Quase-diário

julho 2016 / Quase-diário / Quando Collor caiu

Texto publicado na edição #194

Quando Collor caiu

O país aliviado, Itamar Franco assumiu poucas horas depois

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

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Caiu definitivamente Collor. Dia 18, o Senado votou pelo impeachment e sua inelegibilidade por oito anos ( Por que oito?). O país aliviado, Itamar Franco assumiu poucas horas depois. Ninguém entendeu as burradas que ele fez na Presidência. Um enigma tão absurdo quanto o assassinato da atriz Daniella Perez por seu colega Guilherme de Pádua e a mulher Paula Thomaz. O país traumatizado.

Vou fazer uma crônica.

21.05.1993
Assumiu Fernando Henrique Cardoso a pasta da Fazenda no governo Itamar. Continuou todo o dia um boato de que eu iria para o Ministério da Cultura. Não me interessa mais. Não há como ser ministro neste governo. Prefiro terminar meu trabalho na Fundação Biblioteca Nacional (FBN).

Dizem que Celina Moreira Franco pode ser da Cultura.

25.06.1993
Revelou-se que Antonio Houaiss não conseguiu impedir que o orçamento da Cultura caísse de 0,4% para 0,3%. Ele está internado no Hospital Silvestre: úlcera, gastrite, hemorragia. Numa entrevista à TVE estava muito nervoso.

Boatos de que Rachel de Queiroz vai para o lugar de Houaiss.

04.08.1993
José Aparecido telefona para Marina desculpando-se, dizendo que Paulo Sergio Pinheiro ia ser o novo ministro. Explica que eu não fui indicado porque era “das margens do Paraibuna”. Marina lhe diz: “Mas acho que ele não está interessado no Ministério”. Neste dia, no entanto, saiu no Zózimo notícia de que o candidato do Zé era o Gullar. Repórteres perguntam a Marina. Ela responde que o candidato é Paulo Sergio Pinheiro. O próprio Zózimo dá outra nota: “Papável: Pipocou ontem a relação dos papáveis para os ministérios vagos. O nome do poeta Affonso Romano de Sant’Anna: ministro da Cultura. É o candidato de preferência do ex-ministro Antonio Houaiss e do líder Roberto Freire”.

Pois daí a pouco anunciam o nome do embaixador na Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), Jeronimo Moscardo. O governo alegou que Paulo Sergio não foi aceito pelo Congresso. Ele teria dito que o Congresso era um monte de corruptos, etc. Itamar voltou atrás.

Uma zorra total.

Ainda bem que escapei.

03.11.1993
Jantar na casa de Roberto Marinho em homenagem a David Rockfeller com a presença de umas 100 pessoas. Na mesa de Lily de Carvalho, onde me puseram, converso com Luiz Fernando Levy, da Gazeta Mercantil. Tento lhe passar a ideia de que seu jornal poderia incorporar o Brazilian Book Review da FBN.

João Donato da CNI conta: já que Brizola acha que a Globo está inventando a violência no Rio e descobrindo crimes, poderia dispensar a polícia e apenas seguir os carros da Globo.

Alguns empresários começam a admitir que Lula é um candidato aceitável. Empresários acham que Antonio Carlos Magalhães é outra opção. Este, aliás, foi gentilíssimo com a FBN: aceitou que se realizasse, às suas custas (do governo da Bahia), o Encontro Nacional de Bibliotecas em Salvador, me telefonou dando parabéns pelo texto sobre o Pelourinho que saiu num livro que fez.

Roberto Marinho me chama para conversar no jardim de sua casa e conta que aqueles flamingos foram presentes de Fidel Castro. Tem mais de trinta ali. Parecem um bando de flores ambulantes. Suas asas foram cortadas para não voarem. Diz Marinho que em Angra tem uma porção deles.

Roberto Marinho, que agora está na Academia Brasileira de Letras, me diz: “Você que é um homem de ideias, tem que me sugerir coisas, porque quero fazer algo pela Academia”. Embora não tenha o menor projeto de ser acadêmico, falo sobre a urgência de informatização da instituição e que a ABL deveria se transformar num centro cultural importante.

09.10.1993
Cai Jeronimo Moscardo, ministro da Cultura. Crítico de FHC, numa reunião de ministério, atacou seu plano econômico anunciado há três dias. Colocou a cultura no centro do debate. A cultura pode modificar o Brasil[1].

Recomeçou a agitação em torno do meu nome. Cilon vem de Brasília, diz que no Ministério só falam e esperam isso. Ana Regina me chama a um canto no coquetel de lançamento dos desenhos/livros de Albert Eckhout[2] para dizer que os dirigentes (leia-se Gullar, Miranda, etc. da área da cultura) querem apresentar meu nome antes que comecem a convidar estranhos no ninho.

Penso. Não me interessa. Ainda que, imaginariamente, me envaideça.

30.12.1993
Hoje tive uma conversa com Luis Roberto Nascimento Silva, nomeado ministro da Cultura. Foi lá no antigo prédio do MEC. Conheci-o há alguns anos na casa de Julinha/José Serrado, em Angra.

[1] Em 2014, ele publicou na Folha de S. Paulo um artigo retomando a proposta de 6% do orçamento para a Cultura. Convidou-me para pronunciar palestras a embaixadores africanos e latino-americanos pela Fundação.

[2] Vi na Dinamarca os formidáveis quadros de Eckhout sobre índios brasileiros.

 

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