Quase-diário

setembro 2012 / Quase-diário / Pound, Clarice e outros

Texto publicado na edição #149

Pound, Clarice e outros

17.07.1987 Octavio Paz publicou meu ensaio sobre Ezra Pound na revista Vuelta. Ele também tem restrições ao poeta americano. Faço […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

17.07.1987
Octavio Paz publicou meu ensaio sobre Ezra Pound na revista Vuelta. Ele também tem restrições ao poeta americano. Faço uma leitura objetiva de Os cantos. Pound leu erroneamente a questão do ideograma chinês, valorizou o visual, esqueceu o fonético. Seu editor reconhece que há mais de 500 incorreções no texto. “A diabólica máquina de escrever”, expressão de Pound, teve muito a ver com os desacertos formais e gramaticais. Segundo esse editor, que conviveu com o poeta por mais de 4o anos, Pound era impaciente e não conseguia escrever na velocidade de seu pensamento, saltava espaços na página, “resultando em espacejamentos erráticos, uma dança das margens, cortes e marcas usados como pontuação, abreviações constantes e letras maiúsculas repetidas como ênfase. Ele agredia a máquina. Tinha que ter duas porque uma estava geralmente no conserto”. Pound reconhecia que Os cantos eram uma tentativa fracassada.

Nota em 2012: Ver o livro Que fazer de Ezra Pound (Imago, 2003).

22.09.1987
Releio Clarice: A paixão segundo G. H. É genial demais. Alguns capítulos — como a visão das cenas milenares (da janela) — são demais. É a escritora mais genial que tivemos. Só igual: Guimarães Rosa. Mais louca, contudo.

Me enche de alegria. É como ouvir a melhor música. Soa, toca, tange, emociona pra caralho! É toda poesia. Como essa outra ficção referencial que anda por aí é tímida, é um nada ao lado dela. É gênio mesmo, minha amiguinha, tão desvalida. Se estivesse ainda viva, telefonava-lhe agora. Mandava-lhe flores. Escrever é isto. O resto é literatura.

Depois disto, o que fazer?

21.10.1987
Fazendo ensaio sobre Clarice para a edição francesa de G. H., a sair pela Coleção Archives da Unesco. O tópico da “epifania” é fundamental para entendê-la. Idem a questão do ritual e/ou do rito de iniciação. Que sofrimento delicioso é este em que me meti! Entrar na pele do outro. No caso, descobrir uma solução formal para este ensaio: como escrever um ensaio que comece por retomar o próprio discurso dela num simulacro crítico? Encontro a chave no conto sobre “a barata”, mas que tem vários títulos, possibilidades. Assim a crítica ensaística retoma a aventura de Sherazade. Lembro-me de meus mergulhos em Drummond e outros. O crítico-analista vive em metamorfose, vive muitas vidas/autores. Como um romancista, um ator dramático. Um poeta?

15.07.1988
“Nobre simplicidade e serena majestade” — isto procuro, virtudes que Winckelmann e Gluck viam na Antigüidade.

06.10.1988
Décio de Almeida Prado convidado para vir dar um curso sobre o teatro romântico na PUC-RJ. Primeiro, trouxe o Antonio Candido, também o Sábato Magaldi. É preciso irrigar o diálogo interuniversitário, evitar a incestuosidade teórica. Décio é uma pessoa segura. Um mestre. Apresentando-o aos alunos, disse-lhes: “O Antonio Candido é o Décio de Almeida Prado na literatura”.

Aqui, jantando com Walmor Chagas, Yan Michalski e Bárbara Heliodora, contou coisas. Aliás, no dia anterior também, quando jantávamos a sós com ele: que Oswald de Andrade e Tarsila “consentiram” que Pagu, amante-menina de Oswald de Andrade, se casasse com outro. Arranjaram o casamento. Mas depois da cerimônia, Oswald pegou o carro, foi a Santos e seqüestrou-a, acabando assim o casamento com Tarsila.

Boa estória que Bárbara Heliodora contou do Décio. Os dois em Caracas (Venezuela) num encontro de teatro, recebidos por uma “bichinha chamada Romeu”. “É a primeira vez que vejo Romeu e Julieta numa pessoa só”, disse Décio.

Print Friendly