, para emular a revolução que há muito deixou de ser revolucionária, a propaganda oficial expõe outdoores em Playa Girón, “a primeira vitória dos oprimidos da América Latina contra as forças imperialistas do Tio Sam”.) Em 1962, Nikita Kruschev e a URSS entrevêem uma possibilidade de forçar os EUA a retirar os mísseis instalados na Turquia e apontados para o território russo. O legítimo ressentimento cubano e a crescente proximidade de Fidel com os soviéticos levou Kruschev a propor a instalação de mísseis nucleares na Baía dos Porcos, precisamente a região em que um ano antes ocorrera a invasão financiada pelos EUA. O mundo se viu às voltas com a Terceira Guerra Mundial, da qual apenas dariam testemunho as sombras fosforescentes dos cadáveres, dado o poderio atômico das duas superpotências capazes de aniquilar a Terra mais de uma centena de vezes. Então, caso Kennedy quisesse que os mísseis não fossem instalados na ilha que outrora abrigava cassinos e prostíbulos para o regozijo de Wall Street, Kruschev exigia que os mísseis engatilhados contra a URSS na Turquia fossem removidos ASAP (as soon as possible). É claro que Fidel Castro “acreditou” até o último momento que a URSS queria ajudar os cubanos a se vingar da invasão imperialista à Playa Girón — assim a propaganda cubana alardeará por séculos e séculos, amém. Mas, a partir do momento em que os EUA tiveram que ceder, as zonas de influência no mundo ficaram devidamente demarcadas. A América para os americanos saxões e a Cortina de Ferro para os russos.

Escombros do tempo
Quando estive em Budapeste, fui “visitar” o Museu do Terror, sede da antiga polícia política húngara sob o punho da URSS. Infelizmente, o museu estava fechado para reforma, então fiquei observando as fotos das vítimas do movimento que os húngaros viriam a chamar de Revolução de 1956, a contraposição nacional ao domínio soviético que se instaurou após a Segunda Guerra — as fotos ficam expostas na fachada do museu, como feridas que não querem cicatrizar. A Hungria passou a se rebelar contra o socialismo de fachada e de migalhas, e antes da chegada dos blindados de Moscou, a população de Budapeste chegou a tomar a capital e proclamou, utopicamente, a constituição de um novo governo. Com esse panorama histórico ao alcance da memória e das luvas — fazia muito frio na Budapeste invernal —, duas húngaras notaram que eu claudicava para tentar pronunciar os nomes dos heróis da resistência. Começamos, então, a conversar, e logo vi o pesar tomando conta de seus semblantes como se a memória jamais deixasse de se esgueirar pelos escombros do tempo. Eis que Réka, cujo tio-avô havia sido morto na rebelião, sentencia:

— Se os Estados Unidos soubessem que a União Soviética mandaria tanques para a Hungria, eles teriam intervindo!

Áncsi, amiga de Réka, tenta consolá-la pousando a mão côncava sobre seu ombro, mas não deixa de contrariar a observação de Réka revelando para a amiga o maquiavelismo da lei das determinações objetivas da história:

— Ora, Réka, e você acha mesmo que os americanos não sabiam que os russos iam mandar tanques para cá? É tudo feito conforme os ditames da máfia: dividir para reinar. Tio Sam ali, os russos aqui, e os húngaros como uma das fatias do bolo.

