Dom Casmurro

fevereiro 2014 / Dom Casmurro / Quero ser Cat Stevens

Texto publicado na edição #166

Quero ser Cat Stevens

Escrevo. Escrevo, porque preciso. Não é de pedirem. Não é de vender. Em geral não pedem e, quase sempre, vende […]

> Por CELSO GUTFREIND

Escrevo. Escrevo, porque preciso. Não é de pedirem. Não é de vender. Em geral não pedem e, quase sempre, vende pouco. É de dentro para fora. E, por ser de dentro para fora, não apela. Não pensa no outro, pensa no que preciso, e este egoísmo acaba sendo o altruísmo maior. Tão de dentro que sai. Tão meu que todo do outro.

O que escrevo pode vir do menino fazendo malabarismo em dia quente ou frio. Pode vir do tio doente. Pode vir do cão que gosta de sair e adora voltar. Pode ser do meu calor, do meu frio, do meu malabarismo e minha doença. E pode ser do nada, então é mais verdadeiro ainda, grau zero de apelo (nem de dentro). Luxo lúdico.

Nada, no entanto, que fuja da ambigüidade ou escape do paradoxo. Escrever é humano. Então quero vender e, depois de escrito, empresto a minha alma que não vendi escrevendo. Abano o rabo pro jornal, faço o livro com o editor e, sobretudo, saio em busca de vendê-lo.

Sei que o mais verdadeiro, sei que o mais de dentro continua não sendo vender. É ser lido. Mas se atrelam e não tenho preconceito, embora ainda venda pouco. Entre os sonhos, ser mais lido, vender mais. E, como sei sonhar, faço agora. Onde chamam vou. Na escola. Na escola pública. Na escola particular.

Na livraria. Na livraria do interior. Na livraria da cidade. Na cidade longínqua. Em Jequié, na Bahia, o trecho final da viagem foi de jegue. Em Vitória da Conquista, o avião desceu entre rojões. Um moleque os atirava de uma bicicletinha para que nenhum urubu entupisse a turbina do turboélice.

Em Jequié, no hotel não tinha espelho. Não faltou, eu escrevia.

Em Vitória da Conquista, me hospedei num convento. Sobrava fé.

E assim vou, de grão em grão, o papo pouco cheio, mas enchendo. De graveto em graveto para a futura chama (e já arde), de água em água e a pedra já esboça furar. Também por isso admiro um Salinger que, recolhido, continuava sendo lido e vendendo. Sem apelar nem vender a alma. De almas intactas, me orgulho de sermos irmãos.

E tem este Cat Stevens há trinta anos fora do showbizz sem mover uma palha para ser lido, digo, ouvido. E, apesar da retirada, um milhão e meio de discos vendidos a cada ano. Um milhão e meio. Apesar do tempo, das gerações, das culturas em movimento.

Com o que a literatura já me deu conquistei a sobrevivência da alma e comprei uns cinco chapéus, dois deles em Jequié. Eu os tiro todos para o Cat Stevens.

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