Ensaios e Resenhas

fevereiro 2015 / Ensaios e Resenhas / Réquiem ao poeta

Texto publicado na edição #178

Réquiem ao poeta

Resenha de dois livros de Ivan Junqueira

> Por MARCOS PASCHE

Ivan Junqueira por Robson Vilalba

Ivan Junqueira por Robson Vilalba

Em 3 de julho de 2014, o Brasil perdeu um homem de letras dos mais notáveis em toda a sua história. Falecido no Rio de Janeiro, aos 79 anos, Ivan Junqueira marcou presença na literatura brasileira atuando com fecundidade e extrema competência nas áreas da tradução, do ensaísmo e da poesia. Destas duas últimas vertentes, o autor deixou prontos, respectivamente, Reflexos do sol-posto e Essa música, que simbolizam o desfecho triunfante de uma trajetória bibliográfica marcada pela densidade reflexiva e por um agudíssimo senso estético no trato com a escrita, quer crítica, quer literária.

Aqui me ocuparei dos dois livros recentemente lançados, tratando primeiramente do ensaístico e, posteriormente, do poético. Como Ivan Junqueira me parece um poeta menos explorado do que justifica a importância de sua obra (embora ela não seja ignorada), e sendo mais Essa música mais expressivo do que Reflexos do sol-posto, vou dar mais espaço à poesia do que ao ensaio, aproveitando para inserir no texto uma ou outra parte que funcione como panorama geral da obra do poeta e de seu lugar na contemporaneidade.

Põe-se o sol
Reflexos do sol-posto reúne vinte e sete textos críticos que Ivan Junqueira publicou dispersamente, em forma de conferências, prefácios, depoimentos, orelhas de livro, etc. Embora o volume não traga textos por assim dizer definitivos enquanto meditação literária, a exemplo de Intertextualismo e poesia contemporânea, de O encantador de serpentes (1987), e de tudo o que compõe o livro Baudelaire, Eliot, Dylan Thomas: três visões da modernidade (2000), nele estão presentes os fatores que conferem alto quilate à prosa ensaística de Ivan Junqueira. Falo da erudição, que o habilita a citar poetas e pensadores alemães (cf. Da utilidade do útil) e a comentar novelas brasileiras com a mesma propriedade (cf. Do folhetim à novela de televisão). Falo também da elegância e da clareza redacionais, sem o que a erudição pode facilmente caminhar para o exibicionismo fútil: “Como Aleijadinho, Machado de Assis é um milagre, e digo-o aqui porque as épocas em que ambos viveram, aquele ao longo do século 18, este na segunda metade do século 19, não pressupunham a obra que realizariam, seja por seu ineditismo criador, seja por sua consecução formal” (Machado de Assis: 170 anos). Falo, por fim, da argúcia crítica consorciada à abertura intelectual, o que o leva a escrever de modo penetrante sobre poetas (O papel do Rio na poesia de Manuel Bandeira) e ficcionistas (Riacho doce: lição de maturidade), autores canônicos (Gonçalves Dias e o Romantismo) e novatos (Marques-Samyn: temas antigos), literatura (Nauro Machado e a poesia brasileira) e ciências humanas (Gilberto Freyre e o colonizador português).

A fim de ilustrar na prática a argúcia interpretativa de Ivan Junqueira, destaco sua percepção de elementos que não se apresentam tão claramente em poemas e narrativas, e também sua capacidade de analisar textos ou poéticas por perspectivas variadas, com o que o crítico evita posicionamentos estreitos e aumenta o sentido das obras que contempla. Como exemplo da fina observação, sublinho um trecho de Machado de Assis e a arte do conto: “Na verdade, sempre que os braços sobem à cena na ficção machadiana, não são apenas eles que estão nus, mas sim todo o corpo de suas personagens femininas”. Quanto à análise de uma obra por inteiro, acerca da qual Ivan relativiza opiniões de outros estudiosos para demonstrar procedentes possibilidades de leitura, cito um fragmento de Riacho doce: lição de maturidade, em que o crítico fala a respeito da ficção do paraibano José Lins do Rego:

Não são poucos, entretanto, os que denunciam em Lins do Rego certa adiposidade expressiva, além e contumazes descuidos com a linguagem e estilo. Sustentam, ainda, que se trata de um autor cuja formação literária pagaria óbvio tributo à pressa e à leviandade jornalística e que lhe faltaria, a rigor, o embasamento filosófico e cultural de uma visão de mundo capaz de absorver, no plano ficcional, toda a complexidade do homem contemporâneo. Mas, se analisado apenas sob esse ângulo, perder-se-á o que de mais puro existia no escritor: aquele transbordamento a um tempo lírico e telúrico que foi o seu traço mais genuíno e ao qual, sabiamente, o ficcionista jamais renunciou.

