Dom Casmurro

março 2018 / Dom Casmurro / Rae Armantrout

Texto publicado na edição #215

Rae Armantrout

Dez poemas de Rae Armantrout

> Por André Caramuru Aubert

Rae Armantrout_215

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Address

The way my interest
in their imaginary
kiss

Is secretly addressed
to you.

*

Without intention

prongs of ivy
mount the posts
supporting the freeway.

It would be possible to say
each leaf

circumscribes hope

or that each leaf,
fastidiously coming
to one point,

suggests a fear
of the unknown.

*

These glossy,
laced-up, high-heel boots

(each leaf)

addressed to you
Endereço

O jeito como o meu interesse
no beijo imaginário
deles

é secretamente endereçado
a você.

*

Sem intenção

garras de hera
escalam os pilares
escorando a via expressa.

Seria possível dizer
que cada folha

circunscreve a esperança

ou que cada folha,
incansavelmente vindo
até um ponto,

sugere um medo
do desconhecido.

*

Estas botas
de salto alto, polidas, amarradas

(cada folha)

endereçadas a você

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Guess

1.
The jacaranda, for instance, is beautiful
but not serious.

That much
I can guess.

And that the view
is softened by curtains.

That the present moment
is an exception,

is the queen bee
a hive serves,

or else an orphan.

2.
So the jacaranda
is foreign and extravagant.

It gestures in the distance.

Between there and here
you ask

what game
we should play next week.

So we’ll be alive
next week,

continuing
what you may or may not

mean to be
an impossible flirtation

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Suposição

1.
O jacarandá, por exemplo, é bonito
mas não é sério.

Esse tanto
eu consigo supor.

E que a vista
é suavizada por cortinas.

Que o momento presente
é uma exceção,

é a abelha-rainha
uma serva da colmeia,

ou então uma órfã.

2.
Então o jacarandá
é estrangeiro e extravagante.

Ele acena ao longe.

Entre lá e cá
você pergunta

com que jogo
brincaremos na semana que vem.

Então estaremos vivos
na semana que vem,

continuando
o que você poderá ou não

dizer que é
um flerte impossível

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Poem

Attention wanes.

The ability
to arrive

from scattered locations
at one time,

making a picture appear,
wanes.

*

In your dream we’re in a far off land
and I look completely different,

indifferent,

pretending not
to recognize you.

But here I hold
your dream
in my poem.
Poema

A atenção desvanece.

A habilidade
para chegar

de lugares espalhados
ao mesmo tempo,

de fazer uma imagem aparecer
desvanece.

*

Em seu sonho estamos numa terra distante
e minha aparência é completamente diferente,

indiferente,

fingindo que
não reconheço você.

Mas aqui eu prendo
seu sonho
em meu poema.

>>>

Write home

In order to write
you must fall in love

with your own thought
every time.

*

The dream was a sealed
capsule

in bed, sending out
reports reading:

“Wonce” “We” “Warn” “Won.”
Waking

ready to record
but sad

as if each repeated
letter

were merely
the bearer of nostalgia

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Escrever para casa

Para conseguir escrever
você precisa se apaixonar

por suas próprias reflexões
a cada vez.

*

O sonho era uma cápsula
lacrada

na cama, enviando
relatos nos quais se lia:

“Outrora” “Nós” “Advertimos” “Vencemos”.
Despertando

pronto para gravar
mas triste

como se cada letra
repetida

nada mais fosse do que
a portadora da nostalgia

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End times

1.
Galaxies run from us. “Don’t look!”
Was this the meaning
of the warning in the Garden?
When a dreamer sees she’s dreaming,
it causes figments to disperse.

2.
Black bars and dots
of low cloud,

almost a signature,
reflected on a sunset marsh.

Luxuriant and spurious code

as art,
as if we were meant to think,

“Beautiful!” —
so we do

and a ripple
travels in one spot.

When something reaches
the speed of light

it will appear to freeze,

growing gradually
less meaningful.

3.
Being able to look at water soothes the anxious emptiness between thoughts. I think again and again about the way the water looks. I can keep each thought longer by writing it down. The process of writing this sentence is time-consuming in itself, almost irritatingly slow—so now I rush and jumble the letters. It occurs to me that later I may not be able to read what I wrote.
Fim dos tempos

1.
Galáxias se afastam de nós. “Não olhe!”
Era esse o significado
do aviso no Éden?
Quando uma sonhadora vê que sonha
faz ir embora a fantasia.

2.
Linhas e pontos negros
da nuvem baixa,

quase uma assinatura
refletida num pântano ao sol poente.

