Ensaios e Resenhas

novembro 2012 / Ensaios e Resenhas / Quem inventou o amor?

Texto publicado na edição #152

Quem inventou o amor?

Diga toda a verdade — em modo oblíquo, de Carmen L. Oliveira, reúne 12 narrativas que, apesar de independentes, dialogam […]

> Por VILMA COSTA

Diga toda a verdade — em modo oblíquo, de Carmen L. Oliveira, reúne 12 narrativas que, apesar de independentes, dialogam entre si através de uma dicção poética própria a narradores comprometidos em libertar do silêncio vozes de um cotidiano que não reivindica, necessariamente, excepcionalidade, apenas visibilidade, registro e, por que não, legitimidade. São histórias cujo tema predominante é o amor no que ele tem de busca de afeto, de completude, de referência de sentidos para a vida, suas perdas, ganhos e danos. Em sua maioria, esses textos se desenvolvem a partir do ponto de vista de vozes femininas encantadas por outras mulheres, igualmente suscetíveis à sedução da troca através de encontros e desencontros, de aconchego e do desassossego das artes de amar e de viver.

A expressividade do amor pelo mesmo sexo, no plano da orientação sexual, costuma ser definida como homoerótica. O fato é que vozes femininas que ousam manifestar essa sensibilidade vêm sendo mantidas em territórios restritos, haja vista que a Literatura, como Instituição de poder, como tantas outras, há muito tem sido um espaço predominantemente masculino. Ninguém rotula ou conceitua uma coletânea de contos cujos amantes são homens e mulheres como textos de amor heterossexuais. São contos de amor e pronto. A diversidade das vozes que expressam a vivência, a sensibilidade e a problematização desse tema é de extrema relevância para compreensão tanto de cada texto quanto dos contextos de produção e leitura em que são construídos. Mas enquanto tema, trata das relações humanas afetivo-sexuais em seus infinitos matizes. Portanto, não há por que confundir as abordagens e os pontos de vistas com a temática dos textos em si.

A verdade do amor
O que essas narrativas nos oferecem de extraordinário é o fato de transitarem com simplicidade em um dizer erótico que aflora com a naturalidade das “papoilas-rubras/ nos trigais maduros”, como sugere a epígrafe de Florbela Espanca no primeiro conto da coletânea. Uma temporada na aldeia fala de um forte e inesquecível amor de uma menina por sua avó. Lembranças de uma relação feliz entre um saber maduro com um saber infantil, de olhar cada coisa com o fascínio da primeira vez. Não seria a poesia nossa de cada dia um modo oblíquo de dizer a verdade do amor incondicional?

Uma temporada na aldeia, como a vida da flor e a infância, fala também do efêmero, do tempo que passa e deixa suas marcas, lembranças pregadas na pele e nos novos sentidos que prometem ser construídos com a invenção do cotidiano pela vida afora. Depois de um temporal na aldeia, “e as papoulas, o que aconteceu a elas? A vida é assim filha…, uma hora alegria, na outra tristeza. Se aquelas papoulas não resistirem vão morrer e nascerão outras, tão belas quanto”.

Todos os contos são introduzidos por uma epígrafe que aponta para possibilidades de leituras. A vila dos mistérios, em primeira pessoa, foca na voz de uma menina que, junto a uma mãe trabalhadora, atarefada e um pouco ausente, observa uma vizinhança, inquieta. Ela tudo quer saber. Vai só acumulando por quês, sem pressa nas respostas que não chegam, e quando isso acontece, não se satisfaz.

O conto que dá título ao livro apresenta-se em forma de diário. Ambientado num espaço acadêmico, a personagem se apaixona simultaneamente por Emily Dickinson e por uma freira. Dia a dia, o encontro e as identificações vão se aprofundando para dar lugar a uma amorosa cumplicidade, até o momento da despedida. “Manda uma mensagem através de um livrinho. Isso correspondia talvez à sua obliquidade.”

