Rodapé

fevereiro 2013 / Rodapé / Qual o melhor, o livro ou o filme Benjamim?

Texto publicado na edição #98

Qual o melhor, o livro ou o filme Benjamim?

Como responder à pergunta (e ela vem sempre, do senso comum ou não) que envolve o problema do valor da […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

Como responder à pergunta (e ela vem sempre, do senso comum ou não) que envolve o problema do valor da obra transposta para o cinema? Como responder à questão: o que é melhor, o livro ou o filme que adapta o livro? Claro está, pela proposta do teórico Brian McFarlane, que a explicação ao senso comum deve considerar que se tratam de dois sistemas semióticos distintos, e que portanto os objetos (o livro, por um lado; o filme, por outro) devem ser valorizados independentemente um do outro. Brian, ao que tudo indica, não está muito interessado no problema do valor como não está interessado na questão da “fidelidade” da obra fílmica em relação à obra literária. Mas, e se persistir a pergunta: qual o melhor dos dois, o livro ou o filme? O que dizer no caso de Benjamim? Suponhamos que a resposta seja: o livro é melhor? Indago: que critério para avaliar isso?

A dissertação de mestrado Em cartaz, Chico Buarque: a adaptação do romance Benjamim para o cinema, de Mariana Mendes Arruda, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais em outubro de 2007, não enfrenta esse problema, mas, por fazer uma descrição pertinente, rica, das duas obras, apoiando-se em teorias sólidas, termina nos dando condições para responder, pelo menos em parte, à pergunta. Na hipótese de uma comparação entre as duas obras para se aferir o valor das mesmas, e pelo que ficou exposto na pesquisa de Mariana, podemos chegar a certas conclusões, sendo que a mais evidente talvez seja a seguinte: houve por parte de Monique Gardenberg, a cineasta, o aproveitamento de um roteiro mais comunicativo, que, portanto, permite ou facilita uma maior recepção do público. A cineasta cede às pressões do mercado (é a questão, citada pela mestranda, da “vulgarização” da obra literária feita pela obra cinematográfica, conforme a teoria de Gerard Genette), aproveitando esse roteiro mais comunicativo, com maiores facilidades? Parece que sim.

Comparemos alguns aspectos das duas obras: 1) o livro, como indica a mestranda, é construído em cima de “nebulosidades” do discurso do narrador; o filme é feito em cima de “certezas”, de claridades; 2) o Benjamim cinematográfico, visto de cara como um indivíduo decadente, com “o olhar pesaroso do envelhecimento”, é um tipo menos denso do que o protagonista do romance — e sabemos que, em narrativa moderna (literatura, cinema, etc.), há diferença entre um personagem que é tipo (ou seja, de atributos mais fáceis de serem reconhecidos pelo receptor) e outro que é denso; há diferença de fatura, de valor mesmo; o Benjamim de Gardenberg desliza mais para um tipo, para uma quase caricatura; o Benjamim de Chico é mais complexo. Aqui, portanto, se fôssemos aferir, a arte de Chico seria melhor avaliada do ponto de vista crítico; estaria mais afinada com os valores artísticos da modernidade, com o que se espera da construção do personagem moderno; 3) no livro há uma dúvida — e é algo narrado com a complexidade própria do narrador buarqueano — se Benjamim foi o responsável pela morte de Castana; no filme, como a própria mestranda descreve, “não há dúvida”, fica claro que foi ele. É mais uma das facilidades da diretora para tornar o roteiro comunicativo, para que não exija muito da mente do espectador; 4) quanto à personagem Ariela Masé — no romance o leitor fica em dúvida se ela é filha de Castana Beatriz (a dúvida, afinal, é do próprio Benjamim); no filme, há certeza, tanto que uma mesma atriz (Cléo Pires) representa as duas personagens — Castana e Ariela; mas a dúvida, no caso do romance, é um fator fundamental da construção do personagem de Benjamim — faz parte de seus devaneios, incertezas e, sobretudo, de sua busca de uma identidade própria, de uma imagem de si. A cineasta, como bem informa a mestranda, constrói uma Ariela “vingativa”, “cruel”, que “mata seus amantes”, distinta da “sonhadora e ingênua” personagem de Chico. Isto que faz a cineasta altera muita coisa, pois transforma a personagem de trabalhadora suburbana em criminosa (talvez como forma de representar, mas de modo apelativo e, por que não dizer?, pouco criativo, a questão da violência na sociedade contemporânea); 5) conforme afirma a mestranda, “a cineasta coloca em segundo plano o personagem-título do romance [Benjamim] e passa o protagonismo da história a Ariela”; e mais: um “romance político”, que evoca situações importantes de nossa história recente, envolvendo a ditadura militar, é transformado num filme “mais distante dos cenários políticos” e que tem “um cunho sensual, amoroso”, uma vez que sua narrativa se centraliza “nos relacionamentos amorosos do protagonista [Benjamim] com Castana e Ariela”. Essa “inversão ideológica” não deixa de parecer grave, comprometedora.

Enfim, a cineasta, como constata Mariana Mendes em sua pesquisa, acrescenta “catálises, índices e informantes que alteram a significação dos núcleos narrativos”. Bom, Mariana é muito elegante em seu texto. Evita julgar o valor das obras de Chico Buarque e de Monique Gardenberg. Sua maior preocupação é “pensar a […] adaptação cinematográfica a partir dos ganhos extratextuais que ela nos proporciona e encontrar na obra de Gardenberg aquilo que o romance não apresentou”. Mas, e se, ao invés de “ganhos”, houve “perdas”? Eu diria, para finalizar, e enfrentando a questão do valor: as alterações, os acréscimos de Monique Gardenberg foram um pouco para pior. Num confronto entre os dois artistas, entre o escritor e a cineasta, a arte de Chico Buarque parece-me — por tudo o que frisei acima — de qualidade superior.

Print Friendly