Palavra por palavra

agosto 2015 / Palavra por palavra / Quem cria segredos inventa planos

Texto publicado na edição #183

Quem cria segredos inventa planos

Escrever um romance não é só juntar palavras para contar uma boa história. É mais, muito mais, muito mais. Deve-se […]

> Por RAIMUNDO CARRERO

Stephen King

Stephen King

Escrever um romance não é só juntar palavras para contar uma boa história. É mais, muito mais, muito mais. Deve-se contar uma boa história, é claro, mas recorrer a técnicas e estratégias narrativas que seduzam o leitor. Com simplicidade e com sofisticação. É o que se aprende desde a Odisseia, de Homero, embora a técnica aí seja de epopeia e não de romance burguês, com suas manhas e artimanhas narrativas, cenas e cenários eficazes, diálogos inventivos e entrecruzados, montagem elaborada com cortes psicológicos e discursos metafóricos.

Tudo isso parece somente didática de Oficina Literária, mas não é bem assim. A elaboração técnica da ficção deve ser matéria de estudo e prática de todo escritor que se proponha a enfrentar o humano. Basta verificar agora o livro Sobre a escrita, de Stephen King. Sim, o mesmo Stephen King tão criticado e tão desprezado por certa crítica oficial pelo fato de vender milhões de exemplares, mais de 300 milhões de livros conforme a imprensa norte-americana. Sobre a escrita é um livro em que o autor mostra por que se tornou um escritor do rótulo horror, e oferece conselhos para os iniciantes. Tudo se explica porque a maioria dos escritores modernos dos EUA passou por uma cadeira de Redação Criativa, que nós costumamos chamar de Oficina Literária. As universidades norte-americanas costumam oferecer a cadeira de Redação com escritores consagrados ou professores reconhecidamente competentes nesta área — ou com obras, ou com a celebrada formação de escritores.

Stephen King começa justificando sua preferência pelo horror, narrando fatos fundamentais de sua infância e adolescência, que forjaram sua mente e, em consequência, influenciaram a escolha do tema. Ao mesmo tempo, porém, indica dois pontos para que o iniciante venha a se tornar um escritor: 1) Ler e escrever muito (tenho para mim que este é ponto decisivo); e 2) A primeira grande oficina literária é a leitura sistemática. Em síntese: ler, ler e ler; escrever, escrever e escrever.

O autor norte-americano apresenta uma relação dos livros e dos escritores que devem ser lidos. Divide a lista em três blocos, que seriam Essenciais, Médios e Menores. Uma relação de livros sempre funciona muito bem, e, no caso de King são centenas, misturando bons, competentes e medíocres. De minha parte, sou mais exigente: “só leia os essenciais, fundamentais e definitivos”, que são muitos e muitos. Não perca tempo com qualquer um. Nós já perdemos tempo com leviandade demais. E nunca leia com os olhos — leia sempre com a mente e, se possível, de olhos fechados.

Escreva sempre, todos os dias e na mesma hora, para ter uma mente treinada. Assim como não se deve ler qualquer um, também não se deve escrever de qualquer jeito. Use todo o tempo que tiver para fazer anotações — nomes de personagens, cenas, cenários — e só depois trabalhe o texto, certo de que terá de fazer várias versões.

Em Sobre a escrita, King manda que os medíocres sejam lidos para aprender o que não se deve escrever. E cita o caso do romancista medíocre Murray Leinster, que num dos seus livros repete a palavra “arrebatador” várias vezes, concluindo: “até onde sei, nunca usei a palavra ‘arrebatador’ em qualquer história ou romance. E, se Deus quiser, nunca vou usar”.

Quanto à escrita, diz que se deve escrever em lugares especiais, ventilados e iluminados. É o que digo, mostrando que o corpo e a mente devem se acostumar com a escrita, deixando-se conduzir já de forma espontânea. Alerta, ainda, que mesmo escrevendo muito e muito o aprendiz deve parar quando o ato de escrever se transforma em trabalho. Ou seja, se transforma em obrigação sem alegria. Ele escreve quase sempre pelas manhãs, com um número determinado de palavras — e os norte-americanos sempre escrevem contando palavras, como testemunha Irving Wallace no livro sobre o processo criativo O prêmio, outro livro de incrível vendagem.

Mas quais seriam as condições objetivas para escrever? King responde:

Se possível, não tenha telefone em sua sala. Não coloque televisão ou vídeo que possa distraí-lo. Se tiver janela, feche as cortinas ou baixe as persianas, desde que elas não deem para uma parede nua. Para qualquer escritor e, em particular, para o iniciante, é aconselhável eliminar todas as distrações possíveis. Quando entrar em seu espaço de escrita e fechar a porta, você já deve ter estabelecida uma meta diária de trabalho.

Adiante, King lembra que é impossível se tornar escritor sem o domínio da gramática e sem o domínio de um bom vocabulário. São estas, aliás, as condições essenciais para se tornar escritor, embora nem sempre observadas pelos iniciantes. Lembra, por isso mesmo, que conheceu muitos escritores jovens que não liam nunca, ou, se liam apenas passavam os olhos nos livros. De minha parte, já encontrei muitos autores que diziam não ler para não sofrer influências.

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Stephen_King_Sobre_escrita_183

Stephen King
Trad.: Michel Teixeira
Suma de Letras
255 págs.