Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Rara e distante inocência

Texto publicado na edição #143

Rara e distante inocência

Há algum tempo já havia reparado que a literatura indiana diferencia-se sobremaneira de todos os outros textos literários, talvez por […]

> Por PAULA CAJATY

R. K. Narayan, autor de O pintor de letreiros

Há algum tempo já havia reparado que a literatura indiana diferencia-se sobremaneira de todos os outros textos literários, talvez por suas raízes na tradição sânscrita e influências das culturas islâmica e persa. A tradição literária hindu reúne desde os textos védicos — de 2.500 a.C. e coincidentes com a própria estruturação da sociedade indo-européia — até fábulas, provérbios e poemas épicos do Mahabarata e Ramaiana, de onde surgiu o Bhagavad-Gita, maior clássico de filosofia e religião hindus. Não por outro motivo os indianos já foram agraciados com um prêmio Nobel de Literatura, em 1913, concedido a Rabindranath Tagore, e atualmente revela sua força com Salman Rushdie nas listas dos livros mais vendidos do mundo.

O pintor de letreiros, de R. K. Narayan, relata a mudança dos tempos em Malgudi, a pequena e fictícia cidade do Sul da Índia, nos idos de 1972, e as dificuldades do seu herói Raman na descoberta do amor. Malgudi, aliás, é uma cidade recorrente na literatura de Narayan, tendo sido utilizada como cenário de alguns de seus outros livros. Dividido em quatro partes, o romance conta a história de Raman, Daisy e Lakshimi, assim como da própria Índia pós-colonial, encantada pela modernidade, mas sem querer perder suas raízes e tradições.

Apesar da proximidade da época em que o livro é escrito, 1976, uma Índia rural e miserável se revela para o leitor, fazendo parecer que a Idade Média ali se mistura com a Idade Contemporânea, em uma narrativa assemelhada à ficção científica. Alguns exemplos marcantes são a venda de pulseiras de nylon e óculos da China, juntamente com relatos de que indianos acreditam em yoguis centenários, acompanham a ordenha das vacas em cidades urbanas, e desconhecem o uso de cadeiras até a idade adulta.

Nesse panorama de grandes paradoxos, Raman é um jovem e graduado calígrafo de aproximadamente trinta anos que se dedica à pintura de letreiros e acredita na “Idade da razão”, no pensamento racional emanado dos livros, como forma única de esclarecimento e progresso individual e social.

Talvez repetindo algo de Narayan, Raman se dedicava com fervor à tipologia, às letras e às palavras, almejando a alcunha de “o artista das letras”. Ou, como o escritor deixa entrever pelas reflexões de Raman, “Escolhi esta atividade porque gostava de caligrafia; adorava as letras, suas formas, perspectivas e sombreados. Mas ninguém liga para isso; ninguém dá valor”.

Inteiramente cético, Raman repele as orientações astrológicas de seus clientes e apenas tolera as manifestações religiosas de sua tia Lakshimi — mesmo nome da Deusa da Prosperidade — intensa freqüentadora do templo onde eram recontadas as lendas tradicionais hindus e suas interpretações místicas.

Apesar da crença em sua própria fortaleza moral, relacionada à disposição inquebrantável de resguardar sua castidade, Raman vivia com Lakshimi como qualquer adolescente o faria. Mimado, respondão, mal-agradecido, prepotente e ranzinza, sua personalidade ingênua e suas enrascadas envolvem o leitor, conferem leveza à leitura e garantem boas risadas durante todo o livro.

Humor sutil
Muito embora o romance apresente questões dramáticas na vida dos personagens e da própria Índia, o humor sutil de Narayan torna a leitura fluida, deliciosa, cativante, transportando o leitor para dentro dessa Índia colorida, poética, tímida, alegre, leve e cheia de especiarias.

A vida de Raman, organizada sobre certezas e intransigências, se desmonta com a chegada de Daisy, uma mulher indiana liberal de passado misterioso que abre em Malgudi a sucursal de uma clínica responsável pelo controle da natalidade e planejamento familiar.

