Ensaios e Resenhas

abril 2014 / Ensaios e Resenhas / Quero ser Woody Allen

Texto publicado na edição #168

Quero ser Woody Allen

Em “Fingidores”, Rodrigo Rosp apresenta um protagonista hipocondríaco, lascivo e neurótico

> Por ARTHUR TERTULIANO

Há uma foto icônica de J. R. Eyerman para a revista Life intitulada Watching Bwana Devil in 3D at the Paramount Theater. Ela registra um momento histórico: a noite de estreia do primeiro longa-metragem colorido em 3D, Bwana Devil, em 1952. Todos em seus ternos e vestidos elegantes com óculos brancos, estes proporcionando um toque scifi retrô à cena.

Na capa de Fingidores: comédia em nove cenas, de Rodrigo Rosp, vemos uma fotografia semelhante. Nela, dezenas de escritores da cena literária porto-alegrense estão de óculos escuros (à guisa de óculos 3D — o fingimento começa por aí), sentados nas poltronas de um cinema, todos prontos para assistir à estreia de Rodrigo Rosp em uma narrativa longa. Antes de cada um dos capítulos (contos? cenas?), há fotos em que os personagens da capa se surpreendem, brigam entre si, se entediam, checam o celular no meio da projeção e prestam muita atenção ao momento em que Caio, protagonista do livro (romance? roteiro?), “parte desta para uma… melhor?” Sim, a capa teve forte influência na decisão de ter o livro — é bem bonita, nada incomum em se tratando de uma obra da Não Editora.

Já a decisão de ler o livro é mais complexa, haja vista a grande quantidade de livros lidos ao mesmo tempo — alguns próprios, outros tantos emprestados de bibliotecas, implorando para serem lidos antes da data de devolução; todos, invariavelmente, lançando mão dos artifícios mais baixos para se tornarem a leitura da vez. Fingidores, por exemplo, foi um furador de fila, como costumam ser os livros finíssimos (Bonsai, de Alejandro Zambra: outro exemplo clássico de furador). Ainda que 176 páginas não tornem um livro “finíssimo”, sua estrutura semelhante à dramática — somente diálogos, rubricas entre parênteses — fez com que ele se sentisse à vontade na categoria.

A capacidade de furar fila, no entanto, talvez não importasse caso não tivesse lido antes outras obras do autor anteriormente. Li um conto dele num dos volumes da série Ficção de Polpa antes de pegar seus dois livros de contos para ler, A virgem que não conhecia Picasso e Fora do lugar — ambos comentados em meu blog pessoal num texto com o intrigante título Dois livros de Rodrigo Rosp. Da experiência, ficou a constatação de que o autor se interessa por (1) brincar com a língua portuguesa — algo patente no extensivo uso de trocadilhos, por exemplo — e (2) escrever livros de entretenimento.

Contudo, a leitura dos livros anteriores do autor não é o melhor indicativo do que esperar de Fingidores. Sim, ambas as conclusões que tirei da leitura daqueles valem para este, porém a primeira narrativa longa de Rosp tem ligação maior com outro projeto seu: a coletânea 24 letras por segundo, da qual foi organizador. Nela, 17 escritores “interpretavam seus diretores favoritos”; a Rodrigo Rosp coube Woody Allen. Eu até gostei do conto, mas, talvez por ter Woody Allen em tão alta conta (o diretor, roteirista e escritor; não o possível pedófilo), ficou a sensação de que faltou algo à homenagem.

Qual não foi a minha surpresa ao ver que, em Fingidores, Rosp expandiria tal homenagem. Hipocondríaco, lascivo, neurótico, extremamente preocupado com a mediocridade alheia (tanto que não vê a própria), Caio — o protagonista — não poderia ser mais woodyallenesco, woodyalleniano, woodyallenense. O uso do gênero dramático na literatura não é incomum ao diretor: há pelo menos um conto de Allen — em Sem plumas, se não me engano — em que a narrativa se dá em forma de diálogos. O ar teatral, com algo de grego em alguns momentos, tampouco: a presença de um Oráculo no romance (roteiro? peça teatral?), lembrou-me, por exemplo, do coro que aparece pontualmente em Poderosa Afrodite.

