Ensaios e Resenhas

junho 2019 / Ensaios e Resenhas / Relato da barbárie cotidiana

Texto publicado na edição #230

Relato da barbárie cotidiana

O romance "Mauricéa", de Adrienne Myrtes, narra a desgraçada trajetória de um homossexual radicado em São Paulo

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Em seu novo romance, Mauricéa, Adrienne Myrtes entregou ao protagonista o direito de narrar sua própria história. E correu o risco de desenvolver uma narrativa inadequada ao complexo personagem — um homossexual que, pressionado pelo ambiente conservador do Recife e por uma desilusão amorosa, segue para São Paulo em busca de paz e glória.

Todos esses conflitos são narrados numa linguagem segura, não falseada, movida e marcada pelo amadurecimento da escritora. O resultado é um personagem profundo, intenso; um homem envelhecido e sem esperanças, mas que guarda as ingenuidades de um tempo onde a maldade ainda era suportável, posto que não se fazia escancarada.

Era meu aniversário e pensei ser justo comemorar. Velho não comemora aniversário, inteira tempo, dizia-se no Recife, onde fui criança; decidi contrariar a sabedoria do povo. Sentia-me jovem, remoçada pelo romance com Mel. Contei minhas economias e planejei coisa inusitada: um jantar em restaurante bacana. (…) Esqueci-me de que aos vira-latas restam as sobras e a porta da rua.

Todo enredo do romance é uma destilação perene de humilhações. Omar nasce enquanto a mãe, Mauricéa, morre no parto. É criado por uma tia, de quem esconde sua condição homossexual. Diz trabalhar como garçom, mas, depois de ser demitido do emprego em uma loja por pressão dos clientes contra sua opção sexual, adota o nome da mãe, Mauricéa, e ganha a vida como travesti. Abandonado pelo namorado, que resolve viver com uma prostituta, vai para São Paulo e mergulha em outras misérias, sobrevivendo como manicure.

Diante de tudo que já se disse aqui, naturalmente que o romance poderia descambar para o óbvio — um longo discurso de denúncia, em defesa da comunidade gay. E aí teríamos mais um panfleto, mais um texto marcado pelo maniqueísmo, pela eterna luta entre o bem e o mal. Não que a denúncia esteja ausente do romance. A todo instante ele toca na ferida aberta da condição de degradação a que toda essa comunidade é submetida cotidianamente, mas a fortaleza da narrativa se prende a uma discussão mais ampla e humana.

Discussão humana
O que está em debate é todo o panorama humano que cerca Omar (nome de batismo de Mauricéa). Ninguém está no espaço do romance para se dar bem. O próprio namorado que a abandona no Recife, Jonas, migra para São Paulo com a namorada grávida, Marlene, e passa a viver sua miséria pessoal. É igualmente miserável a situação das prostitutas e também migrantes Izildinha e Paula Klee, que cuidam de Mauricéa, acamada depois de ser agredida na rua. São todos marginalizados e obrigados a viver de degradações.

Mas não estamos falando de um texto sobre decadências, pois não há nenhuma opulência. Tudo é degradação e miséria no panorama romanceado por Adrienne, como se fosse a condição natural das coisas.

Todo esse universo, no entanto, nasce como base para uma discussão ainda maior: a crescente crueldade da modernidade. Mauricéa desanda suas dores a partir de uma situação, no mínimo, perversa. Ela está acamada, doente, impossibilitada de se locomover e sendo cuidada pelas amigas depois de levar uma surra. Ironicamente seus agressores são senhores homofóbicos com quem compartilha a fila de remédios do posto de saúde. Enquanto a narradora mitiga suas dores, os velhinhos, a “gangue da melhor idade”, de aparência inocente e dócil, seguem suas vidas de suposta normalidade. E essa indiferença social talvez seja a maior ferida que Adrienne impõe a seu personagem.

Desde sempre, e em qualquer lugar, a vida de Mauricéa foi feita dessas dores, dessas impossibilidades de reação. Sofreu hostilidades verbais na infância, exclusão social na adolescência e agressão física na maturidade, um crescente rosário de crueldades a solidificar, a denunciar, o máximo desprezo pelas diferenças.

No prefácio, a escritora Micheliny Verunschk chama a atenção para a composição dos personagens. É fato que Adrienne consegue formalizar um caleidoscópio rico em sua diversidade moral. Getúlio, o colega de colégio com quem tem um caso, mas que se afasta à medida que conhece as meninas; a tia Totonha, que o cria com todo amor, mas que se deixa iludir enquanto se mata costurando; dona Eulália, a vizinha que insiste em acusar a condição homossexual do garoto enquanto arrota piedades; Jonas, o gigolô que se encanta com a primeira mulher que aparece; Dona Saló, Izildinha, todas as personagens trazem a função de abrir feridas, de espelhar cada ponto de degradação de uma vida marcada por um destino de humilhações. Um destino onde não há lugar para a normalidade da paz.

É um livro forte, bem escrito e profundamente contemporâneo. Mais que um alerta, Mauricéa é um convite à reflexão sobre a barbárie cotidiana que nos cerca.

 

 

Adrienne_Myrtes_Mauricéa_230

Mauricéa
Adrienne Myrtes
Edith
117 págs.

A AUTORA
Adrienne Myrtes
Nasceu no Recife (PE) e vive em São Paulo. Artista plástica e escritora, participou de algumas antologias e publicou A mulher e o cavalo e outros contos (2006), o romance Eis o mundo de fora (2011) e a novela Uma história de amor para Maria Tereza e Guilherme (2013).

Print Friendly