Lancemos mão da análise histórica deveras espirituosa de Áncsi para entendermos como o paradoxo transforma Che Guevara em agente contra-revolucionário à luz da história vista como causalidade inequívoca. A partir do momento em que os quintais imperialistas de EUA e URSS estão devidamente demarcados, a revolução cubana desperta a completa atenção das forças estadunidenses. Kennedy leva um exemplar de A guerra de guerrilhas, de Che Guevara, para sua casa de campo. Toda e qualquer tentativa de exportar a revolução passaria pelo financiamento contra-revolucionário da CIA — que o digam as ditaduras brasileira, uruguaia, argentina, chilena e seus milhares e milhares de presos políticos, desaparecidos, mortos e suicidados, não necessariamente nessa ordem. Assim, o voluntarista Che Guevara, entrevendo as brechas da história como contingências que o verdadeiro revolucionário deve aproveitar, primeiramente tenta, sem sucesso, sublevar o Congo. Algum tempo depois, Che leva seu ímpeto para a Bolívia, o coração sem saída para o mar da América do Sul. O leitor e a leitora, de volta a 1967, bem poderiam imaginar que o Partido Comunista Boliviano, tornado legal por um breve interregno “democrático” espionado pela CIA, apoiaria a revolução guevarista, não? Pois se o leitor e a leitora forem tão espirituosos quanto a húngara Áncsi, farão bem em deduzir que o Partido Comunista se opôs ao foco revolucionário de Che — já não estava acordado entre as camarilhas da Casa Branca e do Kremlin que não haveria interferências nas respectivas zonas de influência? Então, que Che Guevara levasse sozinho sua pulsão de morte às últimas consequências. Assim, após o desmantelamento dos rebeldes sob o comando de Che, o comandante-em-chefe da revolução cubana é fuzilado por um oficial do exército boliviano com o beneplácito da CIA.

Retomemos, então, a lógica de Rubashov: se todas as (supostas) condições objetivas desaconselhavam a ação revolucionária de Che — a chamada teoria do foco revolucionário que espraiaria os movimentos de contestação como as labaredas de um incêndio; se Cuba já estava assentada como república socialista; se Che havia sido presidente do Banco Central cubano e era um verdadeiro expoente da (tentativa de) construção do novo homem socialista, por que interpretar a marcha inexorável da história como o movimento da contingência e por que tentar se contrapor às forças hercúleas que impediam a efetiva transformação da realidade com vistas à emancipação dos homens e mulheres? Che Guevara, então, é diagnosticado como psicótico por não aceitar o princípio de realidade — a realidade como princípio coercitivo, eis a derivação fundamental da reacionária lei das determinações objetivas da história. Mas se, por um mero acaso — acaso que só atua historicamente enquanto a história está sendo construída, já que a história hagiográfica como justificação a posteriori faz questão de eliminar a contingência e suprimir o se em favor do dado que —, se, por um mero acaso, Che Guevara tivesse saído vitorioso em seus focos revolucionários, sua foto eternizada por Albert Korda dificilmente seria estampada em bótons, camisetas e no biquíni de Gisele Bünchen — de fato, Che, hay que enducerse. A tese do mártir vira mercadoria quando a antítese da indústria cultural o transforma em nicho de mercado; a antítese do mártir vira hagiografia quando a tese do Congresso do Partido Comunista Cubano, também conhecido como PCC, canoniza Che por unanimidade.

Contra a condenação histórica da contingência e por uma teleologia que construa a história como uma totalidade aberta, Rubashov propõe o esboço de uma filosofia da história baseada no movimento das eclusas. Se o curso de um rio é acidentado e possui desníveis de altitude entre seus planos, a construção de eclusas pode torná-lo transitável para as embarcações ao interpor degraus hidraulicamente móveis para que os barcos possam, por exemplo, ascender a um novo plano tão logo a água preencha o reservatório da eclusa e os transporte ainda uma vez ao curso regular do rio. Rubashov, teórico e prático do socialismo, bem sabe que o ímpeto revolucionário não se dissemina de forma homogênea entre as classes e os membros da sociedade. A história nos ensina que sempre tende a haver a vanguarda, para cujos membros pouco numerosos o novo — ou melhor, a possibilidade do novo — se apresenta como uma aceleração do tempo presente que já lhes parece anacrônico, como a grande contingência de transformação para levar a história a um novo patamar. Tais homens cruzam o rio a nado a despeito da presença de eclusas. Mas a história também nos ensina que as massas — esse ente amorfo a quem o messianismo atribuiu o papel de sujeito revolucionário para a ruptura dos aguilhões da opressão — encontram-se em forte descompasso em relação ao vanguardismo dos “efetivos” revolucionários. As massas podem vir a ser revolucionárias, caso sejam devidamente incitadas a tanto, caso suas tendências de inércia social, reprodução da hierarquia e da tradição e descaracterização individual dos membros que as constituem em prol de um todo manipulável não se transformem em um verdadeiro aríete para o reacionarismo. Mas como fazer para que haja sintonia e sincronia entre os auspícios da vanguarda e a inércia das massas? (Não nos esqueçamos de que a pergunta de Rubashov é formulada à iminência de ser suicidada pela utopia revertida em cadafalso.)