A nova mulher traz a ruptura para a vida de Raman, os valores ocidentais, o nome ocidental, a insubordinação ao sistema de castas e a qualquer outro sistema de dominação religiosa. Era remunerada para combater o crescimento demográfico a qualquer custo e sob qualquer circunstância. Essa também era sua bandeira particular, dada a sua natureza rebelde, a convivência familiar conflituosa e a tentativa frustrada dos pais de casá-la na adolescência.

Com habilidade, através dos olhos de Raman, Narayan faz um belo retrato da Índia pós-colonial, abordando o sistema de castas, a contraposição da religião com a razão, o problema demográfico e o feminismo. Deixando Lakshimi, Raman acompanha Daisy em uma grande viagem rumo ao interior. Enquanto observava os paradoxos entre a Índia moderna e a Índia rural, Raman passava ainda mais tempo tentando compreender a cabeça de Daisy, reparando a batalha difícil que seria para conquistá-la inteiramente. Sequer sabia se algum dia o conseguiria. Seria ela uma sereia, uma encantadora de homens? Por mais medo que sentisse, Raman não dominava sua paixão e, sobretudo, sua curiosidade.

Muito embora repelisse crendices, por duas vezes ele aceita conselhos vindos do além. Na primeira oportunidade, ao receber a mensagem “Passará” do Professor Municipal, sentiu a palavra se aprofundar em seu ser até experimentar uma “sensação de um incessante fluir dos objetos e do tempo”. Algum tempo depois, durante sua viagem, Raman encontra-se com o sacerdote do templo de Mempi Hills, um yogui de mais de cem anos e, seguindo-o até sua caverna, faz uma oração para a Deusa da Abundância: “Que Daisy seja minha sem mais delonga. Não posso viver sem ela”.

A conquista amorosa gera uma nova ruptura na vida de Raman. Daisy e Lakshimi, então, passam a representar o velho e o novo mundo em contraposição. Ao apaixonar-se, uma escolha difícil impõe-se a Raman, muito embora ele, egoísta como todo homem, almejasse o melhor dos mundos: a iluminação e determinação de Daisy, de um lado, e a submissão e doçura de Lakshimi, de outro — duas mulheres que serviriam aos seus conflituosos interesses. No entanto, não haveria espaço para o convívio das duas no mesmo lar.

Ao anunciar seu casamento, a escolha é feita, sendo desencadeada a decisão de Lakshimi sobre seu destino. Assim é que Raman liberta sua tia do compromisso social e religioso de cuidar para que nada lhe faltasse. Muito embora ela discordasse da escolha de Raman, logo se anima ao resgatar as rédeas de sua vida, podendo dar-se ao luxo de reunir as economias para encontrar suas raízes hindus no Ganges. Afinal, como ela própria confessa ao sobrinho, ela já navegara pelo oceano de samsara por tempo suficiente.

Vinha seca e amarga
Numa primeira leitura, a caracterização de Daisy pelo narrador faz, mal disfarçadamente, uma apologia aos percalços da emancipação da mulher. Na figuração de Narayan, a mulher contemporânea submete-se ao trabalho fervorosamente, como antes o fazia a seu marido. Essa mulher é uma vinha seca e amarga, incompreensível, que vira as costas à própria família. Não quer filhos ou não os pode ter. Não valoriza o casamento, não se importa com a casa ou com as tradições religiosas. Nas palavras do sacerdote yogui ecoa a maldição: “Cuidado, mulher perversa, não atente contra os desígnios de Deus. Sua raça será extinta, se você atentar contra Ele”. Em contraposição, está Lakshimi, a Deusa da Prosperidade que reverencia seus deuses, silenciosamente cuida da casa, participa da vida no templo, interage socialmente e submete-se feliz ao cuidado do homem.

Talvez, nos idos de 1976, quando a Guerra Fria apresentava opções de vida distintas e excludentes, Narayan também tivesse optado por compor em sua Malgudi imaginária um cenário que representasse a ruptura, a escolha e a perda, muito mais do que a composição, a permanência, a integração.

Aprofundando a leitura, podemos avistar em Raman a própria Índia que, tola e ingenuamente, envergonha-se e desdenha das tradições, apaixona-se pelo canto da sereia enganadora da Modernidade e afugenta a efetiva Prosperidade de volta para seu ambiente sagrado — na nascente do Ganges, à espera da morte — em troca de um futuro estéril e possivelmente desditoso.

