Ensaios e Resenhas

setembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Retrato do real

Texto publicado na edição #173

Retrato do real

Em “Bandido raça pura”, Fred Melo Paiva busca a descrição mais significativa de cenas, comportamentos e imagens

> Por ANDRÉ ARGOLO

É como espiar diferentes vidas por buracos de fechaduras, de confortáveis poltronas, bons fones de ouvido para escutar as conversas, risco nenhum de flagra: uma delícia, não é? Talvez causasse algum incômodo se fosse sua mãe. Ou alguém assim próximo. Apenas com esse senão, o normal é que se leia somente com muito prazer e surpresa cada um dos 36 textos de Bandido raça pura, do jornalista Fred Melo Paiva. Todos foram publicados em jornais e revistas entre 2005 e 2013 (predominantemente no jornal O Estado de S. Paulo, entre 2005 e 2007), e apesar do tempo, não envelheceram. Há um ou outro ponto específico datado, além dos fatos que os motivaram, mas nada que comprometa as histórias. São relatos que se tornaram, no mínimo, documentos de um tempo — esse nosso tempo — que dizem mais do que a superfície às vezes divertida, às vezes trágica das vidas de que tratam, com alguma crueldade, sem dúvida na busca da realidade mais clara possível e com a ajuda muito marcante dos recursos do texto literário — se trata de literatura, talvez caiba uma discussão.

Apurados como reportagens, escritos em alguns casos como contos, crônicas, mais ainda em forma de roteiros de documentário devido à boa edição de aspas, a maioria dos textos é de perfis — o primeiro capítulo sobre famosos, o segundo sobre não-famosos (com as redes sociais esse conceito anda movediço, não?), e mais duas partes com bichos ou coisas e situações. Em comum entre eles nota-se um esforço do autor em humanizar ao máximo os relatos. Mas há pesos e medidas diferentes, dependendo do alvo.

Na busca pela descrição mais significativa de cenas, comportamentos e imagens, Fred Melo Paiva soa cruel em alguns momentos — Oscar Niemeyer ganhou “uma feição de Don Corleone”; o nadador paraolímpico Clodoaldo Silva “vai como um filhote de tartaruga, arrastando-se para a água, puxando o próprio peso no braço”; “Cauby Peixoto é um personagem, acontece que nunca desce do palco”. É mais evidentemente cruel com ricos e famosos. Sobre a modelo internacional Alessandra Ambrósio, diz que é desprovida de tempo, de bunda, e que tem pés horrorosos. Ressalta na atriz Cleo Pires a boca de coringa, apesar de ao mesmo tempo confessar sua admiração por essa mesma boca e explorar na entrevista os pensamentos e vivências dela sobre sexo. Recorda alguns dias e noites de Ronaldo quando ainda era jogador, em festas e eventos, culminando no famoso caso dos travestis, recontado em detalhes. Trata a ex-dona da loja de alto luxo Daslu, em São Paulo, Eliana Tranchesi, como alguém que não tinha a menor ideia do que é uma favela e que teria ofendido gravemente a sociedade brasileira com seu empreendimento. E mesmo em um relato sobre personagem heroico do movimento MST, aproveita para criticar alguns jovens urbanos de famílias endinheiradas que se juntam eventualmente ao movimento e retornam de avião a suas casas, enquanto os sem-terra marcham — as “estagiárias de calcanhar sujo”. A maior parte dos relatos, no entanto (inclusive nesses que foram citados), valoriza pensamentos ou atitudes nobres e, sobretudo, revela realidades pouco conhecidas pelas reportagens de dia a dia nos principais veículos do jornalismo brasileiro.

Por meio dos perfis de Jamelão e Joãosinho Trinta, conhecemos bastidores da vida em redor do samba do Rio. Momentos importantes do século 20 passam pelas lembranças de Apolonio de Carvalho. Um pouco do que é viver na Amazônia está no emocionante relato de um pai que busca um filho sumido na mata, e que morre em seus braços arrependidos. Assim como resgata a humanidade de um mendigo que morreu na frente da Prefeitura de São Paulo e ali ficou por muitas horas, com seus últimos minutos de vida reconstituídos por relatos de outros mendigos, ouvidos pelo autor. Principalmente com base nesses dois últimos exemplos, pode-se dizer que os textos são mais convincentes e saborosos quanto maior é a evidência da proximidade e do trabalho de apuração do autor. Nessa questão, o livro já começa muito bem, porque logo o primeiro parágrafo passa a sensação ao leitor de estar ele mesmo na cena descrita, o olhar dirigido pela perspicácia do autor, julgando pouco o que vê, descrevendo habilmente, espiando o arquiteto Oscar Niemeyer, muito velho, porém ativo.

Gênero
A ficha catalográfica define o livro assim: 1. Jornalismo literário 2. Crônica brasileira 3. Perfis brasileiros 4. Reportagem. Apesar de ser termo consagrado, o jornalismo literário é uma nomenclatura movediça. Jornalismo é, antes de tudo, verificação e contexto. Literatura é arte. Mas e a crônica, que pode ser baseada ou não em fatos reais? Vale ressaltar que os textos de Fred Melo Paiva nascem de um trabalho jornalístico, de apuração, entrevistas, como os próprios textos sugerem. Mas o autor usa formas evidentemente literárias para apresentar a realidade apurada. Na história sobre Ronaldo, mimetiza a narração de futebol. Ele também dá voz a um cão da raça pitbull no texto que dá nome ao livro (Bandido raça pura). Sobre a morte de um peão de rodeios, Virgílio Gonçalves, escreve em linguagem adaptada e melhorada de boletim de ocorrência policial, entre outros exemplos de habilidade na construção do texto. Dependendo de onde se publicam os textos de Fred Melo Paiva no jornal, o leitor pode ter mais certeza se se tratam de jornalismo ou literatura. Em livro, podem até mesmo ser lidos como ficção. E em princípio não perderiam relevância por isso.

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Fred Melo Paiva

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É mineiro, jornalista com vivência em alguns dos principais veículos do país, o que não significa imediatamente que seja bom por isso — é um jornalistão que tem a velha mania de fazer reportagens, e é isso que o define como um bom profissional desse meio. Passou dos 40 anos, torce pelo Atlético Mineiro, publicou O dia em que me tornei atleticano (Panda Books) e atualmente apresenta o programa de televisão O infiltrado, no History Channel.

Ceará Cozinheiro está muito chique. Ele, que vivia na rua, tem endereço fixo desde segunda-feira. Mora numa gaveta do Instituto Médico-Legal, em São Paulo. (...) O Grande lance do Ceará foi ter batido as botas bem em frente à Prefeitura, no Viaduto do Chá. Por si só o endereço não garante notoriedade a nenhum morto, visto que o viaduto sempre se prestou à causa dos suicidas anônimos, que se jogam lá de cima, trombando logo abaixo com o Vale do Anhangabaú. (de Aqui jaz o João Ninguém)

Fred_Melo_Paiva_Bandido_raça_pura_173

Fred Melo Paiva
Arquipélago
256 págs.