Ensaios e Resenhas

setembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Rapsódia torta

Texto publicado na edição #137

Rapsódia torta

A presença marcante da primeira pessoa em alguns tipos de narrativas — autobiografia, confissões, diários, memórias — permite ao autor […]

> Por LUIZ HORÁCIO

A presença marcante da primeira pessoa em alguns tipos de narrativas — autobiografia, confissões, diários, memórias — permite ao autor os papéis de criador e protagonista. Oferecem ao leitor a possibilidade de tornar material um ser de linguagem. O autor invisível deixa suas pegadas, seus reflexos ao utilizar os vários gêneros da escrita de si. Mas até que ponto valeria a pena seguir tais pistas? E, ao segui-las, por mais evidentes que sejam, o leitor encontrará alguém que não lhe terá nada a dizer, embora um ser de linguagem.

Esse “não lhe terá nada a dizer” ganha outra tradução em O loteamento do céu, de Blaise Cendrars, um quase Macunaíma. Vale lembrar que Macunaíma também não tem nada a dizer. São narrativas que galgaram status dada a sua estranheza. Nada mais. Digamos, com toda a condescendência, que Macunaíma seja uma peça de folclore. O loteamento do céu seria algo mais que um vale-tudo literário?

Os textos de cunho memorialístico (permitam-me colocar essa obra de Cendrars neste escaninho) freqüentam o espaço localizado entre o território da ficção e o da história, entre o real e o imaginário. Não está livre do questionamento básico: até que ponto o relatado tem um compromisso com a verdade? Mas até que ponto a verdade é importante? Até que ponto apontar esta ou aquela verdade é mais importante que refletir sobre determinados fatos? A literatura memorialista é como uma peça de teatro onde o narrador, ator protagonista, representa mais de um papel. Eis que uma questão se impõe: a escrita memorialista tem o sentido de preservar a fugacidade de um evento? Seria esta a sua função precípua, ou nada mais que mera catarse do autor?

A memória e as escritas de tom memorialístico se equilibram no espaço exíguo que separa a mentira e a confissão. Restará sempre a pergunta: até que ponto a lembrança pode ser uma ilusão?

Pedro Nava, este sim um memorialista, combina memória e imaginação, e ao afirmar que transforma seus parentes em personagens, a memória se transforma em ficção. Segundo Antonio Candido, a personagem é “um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial”. Feito o esclarecimento necessário, voltemos ao empreendimento de Blaise Cendrars.

O que vem a ser O loteamento do céu? Trata-se de um verdadeiro três em um. Embora sua primeira e sua terceira partes resultem de uma visita do autor ao Brasil, a segunda parte, O novo patrono da aviação, trata das levitações de São José de Cupertino e seus parceiros de performance. Você pode destinar um pouco de realidade e muito de ficção a essas três partes. Que tenha um quê de memória referente às suas visitas ao país e pura ficção no lote dos santos. Perdoem a redundância. Convém lembrar Rousseau: o filósofo afirma que escreveu Confissões de memória e, quando a memória falhou, preencheu essas lacunas com detalhes por ele imaginados.

Os lotes de Cendrars, o anúncio omite, precisam de terraplanagem com máquinas do zen-budismo, tamanha quantidade de acidentes. J. M. Coetzee foi visto examinando o loteamento. Retirou de lá material para seu Diário de um ano ruim — a distribuição nada convencional dos textos nas páginas, a quebra da linearidade narrativa, a aproximação de ficção e ensaio. Diário de um ano ruim tem uma identidade, impossível negar, uma identidade além das expectativas, bastante além do que informa sua sisuda ficha catalográfica, um diário disfarçado de quebra-cabeças. Não podemos esquecer que Coetzee também foi visto fuxicando o loteamento Enquanto agonizo, de Faulkner. Foi com restos de material que criou Vida e época de Michael K. Mas o assunto não é esse.

O assunto é O loteamento do céu. O que é? Uma rapsódia. No máximo, uma rapsódia. Uma rapsódia torta, visto que apresenta três movimentos.

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Blaise Cendrars

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Foi um dos mais importantes representantes das vanguardas artísticas do começo do século passado. Na década de 1910, escreveu o famoso poema A prosa do transiberiano e da pequena Joana de França, ilustrado com aquarelas de Sonia Delaunay. Fortemente influenciado pelos primeiros ventos futuristas, Cendrars alistou-se como voluntário na Legião Estrangeira durante a Primeira Guerra. Foi enviado ao front e, em 1915, perdeu o braço direito no campo de batalha. No começo dos anos 20, Cendrars veio ao Brasil e travou amizade com os modernistas Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Identificou-se imediatamente com as contradições dos trópicos a ponto de dizer que o país era a sua "pátria espiritual". Parte do romance Morravagin foi escrita no Brasil, por onde o poeta passou em 1926, ano de lançamento do livro.

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Blaise Cendrars
Trad.: Geraldo Cavalcanti
Companhia das Letras
456 págs.