Rodapé

novembro 2011 / Rodapé / Quem determina o que é a literatura brasileira contemporânea (1)

Texto publicado na edição #128

Quem determina o que é a literatura brasileira contemporânea (1)

O que é a literatura brasileira contemporânea? Quem determina o que é a literatura da atualidade? As editoras? A crítica […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

O que é a literatura brasileira contemporânea? Quem determina o que é a literatura da atualidade? As editoras? A crítica universitária? Os resenhistas? Os resenhistas de quais cadernos de cultura? Quando se trata de definição, quando se tem em mente classificação (mesmo quando é uma classificação provisória), há que se recorrer ao chamado discurso competente. E de quem é o discurso competente na hora de definir ou classificar o que é a literatura contemporânea? Quanto a isso, há pelo menos três instâncias que detêm o poder do discurso competente. A primeira é a instância editorial. Uma grande (ou mesmo média) editora, uma grife editorial, tendo normalmente poder de penetração no mercado, ao decidir publicar um livro, já elabora um produto que vem envolto num discurso propagandístico. Ao pagar um anúncio num jornal, revista ou site, ao produzir um release ou mesmo um certo tipo de texto de orelha, ou ainda ao mandar produzir banners para serem expostos à porta de grandes livrarias — uma grande editora, e com sua opção por publicar este ou aquele autor, por dar visibilidade à obra deste ou daquele, por divulgá-la, enfim, já fixa e determina fortemente o que é a literatura a ser consumida pelo público leitor, não raro influenciando, e de forma decisiva, as próprias posições e/ou recepções críticas. Uma grande editora tem um poder, sim, e às vezes considerável, de determinar o que é uma obra literária tida como de qualidade. A segunda instância é a da crítica jornalística. Os resenhistas, atrelados em grande medida à instância editorial, dando respostas críticas à obra que foi publicada pela grande ou média editora, têm, efetivamente, um poder de orientar o gosto dos leitores — e, notadamente, de fazê-los consumir a obra. Um resenhista não vale tanto por sua qualidade crítica como pelo poder de pôr em circulação, pelo poder de publicizar a obra e, por conseguinte, o autor. E se uma obra circula jornalisticamente mais que outra, se é mais apresentada ou mais visível aos olhos do público (e mesmo, em certos casos, aos olhos da crítica universitária), é mais fácil de ser absorvida ou tida como obra de ou pelo menos com certa referência. Uma obra resenhada pela “Ilustrada” da Folha de S.Paulo ou mesmo pelo “Prosa & Verso” de O Globo não se torna apenas mais visível, mas já pode — especialmente se, no caso da “Ilustrada”, o resenhista julgá-la como de conteúdo “Ótimo” ou “Bom” — entrar no rol das obras tidas como de qualidade. Portanto, obras supostamente já testadas e/ou legitimadas como compondo a literatura brasileira contemporânea. Mesmo que o resenhista, para o bem ou para mal, no seu julgamento, cometa um enorme e irreparável erro — como de fato ocorre.

Print Friendly