Ensaios e Resenhas

maio 2012 / Ensaios e Resenhas / Reescrevendo a vida

Texto publicado na edição #145

Reescrevendo a vida

O poeta Fabrício Carpinejar uma vez disse que sua infância ia melhorando com o passar do tempo. Contou que tinha […]

> Por ADRIANO KOEHLER

O poeta Fabrício Carpinejar uma vez disse que sua infância ia melhorando com o passar do tempo. Contou que tinha o hábito de recriar alguns pedaços, de inventar outros, de melhorar algumas passagens, dar mais drama a outras — mas a cada dia sua infância ficava melhor. Pode ser que ele não se lembre disso, mas dou o local do crime: Churrascaria Arena, em Curitiba, há uns cinco ou seis anos.

Eu acredito no Fabrício, e acho que a recriação da nossa história não está limitada à nossa infância, mas a todos os momentos passados da vida, inclusive os que aconteceram ontem. Mesmo uma ida comezinha à padaria da esquina para comprar pão e leite pode virar uma epopéia: o pão tinha acabado de acabar, a máquina do cartão estava fora do ar, a calçada estava bloqueada por um entulho qualquer e encontramos aquele chato do escritório que não parava de falar. Enfim, juntamos tudo para transformar o ato cotidiano em épico pessoal.

Pensando assim, a infância e o resto da vida não são mais que argumentos iniciais para se contar histórias. E é dessa forma que se pode abordar Histórias abandonadas, quarto livro do escritor e professor universitário mineiro Luís André Nepomuceno. São sete contos que têm a memória afetiva do autor como ponto de partida, mas que não têm sua vivência como ponto de chegada. A partir de fatos que podem ter acontecido com Nepomuceno ou com qualquer outra pessoa, ele traça contos que podem ser lidos em conjunto, mas que vivem muito bem independentes um do outro. Todos tratam da vida e dos sentimentos conflitantes que ela nos provoca.

Manobrando o real
O primeiro conto, No colo de Mazília, narra como um menino aprende a ler e a gostar de ler com uma vizinha mais velha, bonita (pelo menos aos olhos do menino), e de como ele reage com ciúmes quando essa vizinha aparece com seu noivo, futuro marido. Para quem mora em grandes cidades e tem algum suporte financeiro, aprender a ler com a vizinha talvez seja algo inusitado. Mas para quem mora nas pequenas cidades — e no caso de Nepomuceno seu universo afetivo é o de uma pequena cidade no interior de Minas Gerais —, todos se conhecem e se ajudam. O protagonista da história é também seu narrador, e à medida que as palavras vão se desenrolando, vamos acompanhando o pensamento do menino Saulo. Digo acompanhar, pois, felizmente, Nepomuceno não se coloca em posição de vantagem e não tenta explicar o que o menino sente, apenas narra o que acontece.

Apesar de o protagonista deste conto específico ser um menino, quem narra a história é sua versão adulta. Em alguns momentos, Nepomuceno põe o narrador a observar o quanto era inocente sua versão infantil; em outros, questiona o leitor, antecipa que dali a alguns parágrafos algo importante acontecerá e interage de alguma maneira. E é por haver um narrador adulto que fala de fatos de outros tempos, alguns da infância, outros já da vida adulta, que a história pode ter tido uma origem real, mas foi modificada para ficar mais literária. Longe de ser um defeito, quando essa manobra é bem executada, normalmente vira um bom livro.

Variedade de sentimentos
Em Bernardo, a intromissão do narrador na história é ainda maior, pois o autor não fala de uma infância sua, mas da de outra pessoa, de outras crianças. É o narrador que aparece para explicar pontos que a história sozinha poderia deixar muito em aberto, por ser onisciente e achar necessário contar por que Bernardo é daquele jeito, por que a menina o ajuda, enfim, dar todos os porquês. É uma escolha do autor e, em alguns casos, pode até parecer exagerada. Mas é vez ou outra que temos esse sentimento. De maneira geral, Nepomuceno sabe o momento de parar de interromper a história com suas elucubrações para deixar que o leitor elabore as suas conclusões. O que pode ser meio chato são as citações a obras e autores de outras épocas. Esse artifício pode ser usado de maneira correta ou não, depende de o autor não se sentir seguro de seu trabalho e buscar referenciá-lo em outros mestres. Pode ser ignorância minha (provavelmente deve ser), mas nunca ouvi falar em Dante Gabriel Rossetti, Amadis de Gaula, Oriana, John Singer Sargent, Bouguereau. São poucas citações, mas elas aparecem em momentos importantes, e por isso crescem à nossa vista, e eventualmente isso pode incomodar.

Um ponto alto de Histórias abandonadas é o conto que dá título ao livro. Nele, um sobrinho há muito afastado do tio solteiro e sem filhos o visita no hospital, pois o moribundo quer escutá-lo tocar Villa-Lobos ao violão. O sobrinho vai e recebe de uma enfermeira um envelope contendo várias folhas em branco, cuja escrita que foi coberta com alguma tinta. De acordo com ela, era um envelope que o moribundo queria eliminar mas que a enfermeira, de alguma maneira, intuiu ser importante e conservou para dar a alguém da família. Esse alguém é o sobrinho, que o leva para casa com uma grande dúvida: “Se era do meu tio e ele queria jogar fora, por que eu vou guardar?”, pergunta-se. Aos poucos, ele vai limpando a tinta branca das páginas e descobre ali um projeto de livro nunca levado adiante pelo tio que pouco conheceu. O sobrinho acha que o livro tem valor literário, mas fica em dúvida se deve respeitar a vontade do tio ou não. Ele também se lembra de Kafka e Virgílio, que queriam que seus trabalhos fossem destruídos após sua morte. Felizmente não o foram. Histórias abandonadas tem um final surpreendente e muito legal, por isso não conto. Mas vale a reflexão sobre o valor do texto e qual a nossa relação com o autor.

Todos os contos estão nivelados por cima, e se o fio condutor é um só, aparentemente o nosso protagonista Saulo, a diversidade de sentimentos que Nepomuceno resolve abordar torna cada conto único, e é dessa diferença que nasce a independência de cada um. Podemos lidar com o amor pueril de No colo de Mazília, com o sentimento da perda em Histórias abandonadas, com a vergonha da adolescência em Maria Egipcíaca e até mesmo com a perversão em A caminho de Damasco. Em todos eles, Nepomuceno mostra uma elegância no trato com a palavra e um respeito à inteligência do leitor ao não entregar fórmulas fáceis nem apelar para o explícito ou o escancarado. Podemos até desconfiar que Saulo, Bernardo e outros personagens que aparecem pelo caminho são os mesmos em todos os contos. Mas também pode ser que não o sejam. Por deixar essa dúvida no ar, Nepomuceno nos dá um pouco mais de trabalho e mistério e, com certeza, nos oferece um bom trabalho para ser apreciado.

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Luís André Nepomuceno

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Nasceu em Patos de Minas (MG). É ficcionista, ensaísta, tradutor e professor de literatura no Centro Universitário Patos de Minas (Unipam). É autor de vários ensaios publicados no Brasil e no exterior, e dos livros de ficção Antipalavra (2004), A lanterna mágica de Jeremias (2004) e Os anões (2009), todos pela editora 7Letras. Foi vencedor do Prêmio Guimarães Rosa, da Radio France Internationale (1998), e do Prêmio Luiz Vilela, da Fundação Cultural de Ituiutaba (1998).

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Luís André Nepomuceno
7Letras
168 págs.