A lição trágica legada pelo socialismo real disseca o ímpeto de arregimentar o movimento da história em uma planilha lógico-matemática com a vistas à implementação da utopia por planos qüinqüenais como o motor que, em contraste com as contradições encarniçadas da realidade, acaba subvertendo a democracia em autocracia, os sovietes em ditadura do Partido, os movimentos sociais em réus, a presunção de inocência em autoconfissão forjada. Rubashov entrevê que a aceleração do sentido revolucionário das massas dependeria da percepção coletivamente compartilhada de que já é possível chegar a um novo patamar do rio, de que determinado nível da eclusa já se mostra obsoleto. Para tanto, o outrora político revolucionário chega à conclusão escatológica de que a Realpolitik maquiavélica que vem regendo a história deve ser superada pela lógica do Sermão da Montanha de Cristo como a abnegação mais irrestrita por parte da vanguarda que tem como fim redimir a humanidade. Que os revolucionários abram mão de si mesmos, que vistam capuchinhos, que vivam para os demais, que mostrem a todos que só é possível governar sem culpa se as decisões pelo destino de todos forem tomadas justamente por todos. Só assim as massas romperiam a lógica do todo autoritário que veria o Führer como resultante vetorial de seus auspícios para se tornarem conscientes sobre si mesmas, para fundarem Utópolis. Mas, então, estaríamos diante de uma revolução material atrelada a uma profunda transvaloração moral — quiçá o maior fator de contingência para a fundação da utopia. Não à toa, então, Rubashov busca a metáfora da sabedoria na peregrinação de Moisés.

Outrora filho da camarilha dos faraós do Egito que oprimiam os judeus, Moisés descobre sua origem judaica e passa a comandar seu povo, sob os auspícios do Deus de Israel, para que o cativeiro egípcio tenha fim. Os judeus e suas múltiplas tribos partem em peregrinação pelo deserto rumo à cidade prometida. São necessários 40 (400, 4.000) anos para que o Decálogo desça do Monte Sinai. (Sequer chegamos a compreender o não matarás, que dirá a lógica do amor que apregoa o oferecimento da outra face para além do evangelho segundo Talião.) Mas Rubashov, Moisés e Cristo sabem que é justamente a trajetória pela aridez do deserto — sua vacuidade e seu ímpeto de esquecimento — que pode suscitar nos homens e mulheres a superação da escravidão. A privação do deserto poderia tornar consuetudinária a cooperação para além da usurpação, a solidariedade para além da solidão coletivamente vivenciada. Antes de ser assassinado, Rubashov entrega os manuscritos de sua esperança ao vizinho de cela pelas frestas da corrupção soviética. Não há tempo de apor um título à revolução que quer peregrinar. Como despedida, o vizinho de cela de Rubashov, condenado que a realidade ficcional talvez chamasse de Max Brod, lhe assegura que a humanidade um dia saberá viver entre o zero e o infinito. Até lá, o camarada Max Brod sentencia:

— Bem-vindo ao deserto do real… Adeus, camarada Rubashov!

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Arthur Koestler

Arthur Koestler. Foto: Divulgação

Nasceu em Budapeste em 1905. Freqüentou a universidade de Viena antes de trabalhar como correspondente em Berlim, Paris e no Oriente Médio. Por seis anos (1932-38) foi um membro ativo do Partido Comunista. Foi capturado por soldados franquistas na Guerra Civil Espanhola e aprisionado sob sentença de morte. Em 1940, Koestler foi para a Inglaterra, adotando o inglês para seu primeiro livro, Scum of the earth. Suicidou-se em 1983, tendo expressado com freqüência sua crença no direito à eutanásia.

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Arthur Koestler
Trad.: André Pereira da Costa
Amarilys
304 págs.