Sujeito oculto

agosto 2011 / Sujeito oculto / Quatro irmãos

Texto publicado na edição #136

Quatro irmãos

Encontrei-os todos na cozinha. Entrara sem bater para uma visita surpresa à mãe. O susto mútuo nos aproximou num desajeitado […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

Encontrei-os todos na cozinha. Entrara sem bater para uma visita surpresa à mãe. O susto mútuo nos aproximou num desajeitado cumprimento. Um deles adiantou-se aos demais, estendeu-me a mão e disse o nome. Tentava, de alguma maneira, preservar-me de um eventual constrangimento, da traição possível da memória. Ou, quem sabe, não gostaria que eu o tivesse apagado das lembranças. Há quantos anos não nos víamos? Mais de uma década nos separava. Eles lá no meio do mato, na roça; eu aqui às bordas do abismo. Cumprimentei-os com um demorado aperto de mãos e um leve toque nas costas de cada um. Sob a barba espessa, quase intransponível, todos escondiam um rosto lanhado pelo tempo. Ligeiro, o silêncio voluteou pela casa e nos deixou — cinco homens magros e altos — paralisados num tempo que parecia nos pertencer.

Viajaram mais de seiscentos quilômetros para uma visita necessária à irmã — minha mãe. Meus tios se parecem muito comigo: são altos, magros e têm uma dificuldade oceânica de transportar as idéias até a ponta da língua e transformá-las em um som qualquer. Preferimos o silêncio ao ruído. Carregamos todos a herança da timidez da boca. Na infância, fazíamos a viagem de retorno à terra de nossos ancestrais. Deixávamos a cidade grande e embrenhávamo-nos pelas pirambeiras de plantações de milho, feijão, arroz, soja, uva. O rio barulhento a cortar o sítio dos avôs maternos. Lá, os tios nos esperavam com a mesma excitação que nos arrastava rumo àquele mundo arcaico e deslocado. Aqueles mesmos homens que agora dividem o incômodo silêncio na cozinha da minha mãe. Lá estavam à nossa espera. Passaríamos as férias escolares naqueles rincões. Debaixo dos parreirais, onde enchíamos bacias com uvas quase indecentes de tão doces. Andávamos a cavalo. Colhíamos piaçava para as vassouras da avó. Esperávamos com ansiedade a morte do porco para ajudar a destrinchá-lo no terreiro fumegante. A caneca de água quente a arrancar os pêlos do animal inerte sobre a mesa improvisada, os cascos jogados ao fogo para amolecer, o cheiro do torresmo a nos causar certo engulho, a força exagerada que empregávamos à máquina de moer carne para as lingüiças, que secariam no varal sobre o fogão à lenha.

Penso nisso enquanto divido o silêncio com os quatro irmãos — meus tios. Poderia dizer-lhes que gostava muito daquele tempo. É o tempo que nos pertence, que grudou em mim. Um deles, percebo, olha-me com extremo carinho. Talvez se recorde que éramos os melhores amigos daquelas férias. Ele sempre a me conduzir pelas plantações, a ensinar-me como guiar os bois e a sulcar a terra com o arado. Ao fim do trabalho, corríamos ao campo de futebol, para em seguida mergulhar no rio. Do banho à janta ao pé do fogão à lenha, com o liquinho e sua desprezível capacidade de nos iluminar. Quando lhe pergunto a idade — ele terá sempre a idade que aprisionei na infância —, faço rapidamente a conta diante da resposta: doze anos nos separam. Ele já tem cinqüenta. A barba inescrutável, tingida por vários fios brancos, e o ar cansado do corpo intensificam este meio século de vida. Então, penso, naquelas férias ele era apenas um rapazola, pouco mais que um adolescente. Mas parecia um homem feito, muito mais velho que eu. Acho que os anos passaram em dobro para ele. Agora, tanto faz: ele tem filhos; eu também. Somos dois homens altos, magros e silenciosos.

Ficamos todos ali na cozinha tecendo frases pequenas, de pouca curiosidade, inexpressivas. Não ousamos ultrapassar os limites do trivial. Talvez não queiramos destruir o passado. Talvez nos agarremos a ele numa tentativa de embaçar a imensa distância que nos separa. Não sei nada sobre eles, sobre suas famílias, mulheres, filhos. Não sabemos nada sobre nós. Então, cortamos o silêncio em pedaços gigantescos e dividimos entre todos. Após cerca de meia hora, despedimo-nos. Eles regressariam ao interior, a suas casas, a sua terra, à lavoura. Eu ficaria por aqui.

No portão de casa, o mesmo que se apresentara estendendo a mão e dizendo o nome convidou-me a visitá-los. “Junte a família e apareça lá em casa.” A minha resposta saiu estrangulada: “Vou sim, tio. Qualquer dia, apareço”. A frase prosaica, desprovida de verdade, ficou ali entre nós, até que os quatro irmãos entraram no carro. E foram embora.

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