Essa sutileza, contudo, não está declarada ou evidente, de modo que grande parte dos leitores e críticos estrangeiros se aborrece vivamente com a aparente fraqueza e estupidez do personagem principal, esquecendo-se de que a boa literatura trata, muito mais, do que não está escrito.

Ao compreender de súbito o que o futuro lhe guardava, e tendo desposado a modernidade em pele de mulher, Raman implora à tia que retorne, mas é tarde demais — a casa parece ficar “grande demais para ele e repleta de ecos” e ele mesmo se questiona se talvez não estivesse “se enrascando com este casamento”. A prosperidade, a felicidade e o espírito da infância voltariam algum dia à Índia, depois do seu encantamento por cantos vindos de outros mares?

Não pode ser diferente o resultado. Antes do enlace, Daisy seria novamente convocada para uma missão ainda mais desafiadora e partiria antes que pudesse se mudar para junto de Raman. Nesses novos tempos, o trabalho e uma contenção desenfreada de crianças são mais importantes do que amor e partilha. A modernidade o seduziu, mas não residiria com ele, muito menos compartilharia uma vida inteira — essa era a sua natureza.

A própria razão, que Raman tanto exaltava, o devasta sem piedade. Daisy parte para levar a “razão” para um milhão de aldeias e povoados que viviam em profunda ignorância. Mas, como o sábio já houvera escrito, a dor, os objetos, o tempo, tudo isso “passará”.

A história de amor não termina. Como em todas as melhores histórias de amor da humanidade, Narayan abre mão do seu silêncio de mais de dez anos e sobe o último degrau da sabedoria para contar uma, simples e leve, que não termina, mas sabe continuar e permancer viva no imaginário sutil do leitor.

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R. K. Narayan

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Abreviação de Rasipuram Krishnaswami Iyer Narayanaswami, R. K. Narayan nasceu em Madras, na Índia Britânica (Sul da Índia) em 1906, falecendo em 2001. Narayan foi um grande romancista indiano que, durante a extensa carreira de mais de 60 anos e 30 livros, criou uma série de textos de ficção ambientados na cidade imaginária de Malgudi. É considerado um dos três maiores escritores indianos do século 20. Para que pudesse publicar o livro de estréia, escrito em 1930 recebeu a ajuda de Graham Greene, seu mentor e amigo de Oxford. Sua narrativa simples, despretensiosa e de humor delicado destacava o contexto social e descrevia os personagens através do cotidiano. Pela criação de Malgudi, chegou a ser comparado a William Faulkner. Seu estilo de escrita breve assemelhava-se ao de Guy de Maupassant e a crítica também o considerava o ‘Tchekhov’ indiano. Alçado ao panteão dos escritores mundiais e indicado ao Nobel de Literatura, Narayan teve um papel especial na disseminação das lendas e tradições indianas para o mundo, especialmente na tradução do Ramayana (1973) e do Mahabharata (1978) para o inglês. Suspendendo um jejum de dez anos na publicação de textos próprios, entre as duas traduções Narayan escreveu O pintor de letreiros (1976).

A seriedade e a compostura que ele vinha sendo obrigado a manter na presença de uma mulher o cansavam e ainda havia o insondável aspecto psicológico dos distúrbios que a índole de sereia dela haveria de ter provocado. Demonstrando preocupação quando ele estava em pé na sacada, simulando oferecer ajuda para segurar o letreiro ou a bolsa dele, sempre demonstrando solicitude no seu modo de aproximar-se dele. Ele não era do tipo que se deixava enganar por esses artifícios. Ela esperava, talvez, que as mãos deles se tocassem. E aquele exagero em se debruçar, com o sutiã quase estourando! Onde já se viu isso? Ele percebia cada truque e, graças a Deus, pôde manter o autocontrole e a devida indiferença — senão aquele escritório teria virado uma alcova de uma hora para outra.

R.K.Narayan_Pintor_letreiros_143

R. K. Narayan
Trad.: Léa Nachbin
Guarda-chuva
252 págs.