Ensaios e Resenhas

abril 2019 / Ensaios e Resenhas / Religião como aspecto

Texto publicado na edição #228

Religião como aspecto

O protagonista de "Nas profundezas" enfrenta Deus, depara com o diabo e percebe ali traços de divindade

> Por LUIZ HORÁCIO

Joris-Karl Huysmans, autor de Nas profundezas

Joris-Karl Huysmans, autor de Nas profundezas

Michel Houellebecq, no romance Submissão (2015), despertou a atenção do leitor francês para o esquecido J.-K. Huysmans. Esquecido por lá, quase desconhecido na pátria do “isso daí”. Com Nas profundezas, em admirável tradução de Mauro Pinheiro, o leitor tem a oportunidade de travar contato com a persona autor e a pessoa física Huysmans.

Durtal, protagonista de Nas profundezas, é o alter ego de J.-K. Huysmans. Ele seguirá em cena nos dois próximos romances do autor — La cathédrale e L’Oblat, constituindo dessa forma o que se intitulou, equivocadamente, a trilogia do adeus de Huysmans ao Naturalismo. Importante salientar que nada em Huysmans é tão simples assim, o decadentismo também faz parte de sua biografia, a chamada “arte degenerada”, grosso modo, um certo fascínio pela perversão. O capítulo de abertura do romance é praticamente um panfleto contra o Naturalismo, a sequência faz lembrar um thriller. Nas profundezas oportuniza o vislumbre de algumas facetas do autor, como veremos mais adiante. No momento, fiquemos com a função autor.

Para Roland Barthes, um escritor será sempre o imitador de um gesto ou de uma palavra anteriores a ele, mas nunca originais, sendo seu único poder misturar, combinar escritas. Logo, o autor é uma persona, um personagem. Ao preencher formulários que pedem a profissão, o escritor não escreverá “autor”. Ele será autor enquanto escreve. Por sua vez, a relação entre a consciência do autor-criador e a consciência do herói concorre para o que se chama de autoficção.

O termo autoficção enseja um sem número de polêmicas, a começar pela tentativa de reabilitação do autor, passando pelas implicações psicanalíticas concernentes ao “eu”, a convivência do factual com o ficcional numa mesma obra, até o ponto da fragmentação da linguagem. Não se trata de narcisismo, essa exposição do eu, mas antes de performance, de experimentação de outras possibilidades de representação desse eu, tomado como uma construção de linguagem.

E talvez, quem sabe com certa razão, você, esclarecido leitor, entenda como ousadia ou ausência de conhecimento de causa alinhar a obra de Huysmans à autoficção. Estou ciente que Nas profundezas não cumpre todos os requisitos enumerados por Serge Doubrovsky.

Realidade e ficção
A discussão acerca dos limites da ficção e do real em literatura remete a Paul Valéry: “em literatura o verdadeiro não é concebível e qualquer tipo de confidência visa à glória, ao escândalo, à desculpa, à propaganda”. Cabe acrescentar que a aproximação do real com o ficcional, em qualquer instância, traz consigo um perigo bastante considerável, abalando uma das principais categorias literárias, o autor, sobre o qual refletiu Barthes:

Apesar de o império do Autor ser ainda muito poderoso (a nova crítica muitas vezes não fez mais do que consolidá-lo), é sabido que há muito certos escritores vêm tentando abalá-lo. Na França, Mallarmé, sem dúvida o primeiro, viu e previu em toda a sua amplitude a necessidade de colocar a própria linguagem no lugar daquele que era até então considerado seu proprietário; para ele, como para nós, é a linguagem que fala, não o autor; escrever é, através de uma impessoalidade prévia — que não se deve em momento algum confundir com a objetividade castradora do romance realista —, atingir esse ponto em que só a linguagem age, “performa”, e não “eu”: toda a poética de Mallarmé consiste em suprimir o autor em proveito da escritura (o que vem a ser, como se verá, devolver ao leitor o seu lugar).

