Quase-diário

junho 2016 / Quase-diário / Revisão da arte, Paulo Coelho, Murilo Mendes

Texto publicado na edição #193

Revisão da arte, Paulo Coelho, Murilo Mendes

Com habilidade, Paulo Coelho mente descaradamente

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Paulo Coelho, o mago

Paulo Coelho, o mago

O Globo faz uma página a partir do fato de que uma leitora ameaçou tocar fogo nos seus livros porque nenhuma instituição queria aceitar a doação. Falei com o jornal, iniciou-se uma campanha de doação e livros, mais de 300 pedidos por dia.

Jack London[1] (especialista em informática) encomendou-me um “hipertexto” para a revista eletrônica que tratará da Arte Moderna hoje: necessidade de revisão. É um projeto antigo meu que tenho que desenvolver.

22.04.2000
Estou fazendo para a revista eletrônica Hipertexto (do Jack London) um texto provocativo/polêmico sobre o “nonsense” que existe na arte que andam fazendo por aí, analisando as contrafacções que irritam tanto o público quanto muitos artistas.

Se isso causar polêmica, será bom e será ruim. Bom porque vai despertar consciências, ruim porque vai absorver minha energia por muito tempo[2].

Saiu o CD de crônicas escolhidas pela Luzdacidade, que a amizade de Paulinho Lima produziu. Tem apresentação de Fernando Sabino. O Paulo Autran fala dois de meus textos.

Tinha dito ironicamente numa crônica que Paulo Coelho deveria ir para a Academia. Na ocasião ele me mandou um email agradecendo. Agora, lançou seu novo livro lá, declarando-se candidato. Jornais e revistas fazem matéria. Abri, por acaso, o Corriere della Sera e tinha ampla reportagem com ele. Este jornal publica, aliás, aos domingos uma coluna dele. É realmente um fenômeno em todo o mundo. Habilíssimo. Mente descaradamente, como na entrevista na Bahia, na qual disse que nunca se importou com o mercado editorial. Ao mesmo tempo diz que não sabe se já publicou nove ou doze livros, mas está seguro de que já vendeu 29 milhões de exemplares. (Seus editores dizem que ele acompanha a vida dos concorrentes de perto).

Fui ao Jô Soares lançar o CD de crônicas escolhidas, Textamentos e A sedução da palavra.

Ana Maria Machado lembra em sua conferência que foi na minha gestão no Departamento de Letras e Artes da PUC que foi criada a cadeira de literatura infantojuvenil e que ela foi chamada para dar o primeiro curso. Foi a primeira vez que isso ocorreu numa universidade. Daí as teses hoje existentes.

No meu lançamento de A sedução da palavra, em Brasília, Marco Maciel pede que seu filho vá pegar um autógrafo. Tenho aqui um cartão do senador a propósito daquela crônica sobre a necessidade de delicadeza[3]. Um cartão delicado, fraterno. Ele é uma figura respeitável.

01.05.2001
Aeroporto de Lisboa: 14 horas, vindo do Rio, indo para a Ilha da Madeira para um encontro sobre culturas do Atlântico, onde devo ler poemas e falar de minha perplexidade entre esses dois mundos.

Ainda há pouco estava tentando me lembrar da visita que fiz a Murilo Mendes em 1968, à sua casa em Roma. Seria via Viale, 6? Quase nada me ocorre. Quadros na parede, apartamento amplo, era à tarde, a figura dele e de Saudade Cortesão palidamente na lembrança. Mesmo quando ele esteve lá em casa nos anos 70 e nos reunimos com Hélio Pelegrino, Fernando Sabino e Otto Lara, pouco me lembro: só de ter posto um Mozart para tocar e a alegria dos mineiros em torno dele: Otto, Hélio, Fernando indo junto até mesmo ao banheiro, como colegiais, para fofocar. Sim, lembro-me que Marina estava grávida de Alessandra e mostrou o apartamento ao Fernando.

NOTAS
[1] Uns 14 anos depois num shopping, vejo Jack London lançando Depois do Facebook. Como as coisas mudam. Ele fala que nos EUA estão implantando chip nas pessoas como forma de comunicação: o facebook agora está dentro das pessoas.

[2] O projeto não foi para frente. Jack London vendeu a empresa. Posteriormente o referido artigo foi publicado n’O Globo e gerou o livro Desconstruir Duchamp. Depois de várias edições pela Viera&Lent, a Rocco editou-o virtualmente.

[3] Publiquei a crônica no livro Tempo de delicadeza (L&PM, 2007).

 

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