Dom Casmurro

janeiro 2013 / Dom Casmurro / Pouca munição, muitos inimigos

Texto publicado na edição #100

Pouca munição, muitos inimigos

Conto de Marçal Aquino

> Por MARÇAL AQUINO

Para Mafra Carbonieri

Ilustrações: Ramon Muniz

Ilustrações: Ramon Muniz

1
Alguém aciona a descarga no andar de cima. Silêncio se mexe na cama, inquieto. Faz calor no quarto pequeno e abafado. Ouvimos a água escorrer encanamento abaixo.

O que quer que tenha incomodado o cidadão, digo, acaba de ser expelido.

Olho para o rosto de Silêncio em busca de sua reação. Ele sorri sem mostrar os dentes, sem ânimo. Então se levanta e vai para o banheiro.

Hoje é quarta-feira e eu daria um braço por um café de máquina. Um doce de padaria. Comida feita na hora. Hoje é quarta-feira, nono dia do nosso desterro, e o cheiro do quarto se degrada de um jeito preocupante. Suor, chulé e outras emissões menos nobres. Às vezes falta água e aí o banheiro se torna território interditado. A comida não ajuda, nossos intestinos protestam todos os dias. Por enquanto, nada a fazer. Vamos continuar engolindo a gororoba vil servida pelo hotel a preço de caviar. Todo movimento desnecessário deve ser evitado. É o que diz o manual de sobrevivência.

Hoje é quarta, umas três e meia da tarde. Daqui a pouco a TV tem futebol e eu pelo menos duas horas sem aturar o mutismo de meu companheiro de exílio.

Silêncio é um preto alto, enxuto, absurdamente calado, daí o apelido. Chama-se, na verdade, Rodrigo, mas a maioria das pessoas com quem se relaciona desconhece isso. Eu sei disso e de outras coisas. Sei, por exemplo, que Silêncio nasceu em São Gabriel da Cachoeira, no extremo amazônico, quase terra colombiana, e que todo mês manda uma graninha para a mãe, que ainda vive por lá. Também sei que, logo depois de dar baixa no Exército, Silêncio morou por um tempo com um travesti. Deve ter ótimas histórias pra contar, se gostasse de falar. Só posso imaginar essas histórias.

Penso na grande ironia: Ambrosinho adorava Silêncio. Gostou dele desde o dia em que apresentei os dois. Difícil entender: Ambrosinho gostava de pouca gente. Nisso saiu ao pai: o velho Ambrosio até se gabava de não gostar de ninguém, nem mesmo do próprio filho — o quê, como acabamos descobrindo, não era bem assim.

Silêncio volta do banheiro, traz com ele o cheiro do cigarro. Combinamos que ele não fumaria no quarto, mas o acordo resulta meio inútil por causa da ventilação deficiente do banheiro. O quarto dá para a lateral de um prédio, não temos vista. Melhor: assim, a gente só precisa se preocupar com a porta de entrada.

Mantenho o celular desligado a maior parte do tempo, por medo de ser rastreado. Com a tecnologia de hoje, convém não facilitar. São capazes de qualquer negócio. Não bloquearam meus cartões de crédito e minha conta no banco? Não dá para brincar com essa gente. Ligo o telefone apenas para ouvir os recados que se acumulam na caixa-postal. Ameaças de todo tipo, promessas detalhadas de suplícios. Já nem me intimidam mais. Tenho mil e cem defeitos, porém bobo não sou. Sei avaliar a gravidade da situação, sei direitinho o buraco em que eu e Silêncio estamos enfiados. Sei de tudo. Só não sei ainda como vamos sair.

Ilustração: Ramon Muniz

2
Dizer que Ambrosinho estava bêbado é um exagero. Ele tinha tomado duas caipirinhas durante o almoço, fora o chope, mas um cavalão daquele tamanho resistia bem ao álcool. Pode-se até dizer que estava um pouco alterado, mas a verdade é que Ambrosinho já nasceu alterado.

Saí com ele do restaurante; Silêncio se adiantou para buscar o carro — Ambrosinho tinha ciúme da Mercedes, nunca gostou de deixá-la na mão de manobristas, só confiava em Silêncio. O que é a fatalidade: se tivéssemos demorado um minuto a mais para sair, nada teria acontecido.

A mulata e o menino atravessaram a rua bem nessa hora e passaram em frente ao restaurante. Era uma mulher bonita, jovem ainda. O menino também era muito bonito, devia ter uns nove, dez anos. Usava uniforme escolar e olhou para nós com uma espécie de altivez.

Ambrosinho estava lembrando de uma noitada na Zona Norte e parou de falar no segundo em que viu a mulata. Cismou com ela, disse que a conhecia de uma boate. A mulher não deu bola para essa conversa e tentou se esquivar. Ambrosinho a segurou pelo braço. E aí o menino se invocou com aquilo.

No começo, eu e o manobrista achamos a cena engraçada. O moleque encarou Ambrosinho e mandou que ele largasse do braço de sua mãe. Ambrosinho se interessou pelo menino — que avançou e desferiu um chute na canela dele. Coisa inofensiva, deve ter doído mais o pé agressor que a canela atingida.

Eu e o manobrista rimos. Silêncio encostou o carro nesse momento e desceu para abrir a porta, com cara de quem não estava entendendo nada. Ambrosinho sorria no momento em que olhou para mim e disse:

Viu só que machinho?

Não sei quanto tempo de vida tenho pela frente, mas já posso afirmar que jamais esquecerei a cena. Sei que vou revê-la sempre, até o dia da minha morte. Como uma maldição.