Um código exuberante e espúrio

como a arte,
como se fosse para que pensássemos,

“Que lindo!” —
então é o que fazemos

e a série de ondas
viaja num único ponto.

Quando algo atinge
a velocidade da luz

parecerá congelar,

gradualmente crescendo
perdendo sentido.

3.
Poder olhar para a água reduz a ansiedade do vazio entre as ideias. Eu penso de novo e de novo sobre a aparência da água. Posso manter cada ideia por mais tempo ao escrevê-la. O processo de escrever esta frase toma tempo por si só, é irritantemente lento – de modo que agora eu me afobo e embaralho os papeis. Me ocorre que talvez mais tarde eu não consiga ler o que escrevi.

>>>

A story

Despite our infractions
we are loved
by the good mother
who speaks carefully:

“I love you, but I don’t
like the way you lie there
pinching your nipples
while I’m trying to read you a story.”

Once there was an old lady who told her son she
must go to the doctor because she was bleeding
down there. She didn’t look alarmed, but suppressed
a smile, as if she were “tickled,”, as if she were
going to get away with something.

“Look,” said the doctor, “you are confusing
infraction with profusion. Despite
may be divided into two
equal segments: Exceptional and Spiteful.”

But the stubborn old woman just answered,
“When names perform a function,
that’s fiction.”
Uma história

Apesar de nossas infrações
somos amados
pela boa mãe
que com delicadeza fala:

“Eu te amo, mas não gosto
da maneira como fica recostada ali
mexendo em seus mamilos
enquanto tento ler uma história pra você.”

Houve certa vez uma senhora que disse ao filho
que precisava ir ao médico porque estava sangrando
lá embaixo. Ela não parecia assustada, mas não
sorriu, como se estivesse coçando, como se
fosse dar sumiço em alguma coisa.

“Veja,” disse o médico, “você está confundindo
infração com profusão. Apesar de
poderia ser dividida em dois
pedaços iguais: Excepcional e Rancoroso.”

Mas a teimosa senhora apenas respondeu,
“Quando nomes desempenham um papel,
é ficção.”

>>>

Postcards

Man in
the eye clinic
rubbing his
eye —

too convincing. Like
memory.

My parents’ neighbors’ house,
backlit,
at the end of their street.
Cartões postais

Um homem
no oculista
esfregando seu
olho —

muito convincente. Como
a memória.

A casa dos vizinhos de meus pais,
iluminada por dentro,
no fim da rua.

>>>

Spent

Suffer as in allow.

List as in want.

Listless as in transcending
desire, or not rising
to greet it.

To list
is to lean,
dangerously,
to one side.

Have you forgotten?

Spent
as in exhausted.
Gastar

Sofrer como em permitir.

Listar como em querer.

Apático como em transcendendo
o desejo, ou não se erguendo
para celebrá-lo.

Ouvir
é se recostar,
perigosamente,
em um lado.

Você se esqueceu?

Gastar
como em esgotado.

>>>

Sponsor

We drove to the slough and walked briefly
along the uneven path.

There are plants here
you see nowhere else,
you said.

Pickle weed? Duck weed?

Branching pipettes.

*

Among twenty brown hills
the only moving thing
was the Coca-Cola truck.
Patrocínio

Dirigimos até o charco e caminhamos um pouco
através do terreno irregular.

Há plantas aqui
que não se vê em nenhum outro lugar,
você disse.

Salicornias? Lentilhas d’água?

Berçário de mudas.

*

Naquelas vinte colinas escuras
só o que se movia
era o caminhão da Coca-Cola.

>>>

Advent

In front of the craft shop,
a small nativity,
mother, baby, sheep
made of white
and blue balloons.

*

Sky
god
girl.

Pick out the one
that doesn’t belong.

*

Something

close to nothing
flat
from which,

fatherless,
everything has come.
Advento

Na frente da loja de artesanato
um pequeno presépio,
mãe, bebê, ovelhas
feitos com bexigas
brancas e azuis.

*

Céu
deus
menina.

Escolha qual deles
não faz parte.

*

Alguma coisa

próxima a nada
rasa

de onde,

sem um pai,
tudo teve origem.

Rae Armantrout
Nascida em 1947, é uma das poetas norte-americanas mais admiradas em atividade. Usualmente associada ao movimento Language (uma das correntes da vanguarda pós-modernista dos Estados Unidos do fim dos anos sessenta), que enfatizava o papel do leitor na construção do significado do poema, ela é muito mais a principal herdeira do lirismo conciso de Robert Creeley (que estava, aliás, entre seus admiradores). Rae Armantrout ganhou um bom número de prêmios, incluindo o Pulitzer de 2010.

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