A exemplo do que já havia feito em nota a O fio de Dédalo (1998), Ivan Junqueira anunciou Reflexos do sol-posto como o seu último livro ensaístico, por já ter abandonado há muito a escrita sistemática de crítica literária em jornais e revistas, em que ele atuou regularmente por cerca de trinta anos. Ao antever a conclusão de sua bibliografia crítica — com “quase a plena certeza”, conforme diz na nota prévia —, talvez ele sentisse a aproximação da morte (da qual, aliás, sua poesia é tão íntima). O certo é que tal conclusão confirma a excelência de seu trabalho e a autonomia de seu pensamento, confirmando também a inestimável contribuição que seu pouco explorado ensaísmo pode dar aos estudiosos de literatura.

 

Entoa-se a música
De acordo com Per Johns, um de seus maiores intérpretes e maior amigo, a poesia de Ivan Junqueira é um “dédalo de arcaicas escrituras”. É um dédalo por seu caráter labiríntico, que faz da linguagem poética uma tradução do mistério, sendo também ela — a linguagem poética — um enigma particular; é arcaica por seu deliberado e inconteste vínculo com a ancestralidade — dos castelos, das masmorras, dos reis e dos abades; e é escritura porque seu traço verbal se revela personalíssimo e, pelo seu requinte, torna a escrita literária um ato de sacralidade cultural.

Ler Ivan Junqueira é adentrar o reino da monumentalidade artística. Atrevo-me a dizer que seria impossível não encontrar em qualquer um dos seus volumes de poesia textos que não causem no leitor a sensação de impacto — pela contundência das imagens, pelo estoicismo da voz que as apresenta e, principalmente, pela construção de um discurso exato e magnífico. A título de exemplo, destaco poemas como Esse punhado de ossos, E se eu disser e Vai longe o tempo, extraídos de A sagração dos ossos (1994), ponto culminante de uma bibliografia em invariável estado de culminância.

Essa música, o derradeiro volume de poesia do autor de O grifo, saído quatro meses após a sua morte, só reforça a excelência bibliográfica de Ivan Junqueira. Composto por trinta poemas, Essa música traz consigo a confirmação de que a poesia assoma em parte pelo fazer do poeta, em parte pela manifestação do que extrapola os olhos e o intelecto. É o que se pode concluir da leitura de O poema, que abre o volume: “Não sou eu que escrevo o meu poema:/ ele é que se escreve e que se pensa,/ como um polvo a distender-se, lento,/ no fundo das águas, entre anêmonas,/ que nos abismos do mar despencam”.

Para a crítica literária, a obra do autor de Os mortos pode denotar um problema dos mais intrincados, referente à relação de pertencimento entre autor e época. Por mais que se empreguem termos como “pluralidade”, “diversidade” e “heterogeneidade” para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar com clareza que os mecanismos de legitimação social da literatura — as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias — tendem a endossar como autênticos representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (falo do Modernismo mais festivo e iconoclasta).

Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1980 publica um livro intitulado A rainha arcaica, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo, tanto na forma (um conjunto de catorze sonetos), quanto no tema (a evocação de Inês de Castro, a rainha galega medieval que baila entre a história e a lenda). Ainda com tal perspectiva, como verificar contemporaneidade numa poesia que em forma fixa aborda figuras como Joana d’Arc e Jesus de Nazaré, conforme ocorre em Essa música, no qual figura sem rebuços “E então mais uma vez me fiz antigo”?