Toma-se como pontos de extrema relevância a imaginação e o contato entre os gêneros, ocasionando a consequente derrubada de fronteiras, trocas e rupturas, para examinar o ainda controverso gênero autoficção. Embora causador de polêmicas e questionamentos infindáveis, oriundos da amálgama de gêneros que encerra, vale lembrar Mário de Andrade:       “todos os gêneros sempre e fatalmente se entrosaram, não há limites entre    eles. O que importa é a validade do assunto na sua forma própria”.

Cabe acrescentar que entendo de insignificante relevância descobrir ou separar os fatos da ficção. O importante é o que resulta dessa relação entre o fatual e o discurso ficcional. Sem dúvida, a narrativa apresenta gêneros conflitantes, romance e autobiografia; mas, segundo Carlos Nejar, “a forma é dada pela exigência da linguagem”. Logo, da convivência desses diferentes surge a autoficção.

O trabalho de Doubrovsky e as obras que integram o gênero, aproveitando a flexibilidade permitida, legitimam o que diz Tzvetan Todorov:

Todo grande livro estabelece a existência de dois gêneros, a realidade de duas normas: a do gênero que ele transgride, que predominava na literatura precedente, e a do gênero que ele cria […] Geralmente, a obra-prima literária não se encaixa em nenhum gênero.

Convém ressaltar que um livro narra os passos de um ser de linguagem que, em alguns momentos, permite ao leitor identificá-lo ao autor. Alguns livros são narrados em terceira pessoa, algumas coincidências apontam para aspectos da autoficção. Ao tratar de autoficção, principalmente da produção recente, creio que o conceito do gênero deva ser deixado de lado devido à grande e permanente transformação que se pode notar nas ditas escritas de si.

Nas profundezas, como disse anteriormente, permite analisarmos inúmeros aspectos, a religiosidade é um deles. Geralmente os estudos apontam como um marco da ruptura com as primeiras obras onde a espiritualidade influenciaria o fazer literário. Um olhar atento permite afirmar que tal procedimento não causa grandes mudanças e também acende a luz da dúvida: até que ponto isso realmente ocorre? Arrisco dizer que a intenção de Huysmans foi de enveredar por um caminho nada usual para os naturalistas e fazer da religião um aspecto, um objeto do Naturalismo. Ele jamais abandonou o Naturalismo.

Huysmans, na pele de Durtal, desenvolve o plano de criar um naturalismo espiritualista, o que entra em choque com Hermies, que decreta o fim do Naturalismo logo no início de Nas profundezas. Para confirmar isso se faz necessário ir além dessa obra. O leitor perceberá que a transformação literária do autor ocorre concomitantemente com sua evolução espiritual. Conforme o dito acima, obra e vida de Huysmans estão fortemente imbricadas. Alude-se a uma discórdia entre Huysmans e Zola, o que não se sustenta pois ambos dialogaram acerca da religiosidade — para confirmar, se faz necessária a leitura de obras ainda sem tradução na pátria do nefasto capitão. O leitor encontrará esse debate em Lourdes, escrita por Zola, e Huysmans respondeu com Les foules des Lourdes.

A trama de Nas profundezas é um mise en abîme: Huysmans escreve um livro onde seu personagem Durtal escreve a biografia de Gilles de Rais, marechal francês, pedófilo, assassino. E Durtal não “aceita” Deus — ele o enfrenta, se depara com o diabo e percebe ali traços de divindade. Durtal invade os meandros do satanismo e do espiritismo enquanto de Rais desce ao inferno.

Ler Nas profundezas remete a Louis-Ferdinand Céline, mais exatamente ao Viagem ao fim da noite. Dizem que Huysmans foi uma influência, o certo é que ambos foram antissemitas. O ônus coube a Céline.

 

 

J_K_Huysmans_Nas_profundezas_228

Nas profundezas
J.-K. Huysmans
Trad.: Mauro Pinheiro
Carambaia
400 págs.

O AUTOR
Joris-Karl Huysmans (1848-1907)
Foi um escritor e crítico francês, comumente associado a Émile Zola e aos naturalistas. Adiante integrou o movimento decadentista. É autor de Às avessas, entre outros livros.

 

Print Friendly