Quase-diário

janeiro 2012 / Quase-diário / Quase-diário

Texto publicado na edição #115

Quase-diário

23.05.1992 Ontem vasculhando o arquivo do antigo INL (Instituto Nacional do Livro) no Anexo da Biblioteca Nacional, descobri uma pasta […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

23.05.1992
Ontem vasculhando o arquivo do antigo INL (Instituto Nacional do Livro) no Anexo da Biblioteca Nacional, descobri uma pasta “Clarice Gurgel Valente”, anos 60, creio, 1966: ela aparece como funcionária, arquivista, recebendo um pagamento/salário de 300 por mês, etc. Vou verificar. Tem a assinatura dela no recibo. Me lembro que quando ela morreu, fiquei sabendo que recebia também um salário do governo do Estado do Rio, algo que o Otto [Lara Resende] arrumou para ela.

22.09.1987
Ernesto Cardenal recebido na casa de Chico Buarque com um grupo de 20 intelectuais e artistas. Conversei com ele (atraindo Gullar para a conversa) sobre essa infeliz declaração que ele deu no Brasil de que Pound era o maior poeta do século. Ele não conseguiu se explicar. E além do mais, essa declaração não se coaduna com sua poesia. Ele estava meio “interessado” em Marina [Colasanti], que comentou: “esse padre gosta de mulher”.

27.11.1987
Há alguma coisa em Octávio Paz a respeito da vaidade, que transparece. Seja naquelas conversas no Rio, seja aqui neste colóquio duplo, em Acapulco e na Cidade do México, quando se elogia alguém, sente-se que ele se incomoda. No Brasil quando lhe falei de Alfonso Reyes, senti que desconversou. Aqui alguém lhe perguntou sobre um novo crítico ou uma geração determinada, e disse: “são uns jovens que sabem muito bem um pedaço de poema do século 18 e sobre isto fazem uma análise exaustiva”…

05.01.1988
Estou voltando do enterro do Henfil. Calor. Muito. Na chegada, Betinho, magríssimo, recebendo cumprimentos. Saúdo-o discretamente, caminhamos alguns metros, eu segurando seu braço. Veio gente de São Paulo: Eduardo e Marta Suplicy (ela com a cara molhadíssima de água), Lula (que Carlito Maia tenta me apresentar). Passa Flávio Rangel, que está com câncer, e Ziraldo comenta que Flávio lhe disse que “já pagou tudo, todas as dívidas, que está pronto”. Otto Lara conversando aqui e ali. Não se lembrava que, comigo, havia entrevistado Henfil para o Museu da Imagem e do Som. Passa várias vezes Chico Mário, irmão de Henfil, em cadeira de rodas, magríssimo. Lembro-me de quando ele veio aqui em casa com o Betinho para que eu fizesse a letra da “Suíte Brasil”. Parece que saiu do hospital só para o enterro do irmão. Gente do PT distribuiu um jornal Viva Henfil. Esta é a exclamação que fazem na hora do enterro. E todos aplaudimos. Muito calor. Saio com Otto. Venho para casa. Alguma coisa de trágico está ocorrendo com minha geração. Estamos morrendo demais. E antes da hora. Ou será que estamos velhos e não sabemos?

22.01.1988
Fui com Marina e a filha Fabiana doar sangue na “Pirâmide de sangue”, campanha a favor dos hemofílicos. Marina não podia doar: já teve hepatite. Fabiana: tatuagem (é grupo de risco). Lá, artistas presentes. Lucélia Santos não pode doar: tem menos de 1,50m. Gabeira estava com pressão baixa. Não vi nenhum conhecido doando sangue. Agitando, muitos. Lá o Betinho, alegre-irônico, como sempre. Mesmo depois da morte do Henfil.

02.10.1984
Conferência em Campina Grande há 15 dias (encontro promovido por Elizabeth Marinheiro) para quase mil pessoas, sobre “O canibalismo amoroso”. Ao fim, o auditório entrou numa grande catarsis. Mulheres declamavam poemas eróticos. E uma gritou lá do auditório: “Agora que você despertou o nosso desejo, o que que eu faço com ele?”.

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