De repente, o menino voltou a atacar. Agora com os punhos. Golpeou as bolas de Ambrosinho, que, um pouco pela dor e um tanto mais pela surpresa, curvou-se, liberando o braço da mulher.

Detalhe: ele carregava seu Taurus enfiado no cós da calça. E o menino tentou pegar a arma. Os dois se atracaram e Ambrosinho perdeu o equilíbrio e caiu na rua, puxando o menino por cima dele. Achei que era hora de interromper aquilo, antes que alguém se machucasse, e lembro que ainda olhei para Silêncio, que afinal era o guarda-costas de Ambrosinho. Ele continuava parado ao lado da porta aberta do carro, com sua cara magra e feliz.

Foi então que ouvimos o disparo.

A mulher deu um grito e pôs as mãos na frente da boca. Eu puxei o menino pelo braço, tirei-o de cima de Ambrosinho e empurrei para o lado. Deu tempo de ver um pouco de fumaça sair de onde saía o sangue que começava empoçar rápido na calçada. Lembro que pensei: puta merda, o moleque capou o chefe.

Silêncio se agachou ao meu lado e me ajudou a amparar Ambrosinho, que se agarrou assustado em mim.

Eu vou morrer? Eu vou morrer?

Minha idéia era colocá-lo no carro, mas Ambrosinho não permitiu — não queria sujar de sangue o assento. O manobrista pegou o celular e avisou que ia chamar uma ambulância.

Não mexam muito com ele, disse. Pode piorar tudo.

Na hora, aquilo me pareceu o que deveria ser feito. Tanto que deixei Ambrosinho aos cuidados de Silêncio e me levantei. A mulher continuava parada ali, com o menino sob a asa. Ambos paralisados pelo choque.

Vai embora, falei. Some daqui com esse garoto.

Minha voz rompeu o transe. A mulher pegou a mão do filho e se afastou apressada, quase o arrastando. Ele olhou para trás uma vez. Tinha uma expressão decepcionada no rosto.

A ambulância demorou a chegar. Antes, parou ali uma viatura da PM e os policiais levaram Ambrosinho para um pronto-socorro, onde ele deu entrada em estado crítico — o disparo tinha seccionado os vasos femorais. Ainda tentaram transferi-lo para um hospital, porém ele já chegou defunto.

Infelizmente não pude prestigiar o velório nem o enterro. Eu conhecia bem o velho Ambrósio, era capaz de adivinhar quem ele tentaria punir pela morte do filho. Por isso, achei que eu e Silêncio deveríamos sumir por uns tempos, até que as coisas esfriassem, embora, naquela circunstância, as únicas coisas com alguma chance de esfriar fossem os nossos cadáveres.

Ilustração: Ramon Muniz

3
Nem bem ligo o celular, para conferir as mensagens, e o aparelho começa a tocar, o que me assusta a ponto de quase deixá-lo cair no chão. Atendo porque reconheço o número que chama e, em seguida, a voz. Doutor Fontes, mezzo advogado, mezzo conselheiro do velho Ambrósio.

O velho tá muito sentido com você, ele diz. Onde já se viu faltar ao enterro do Ambrosinho?

Tive minhas razões, sei que o senhor entende…

Onde você está?

Olha, doutor, não me leve a mal, mas vou desligar. Não quero ser rastreado.

Deixa de ser paranóico, homem! O velho só quer conversar com você.

Sei.

Ele quer ouvir da sua boca como foi que aconteceu. Só isso. Achamos justo.

Com todo respeito, doutor, data vênia, mas conta outra.

O doutor Fontes dá risada, depois tosse. Demora para recobrar o fôlego. Enfizema.

Escuta: o velho só quer o preto, que falhou em serviço.

Silêncio está dormindo de bruços, vestido apenas com um calção listrado. Sua muito. A mão oculta na certa segura o revólver sob o travesseiro.

Ninguém falhou, foi uma fatalidade.

Venha contar isso pessoalmente pro velho.

Se tem algum culpado nessa história é o próprio Ambrosinho.

Pronto, temos certeza de que o velho vai entender, mente o doutor Fontes.

Silêncio murmura alguma coisa de dentro do sono. Ri. Então abre os olhos e, ainda sem se mover, observa com cautela o mundo ao seu redor, e fica visível que se frustra com o que vê. As cartas do baralho, com as quais jogamos partidas intermináveis, estão espalhadas pelo chão.

Que garantias o senhor pode me dar?

Ele gosta de você como de um filho…

É pouco.

O doutor Fontes reflete por um momento. Silêncio senta na cama e se espreguiça, alonga o corpo esguio, estalam suas juntas.

Mate o preto. Aí, você pode voltar numa boa. Damos a nossa palavra.

Vou pensar.

O velho não tem nada contra você. E não fique achando que não sabemos onde você está, viu?

É?

O doutor Fontes blefa. Conheço a figura e seus métodos.

O submundo fala, você sabe.

Nisso ele tem razão, o submundo fala. E toda informação está disponível. Basta ter paciência. E pagar bem.

Liga pra mim, o doutor Fontes diz.

E me deseja “boa sorte” antes de desligar. Silêncio se levanta para fumar no banheiro.

Era o doutor Fontes, digo.

O que ele queria?

Queria saber se a gente estava precisando de alguma coisa…

Silêncio leva a frase a sério por um segundo. Então sorri do seu jeito comedido, entra no banheiro e fecha a porta.

O som de passos no assoalho do corredor me deixa alerta. Mas logo em seguida ouço a chave abrindo a porta do quarto vizinho ao nosso e relaxo. Quer dizer, até onde pode relaxar um cara na minha situação.

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