Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Realidade redimida

Texto publicado na edição #120

Realidade redimida

Traição é um negócio complicado e caro. Pede a execução de planos mirabolantes e um razoável investimento financeiro. Requer uma […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Elvira Vigna, autora de Nada a dizer

Traição é um negócio complicado e caro. Pede a execução de planos mirabolantes e um razoável investimento financeiro. Requer uma ficção bem engendrada, obriga o mentiroso a manter uma rigorosa atenção. Exige a materialidade bem-paga de restaurantes, motéis, presentes, figurinos, etc. Esquecer em casa os escrúpulos também ajuda. Conheço inúmeras famílias que vivem essa comédia deprimente. Deprimente porque é traição e, se é traição, existe dor, alguém sofre. E estamos conversados. Quando tudo é feito de comum acordo — bem, então bom proveito.

Nada a dizer é o título da mais recente produção de Elvira Vigna, escritora dona de um dos olhares mais precisos acerca de nossa precariedade e de nosso imenso talento para o cinismo. E ela lança esse olhar sobre nós com todo o brilho de seu talento criativo aliado a uma ironia e a um humor dos mais corrosivos.

Do casal de protagonistas, Paulo e a narradora sem nome — devido ao passado de ambos, de ativistas políticos —, bem que poderia se esperar alguma concordância quando o assunto fosse relações extraconjugais. Mas, quando a realidade bate à sua porta, sua fisionomia não é mais aquela que eles tão bem conheciam nos anos 1960. Agora, ela traz a maquiagem da mentira e dos subterfúgios, aspectos fundamentais que fazem, da deles, uma relação comum, igual a tantas outras naquela cidade, naquele bairro, naquele quarteirão, naquela rua.

A história é narrada pela mulher traída, movida pelo ressentimento, pela frustração e pela decepção causada por seu companheiro de muito tempo. Casal e filhos adultos mudam do Rio de Janeiro para São Paulo. Logo, Paulo, o marido, se envolve em um caso com N., mulher 20 anos mais nova que sua companheira. Também casada, a amante vive no Rio.

Com precisão de datas, detalhes, horários, endereços e roupas, a autora nos apresenta um painel riquíssimo sobre as relações amorosas. Até onde nos conhecemos e o que conhecemos do outro? Fala sobre a liberdade, a lealdade, a mobilidade das relações. Até que ponto uma mulher traída também é culpada?

A mulher de Paulo, a traída, logo descobre o caso. Interpelado, o marido nega. Ela vasculha o computador dele, suas mensagens no celular, calcula o tempo do homem fora de casa, a que se prestariam aqueles minutos. O livro é de um realismo atordoante; infelizmente, a trama nos é familiar. Um exemplo: ao vasculhar o computador de Paulo, a narradora depara com um e-mail a exigir senha para sua leitura. Acende-se o farol da desconfiança e assim ele permanecerá até o final, quando mais uma traição, a primeira de Paulo, virá à tona.

A senha era uma novidade nos e-mails dele. Questionado sobre o fato, Paulo nega que seu motivo seja amoroso. Suas explicações não convencem a mulher e ela volta no tempo, passa a limpo os momentos compartilhados com o marido e, nessa arqueologia da relação, se vê ora acusada, ora acusadora.

Depois de um longo tempo como suspeito, Paulo assume a traição. Dá-se início a um período de escavações no relacionamento de ambos. Por onde andariam a confiança, o amor, o tesão, a liberdade, a independência? A separação é a solução vislumbrada pela mulher. Mas ela não dura e, logo, o casal se refaz. E o que dói mais: a separação ou a tentativa de recomeçar com a pessoa que nos traiu? O amor brotará nesse terreno adubado pela desconfiança?

No livro de Elvira, o sofrimento da mulher traída vem envolto por um papel luxuoso de curiosidade. No mesmo embrulho, a poeira do masoquismo. Ela continua a investigar os e-mails de Paulo e, não satisfeita, lança seu olhar investigador ao blog mantido por N. O que busca? Detalhes? Referências ao marido? Talvez a tentativa de se descobrir vista por N.

Enfim, relação amorosa desfeita, marido e mulher também se desfazem, se desconhecem para o outro e para si. Triste, muito triste. O casal da história apresentada por Elvira Vigna continuará, mas a mulher traída talvez não pare nunca de contar essa história. Por quê? Ela responde: “Eu, que mato mesmo quando descrevo a morte como natural, acidental. E mato porque quem conta sempre mata aquilo que originou o conto”.

Nada a dizer pode ser examinado contra a luz, como uma radiografia da geração ativista dos anos 1960, como um diagnóstico destes cínicos tempos que nos envolvem, nos permitem expectativas e nos oferecem frustrações. Se, naqueles anos, a liberdade passou a ser sinônimo de alta rotatividade nos relacionamentos amorosos, atualmente a liberdade, no mesmo âmbito, guarda proximidade com a mentira, a traição ou, quem sabe, o faz-de-conta. Nada a dizer é uma narrativa seca, não há romantismo em suas páginas, sobra realismo. Corrosiva, permite que mudemos os nomes de seus personagens, lhes emprestando os de alguns amigos, parentes, vizinhos. Uma obra que brota do talento de uma de nossas maiores escritoras. Elvira Vigna redime a realidade.

LEIA ENTREVISTA COM A AUTORA.

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Elvira Vigna

Nasceu no Rio de Janeiro em 1947. É diplomada em literatura pela Universidade de Nancy, França, e mestre em comunicação pela UFRJ. Escreve sobre arte contemporânea no site Aguarrás. Autora, entre outros, de O assassinato de Bebê Martê, A um passo e Deixei ele lá e vim.

Primeiro, fez uma inspeção mental básica no estômago e na boca. Não, nenhum vestígio do mal-estar da noite anterior, em que, depois de comer um x-tudo no bar da esquina, vomitou e cagou a alma. E, ao falar para si mesmo essa frase, poderia ter achado engraçado: a alma. Seria oportuno, rá, rá, se livrar da alma na véspera. Mas Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões. Isso normalmente. Naquela hora, então, é que não havia de fato lugar para elas. Depois do estômago foi a vez do joelho, e, nesse, a inspeção não poderia ser apenas mental.

Elvira Vigna_Nada a dizer_120

Elvira Vigna
Companhia das Letras
161 págs.