Em 1840, último conto, apesar do tempo fixado cronologicamente no título e das referências históricas ao Conde de Monte Cristo, o tempo mítico de lendas, vitórias, derrotas e conquistas assume uma forte presença para falar da relação das duas personagens, das práticas de sobrevivência e harmonia com a natureza, e o papel do amor nessa aventura.

A maestrina e suas meninas conta o amor de uma menina por sua professora de piano. Todo o conto é desenvolvido sob o prisma da linguagem musical, desde a epígrafe (Música erudita brasileira) até ritmo e subtítulos: Andante ma no troppo, Adagio molto espressivo, Aleggro, etc. A grande alegria final foi saber-se amada, através de um cartão postal de Veneza: “Minha aluna preferida…”.

Cedilha fala do amor da protagonista por Elça, equivocadamente registrada. Era sua colega dos bancos escolares. Primeiro, o deslumbramento: “Eu queria ser uma ave aninhada nos fartos cabelos dela. Andar de mãos dadas. Eu queria retê-la, nem que fosse para ela disparar aqueles sorrisos enigmáticos que me aturdiam. Eu queria me declarar. Declarar o quê?”. Depois, o inevitável desencanto do amor não correspondido: “(…) percebi que Elça se afastava célere. Nem um tchauzinho. Álgida, com sua juba ruça com cedilha. Sofri muito. Ferida, maltratada, incompreendida”.

A história de Coração ingrato tem um final mais feliz. Dá-se entre uma moça linda, Aída, e um rapaz de presente e futuro promissores, em meio a confusões e desacertos familiares. “Os lábios diziam sim. Ela sorria para um mundo de borboletas, pirilampos, saíras e pégasos de nuvens. O mundo dele tinha cupins e escorpiões.” Ela em seus sonhares românticos, ele em seu pragmatismo de homem de negócios. Apesar das diferenças ou, talvez, por causa delas, alguma coisa a mais os ligava.

A narradora-personagem de Arribação depara-se com uma separação, pela qual é sumariamente excluída da vida da outra, “um poço de narcisismo”, segundo uma amiga que a acolhe. “É estranho quando você está acostumada com uma situação e de repente, não mais que de repente, ela some. Foi um direto no queixo.” É deveras estranho, mas previsível. Coloca-se sempre em posição de inferioridade numa relação amorosa de poder. Como ave em arribação, ao ser expulsa do ninho que, segundo a parceira, não lhe pertencia, sai em busca de outro ninho, logo em outra “laranjeira/ no meio do espinho”.

Cardiopatia é uma história de paixão de uma mulher mais velha por uma mais nova. “Por que fui me meter com essa doidinha? Tudo com ela é fluido, para ela tudo é divertido.” Sua paixão também é fluida, irracional, ambígua: “Ela desperta em mim os sentimentos mais desconfortáveis”, mas, apesar disso, os mais intensos e arrebatadores. A busca de uma epifania, nos moldes de Lispector, não se efetiva no encontro com a natureza. “No Jardim Botânico da cidade grande, todo mundo se encontra… Tanta paz. Oxigênio. Por que não encontro a paz interior?” Quem saberá? Talvez não encontre porque procure fora de si, deposite em outro a esperança de receber o que o outro não tem para dar. Ninguém pode dar o que não tem. Mas basta um cartão, uma declaração de um amor bem insatisfatório e precário, mas ainda assim amor, para ativar o coração em disparada. Deixa-se envolver, recorre ao poeta: afinal, quem inventou o amor não foi ela, “não fui eu, nem ninguém”.

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Carmen L. Oliveira

Carmen L. Oliveira. Foto: Divulgação.

Carioca, pós-graduada em literatura pela University of Notre Dame, escritora e tradutora. Conferencista no Brasil e exterior, escreveu artigos para O Globo, O Estado de São Paulo e Bravo!. É autora de Flores raras e banalíssimas e Trilhos e quintais.

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Carmen L. Oliveira
Rocco
176 págs.