Caio descobre que vai morrer quando a morte lhe faz uma visitinha. Ele tinha certeza de que a morte era certa garçonete, que mal percebeu quando aquela se aproximou, sorrateira. Tinha certeza também de que morreria daquela úlcera imaginária, quando recebeu a confirmação de que seria do coração, fulminante. “Mas onde eu estava com a cabeça quando quis economizar com cardiologista?” Ele quer que suas últimas palavras sejam especiais, apesar de só estarem presentes ele e a indesejada das gentes:

Às vezes, que quero falar sobre o silêncio, mas não há nada a ser dito (vê o olhar curioso do outro) Nada, nada. Só queria fazer uma última frase de efeito.

Logo depois, exige o telefonema a que tem direito. Espera um momento, ele não está preso: ele exige mesmo é que a vida passe em flashes. A morte lhe concede uns sete destes:

Tudo bem, eles podem ter início, meio e fim. Mas serão movimentos aleatórios da sua vida. É o máximo que consigo sem consultar meu gestor.

A partir de então temos um sucessão de momentos breves (cenas? contos?) da vida de Caio e o conhecemos melhor. Sabemos mais de seus amores e paixões, de sua forma de encarar a vida, seu niilismo, de suas mesquinharias, sua possível inveja de um escritor bem-sucedido. A cada nova cena, mais próximos de seu fim. Tudo isso naquela embalagem tragicômica em que não sabemos se nos compadecemos ou gargalhamos.

Porque, sim, é um livro divertido. Ri bastante, algo que não estou acostumado a fazer enquanto leio. Não por não gostar: Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple, e Nu, de botas, de Antonio Prata, dois entre os favoritos de 2013, estão aí para provar que gosto muito de uma boa risada. Só não parece fácil encontrar essas obras que me fazem rir, sem subestimar a inteligência dos leitores.

Não arrisco um veredicto sobre como o humor está ausente na literatura (muito menos na literatura contemporânea brasileira) porque tais universos são amplos demais para minha capacidade de leitura e isso só demonstraria imprudência e falta de preparo do crítico. Limito-me ao contentamento de ver entretenimento de qualidade nas livrarias.

Uma curiosidade acerca da fotografia citada no começo do texto: ao vermos a foto, não teríamos como saber que a audiência bem comportada e elegante não estava lá gostando muito do filme. À época, a revista Life informou que a plateia achou os óculos desconfortáveis e que houve um consenso de que os ocupantes das poltronas, fotografados, eram um espetáculo muito melhor do que o bobo filme exibido — “the film itself (…) was dull”.

52 anos depois, as fotografias de um público bem mais seleto também em um cinema, produzem um resultado diferente. Sim, por vezes os personagens preferem checar o celular a conferir o que está passando na telona (nas demais páginas? no decorrer dos capítulos?), mas isso não nos distrai da narrativa que acompanhamos — apenas a potencializa, nos preparando para o que veremos a seguir.

Sim, Rodrigo Rosp é divertido. Mas de bobo não tem nada.

Print Friendly

Rodrigo Rosp

Rodrigo_rosp_168

Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1975. É autor de A virgem que não conhecia Picasso (2007) e Fora do lugar (2009) e organizou a coletânea de contos 24 letras por segundo (2011), todos pela Não Editora, da qual é editor.

— Orteman, você não tem ideia do quanto me irrita saber que vou ter vivido menos do que tantos idiotas. — De quem você está falando? — Ah, de acordo com o ibope do último reality show, uns cinquenta milhões. Não me peça todos os nomes, que eu poderia esquecer uns dois ou três.

Rodrigo_Rosp_Fingidores_168

Rodrigo Rosp
Não Editora
176 págs.