Não há passadismo em Ivan Junqueira. Sua escrita, apinhada de elementos associados à tradição, em nenhum momento faz irrefletido ou gratuito louvor ao tradicionalismo. Há, sim, uma escolha pelo poético, e não pelos dogmas de qualquer espécie que se formam acerca dele. Há, também, uma densa concepção artística, de acordo com a qual modernidade e contemporaneidade independem de traços dicotomizantes.

Obra eterna
Ainda que não lhe fosse corrente o vocabulário informal, tampouco quisesse fazer barulho sistemático contra as vanguardas e seus continuadores, é possível supor que Ivan Junqueira tenha percebido algumas chatices da contemporaneidade e, assim, tenha decidido fazer uma obra eterna. Por isso é que o vemos, em sua extraordinária atuação ensaística, estudioso dos antigos, dos modernos e dos recentes, e também é por isso que vemos em sua poesia a manifestação de modernidade sem viés programático, isenta dos maniqueísmos que pretendem separar de modo absoluto o velho e o novo, o passado e o presente, o sim e o não.

Acerca disso, sua presença na literatura brasileira ilustra, a um só tempo, um modo contraditório e lógico de exprimir atualidade, algo reiterado por Essa música: contraditório porque a força de sua obra não se abastece das linhas correntes da poética hodierna, ou seja, o boicote de categorias teóricas, o experimentalismo devotado e a recusa à comunicabilidade. Isso dá à sua poesia um espírito contracontemporâneo ou não contemporâneo. Porém, tomando o fenômeno pelo ponto de vista da, por assim dizer, atualidade oficial, veremos em Ivan um poeta perfeitamente contemporâneo, e por uma razão relativamente simples: se o critério de pertença ao presente literário é a diferença, a maneira como Ivan se distingue da poesia corrente dá a ele uma propriedade ímpar, pois raramente se encontra em nosso panorama literário obra que se assemelhe à sua, que, diga-se de passagem, não se exime da assimilação de concepções ideológicas e recursos poéticos prestigiados no século 20, como, por exemplo, a recusa de valores consagrados pela convenção, o verso livre e a intertextualidade (Cf. Cidade). A mais, há em sua obra uma leitura transtemporal da marcha humana (marcando principalmente suas vilezas) que dificilmente encontrará paralelo entre seus coetâneos, como se pode ler nesta contundente passagem de Joana d’Arc: “Já estava tudo acertado/ entre os ingleses e os padres./ A sentença veio rápida:/ morte nas chamas vorazes.// E o mais não há quem saiba:/ ardi no fogo, nas brasas,/ nas labaredas da praça/ até que fui cinza. E nada”.

Uma significativa forma de inserção na contemporaneidade pode se dar pelo viés contrário ao das peças de seu jogo, a exemplo de um corpo estranho. Por mais simples que pareça, um fator elementar dessa inserção é o dizer possível — e necessário — da poesia, fator que a coloca num patamar de recusa, tanto em relação às crenças gerais, porque sempre prontas, quanto às crenças da literatura de departamento, pela desconstrução perfunctória. É pelo seu dizer pensante que o poeta pode esbarrar no homem como não o faz a retórica para a massa, que a todos vê com os olhos da generalização; e é pelo seu dizer sensível que o poeta ainda pode lançar o homem à dimensão emotiva do intelecto, quando o discurso do absolutismo teórico mostra-se insuficiente para alcançar o que esteja um palmo além de seus domínios: “Este homem, que hoje se esquece,/ já não mais se reconhece// a si ou à sua história,/ ao ser humano, essa escória.// No entanto, vê-se que ele ora/ por nós agora e na hora// da minha e da tua morte,/ mesmo que isto não te importe”, diz Ecce homo.

Ivan Junqueira agora habita o mundo de que sua poesia foi música constante — o mundo dos mortos. Que desse mundo inaudito e misterioso, onde o sol é já posto, soe essa música capaz de fazer ouvir e ver o que há para além do visível e dos códigos que insistem em restringir a visão mais densa — a que comove, redime e liberta.

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Ivan Junqueira

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Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1934. Estudou Medicina e Filosofia, mas teve o jornalismo como ofício. Publicou mais de trinta livros, entre tradução, volumes de ensaios e de poemas, tendo sido premiado em todas as vertentes de produção literária de que se ocupou. Foi, por catorze anos, ocupante da cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras. Morreu em 2014.

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