Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Realidades alternativas

Texto publicado na edição #119

Realidades alternativas

O espaço é curto. O livro é longo e os contos e autores são muitos (18 autores com um conto […]

> Por SINVALDO JR.

O espaço é curto. O livro é longo e os contos e autores são muitos (18 autores com um conto cada). Futuro presente — Dezoito ficções sobre o futuro é uma antologia de contos (alguns curtos, outros nem tanto) do que pode ser considerado ficção científica, organizada pelo famigerado Nelson de Oliveira, coordenador de outras tantas antologias e projetos célebres e desbravadores, como o Projeto Portal, também de FC e fantasia.

A capa da antologia é de muito bom gosto, as orelhas idem. Preocupação e esmero em relação ao que é externo em um livro, como em qualquer livro de Nelson de Oliveira e na maioria dos livros publicados no Brasil. A escolha dos autores privilegiou a mistura de gerações e estilos — desde autores consagrados, como Márcio de Souza (cuja obra Mad Maria se tornou minissérie da Globo), a desconhecidos, com uma certa predominância de autores que nasceram ou que moram no estado de São Paulo. Problemas de logística, provavelmente, porque em outros estados não representados no livro deve, sim, existir ficção científica.

Após a leitura de livros como esse, surgem as questões: por que nós, brasileiros, lemos tantas obras estrangeiras a ponto de sempre proporcionar a elas o topo da lista dos mais vendidos da não-muito-confiável revista Veja? Por que assistimos a tantos filmes vindos dos USA, inclusive àqueles futuristas com a irritante mania de tentar convencer o resto do mundo de que os americanos salvarão o mundo do apocalipse, como bons heróis que são?

Os antropólogos e historiadores responderiam: dentre alguns traços característicos da cultural brasileira, um dos mais perceptíveis é a valorização do estrangeiro em detrimento do que é nacional. Os sociólogos mais radicais responderiam: o capitalismo é selvagem e privilegia os que possuem mais poder, mais condições, mais ferramentas em mãos (dentre as quais as da publicidade e propaganda), realidade que vale também para o mercado cinematográfico e editorial. Outros responderiam: por pura diversão ou por necessidade de entretenimento e fruição. Cada qual com sua opinião, todos têm razão.

Um dos contos de Futuro presente, o Descida no Maelström, de Roberto de Sousa Causo, com sua linguagem ora inovadora e difícil, proporciona ao leitor entrar em outra realidade, tão bem criada e tão detalhada, que os euro-russos, os robôs-tadai, os quadrúpedes esbeltos do Povo de Riv, os quase humanóides folsoranos, os encarapaçados mukbukmabaksai, e Peregrino, o protagonista, passam a ser personagens criadas pelo leitor, que acompanha vidrado as cenas de ação e aventura da história. Phlegethon passa a ser o seu quarto, caso o leitor aí esteja.

Um dos requisitos básicos de uma boa obra literária é conseguir, astutamente, que o leitor entre em um novo plano, de forma que ele esqueça, naquele momento da leitura, de todos os percalços da vida e se preocupe com os percalços da ficção lida. Vários dos contos de Futuro presente conseguem essa proeza, entre eles o já citado Descida no Maelström, de Causo, e Nostalgia, de Luiz Bras. Neste, Vitória encontra o seu próprio corpo boiando sem vida na banheira de sua casa. Alucinação? Sonho? Realidade? Após este ponto de partida, perseguições, muita ação, a criação de uma hiper-realidade a fim de libertar o homem — libertaria?

Não é necessário se basear nas listas dos mais vendidos de revistas não confiáveis nem assistir a filmes saturados de clichês para buscar entretenimento, diversão e fruição. Na literatura brasileira há muitos livros que conseguem, e bem, transportar o leitor a uma nova realidade e ser um meio interessante de investigação e imaginação. Em Futuro presente, há várias realidades, umas mais, outras menos convincentes, umas mais, outras menos cativantes. Em algumas delas é impossível sair intacto, tamanha é a capacidade dela de maravilhar o leitor.

Experimente trocar aquele livro estrangeiro sobre pipas, ou aquela superprodução estadunidense, ou aquele videogame com gráficos impressionantes pela antologia Futuro presente. Não sairá perdendo; ao contrário, só tem a ganhar.

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Futuro presente_livro_119

Vários autores
Org.: Nelson de Oliveira
Record
416 págs.