Dom Casmurro

abril 2019 / Dom Casmurro / Prisca Agustoni

Texto publicado na edição #228

Prisca Agustoni

Poema inédito de Prisca Agustoni

> Por PRISCA AGUSTONI

Prisca Agustoni, autora de Casa dos ossos

Prisca Agustoni, autora de Casa dos ossos

Lampedusa

há línguas vazias, línguas maltratadas, as muitas línguas que florescem na boca como urtigas queimando o ouvido nesse exuberante jardim suspenso, uma torre de Babel como um inferno flutuante. Temos raízes fincadas no esterno, guelras brilhantes encobrem nossos corpos, e palavras como pencas de ideias e alicates cortantes. Mas somos reféns de uma língua estranha, língua-êmbolo, língua-tremor, que esmorece o antídoto contra a morte e nos amontoa
dentro
todos mutilados de alguma língua materna

*

habitar uma língua como se habita uma casa
um casaco velho
um porão escuro

habitar um nome como uma relíquia
um quarto anônimo de hotel
um brinquedo quebrado

habitar uma viagem como se habita uma cidade
que cresce por dentro
e cava como um cão na terra

habitar o animal que somos, que sobrevive
em nós, apesar da fome, apesar da noite
à espera da mão que acaricia

habitar o transitório, o indefinido
e ainda assim habitar o que nos move
ser árvore, enraizar, ser rubra flor no meio do mar

habitar a morte que cavalga a onda
o horizonte como falésia distante,
o barco que é país de chegada

logo habitar o grito, a vertigem, a mão que segura
outra mão, o destino, o porto
bem perto, a dois passos de distância

*

enquanto a memória
é uma pá que remexe na terra
entre as ruínas da infância
enquanto ela lenta cava
e desenterra o pai, o avô, o irmão
o tio que veio da cidade vermelha
e descobre a vila subterrânea
com os afrescos o pomar
intactos
aquele raio de sol
a pico sobre a praça,
os cedros imensos
resistentes
com as crianças brincando na rua,

é uma foice o rumor
dos anos ruindo no sangue,

e a ardência dos olhos
e as cinzas espalhadas
nas esquinas, nas calçadas,
nas ruínas do humano,

onde antes só havia grama.

*

Habitarei a língua que queres
o incêndio que sou
nessa margem árida
só haverá cinzas
entre minhas consoantes
e um espelho quebrado
no lugar do peito;

habitarei a língua que desconheço,
serei essa casa abandonada
que aguarda, como sementes
caídas no chão, o retorno da chuva
e das mulheres

para fazer da partilha
partida e chegada, e falar
outra vez com nomes novos
da camada de calcário
descendo
como tempestade de verão
na mata, entre as vogais
do meu mundo antigo.

Print Friendly