Ensaios e Resenhas

julho 2011 / Ensaios e Resenhas / Por uma filosofia da leitura

Texto publicado na edição #136

Por uma filosofia da leitura

Luís Augusto Fischer é um ensaísta à moda antiga. A contraprova dessa afirmação está no livro Filosofia mínima, que acaba […]

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

Luís Augusto Fischer, autor de Filosofia mínima. Foto: Luciana Thomé

Luís Augusto Fischer é um ensaísta à moda antiga. A contraprova dessa afirmação está no livro Filosofia mínima, que acaba de ser publicado pela Arquipélago Editorial. Dividido em quatro partes, o autor disserta sobre a leitura, a escrita, o ensino e a aprendizagem. Que não se pense, no entanto, que os textos concorrem para o lugar-comum de certa prosa acadêmica — sem cheiro, sem gosto, sem sabor, sem vontade de convencer o leitor. Ao contrário, Fischer utiliza as mais de 300 páginas do livro para dissecar esses exercícios intelectuais, que, na contramão dos índices de crescimento econômico e desenvolvimento dos mercados no Brasil, estão cada vez mais fora de moda. Em síntese: num mundo fragmentado, cujos espaços existentes são preenchidos pelas redes sociais, a leitura atenta, reflexiva e de formação é cada vez mais escassa. Curiosamente, alguns dos envolvidos têm apregoado inclusive a adaptação a textos mais breves, curtos, possivelmente mastigados para a compreensão dessa nova geração (Y?) de leitores. Contra essa corrente, Fischer demarca o território e desenvolve uma abordagem particular e coerente com algumas premissas básicas como se verá a seguir.

No texto de apresentação do livro, Flávio Loureiro Chaves dá as credenciais de Fischer, indicando autores cujos textos dialogam com a formação do autor do livro (Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Italo Calvino), assim como destaca o subtítulo programático da obra (ler, escrever, ensinar, aprender). Em dado momento do prefácio, Flávio Loureiro Chaves ilumina a idéia central da filosofia de Luís Augusto Fischer: “Tempo houve em que a tradição humanista irrigou fartamente o pensamento crítico do Brasil meridional; a convivência da literatura traduzia-se na problematização do indivíduo e sua circunstância”. Esse é o argumento-chave da discussão em torno da leitura na atualidade. Evidentemente, é o debate que subjaz à análise dos números sobre letramento no país. Infelizmente, todavia, os intelectuais parecem mais interessados em permanecer na superfície, trocando a densidade da análise pela rendição à sociedade do espetáculo. A rigor, poucos se dispõem a debater a questão da leitura como Fischer faz.

Tomando isso como referência, é necessário, portanto, observar quais são as idéias analisadas por Fischer. Ou, por outra, a partir da certeza de que o autor partilha de princípios tão absolutos no que concerne à leitura e à formação intelectual, cumpre analisar quais são os caminhos trilhados e de que maneira ele realizou essa trajetória. Aqui, a questão do gênero textual é elementar. Ao adotar o formato ensaio como texto exemplar, o escritor não apenas faz referência aos autores que lhe são caros, como Montaigne e Nelson Rodrigues, mas, essencialmente, se apropria do estilo e conduz o leitor passo por passo conforme sua linha de raciocínio. Em outras palavras, ao contrário dos textos jornalísticos ou mesmo dos comunicados das mídias sociais (em que a prosa é, a um só tempo, minimalista e delimitada), nos ensaios que compõem Filosofia Mínima há espaço para o vagar, como um flanêur que percebe a modernidade, como quiseram Baudelaire, na França, e João do Rio, no Brasil. Com efeito, é com a exposição de suas ideias que o autor busca dialogar com o leitor e evidenciar que seus argumentos são os mais precisos — ainda que nem sempre alcance o objetivo planejado.

“Ultrapassado”
Nesse sentido, vale a pena destacar a defesa enfática que faz da boa leitura. Diferentemente de alguns de seus pares que defendem, arduamente, a “inclusão” acima de qualquer coisa, Fischer se dedica a um leitor mais atento e compenetrado, de maneira a torná-lo ainda mais eficaz na compreensão dos textos que lê. Corre o risco, nesse aspecto, de ser qualificado como ultrapassado, sobretudo quando afirma que: “Se você estiver diante de um texto consagrado, um clássico mesmo — Shakespeare, Voltaire ou Machado de Assis, por exemplo —, e acontecer alguma dificuldade na leitura, pode ter certeza que o problema é seu”. Não é preciso ser um estudante de Letras ou de Pedagogia, para saber que esse discurso é considerado, do ponto de vista político, como reacionário por alguns. Em outro ensaio, ainda no segmento leitura, o autor ataca a precariedade da formação dos críticos culturais: “Um crítico de pouca cultura é um estrago grande no meio em que atua, porque dá falsas pistas e extravia a conversa”, da mesma forma como ataca o cerne da questão sobre o estado da arte da cultura brasileira na contemporaneidade:

De que lugar geográfico-histórico provém, em nossos dias, as principais fontes de informação crítica? Pela primeira vez na vida brasileira, na última geração (de 1980 para cá, digamos) a fonte do pensamento crítico, tanto acadêmico quanto jornalístico, é São Paulo. Não mais o Rio de Janeiro, que apenas em parte ainda atua como definidor dos rumos da cultura brasileira por causa da força da Rede Globo, suas telenovelas e seu jornalismo (…).

Por mais óbvia que seja essa constatação, não é todo o dia que os críticos culturais saem da zona de conforto para tratar dessas questões mundanas.

Em contrapartida, se é verdade que suas observações são certeiras e estão bem de acordo com gênero textual escolhido, em alguns momentos o formato e a abordagem simplesmente não funcionam. Isso porque a discussão ora fica por demais particular, ora porque a embocadura do ensaio escapa do autor, e os textos soam demasiadamente professorais. São os elos mais fracos do livro. Evidentemente, Fischer não consegue (e talvez nem queira) se distanciar de sua atividade como docente. Pode-se dizer, contudo, que os ensaios se destacam quando esse discurso de autoridade sai de cena em detrimento da força das idéias e da ilustração literária e racional. Exemplo disso se dá quando explica o conceito de ideologia de forma lúcida e sem que o leitor tome nota de que se trata de uma abstração bem elaborada por parte do escritor.

Nas considerações sobre escrita, para quem espera que o autor simplesmente apresente o “Santo Graal” para a prosa de sucesso, o escritor retoma os princípios básicos que norteiam Filosofia mínima: a importância da leitura (de alguma forma, nota-se que essas duas idéias — da escrita e da leitura — estão bem articuladas, quase que interdependentes na concepção de Fischer). Num texto em especial, o autor aproveita para comentar sobre “escrever e fazer sucesso”. Novamente, enfatiza a diferença entre a escrita voltada para o mercado (ou a que vai ao encontro do gosto já estabelecido), e a escrita que atende a outro projeto literário (a problematização do mundo). No ensaio, Fischer enumera os livros que, de alguma forma, tratam do tema — mas, pelo título, o leitor espera por um texto mais denso a esse respeito. Em tempo: são apresentadas as referências adequadas para quem se interessar.

Em Filosofia mínima, Luís Augusto Fischer defende com ênfase e critério a importância da leitura na formação intelectual, indicando, nos ensaios, de que maneira essa jornada (da leitura) se articula com a escrita, com o ensino e também com o aprendizado. Por vezes, trata-se de um livro que dedica um olhar atento a este ou àquele autor (Lima Barreto e Jorge Luis Borges, por exemplo). O objetivo, no entanto, é mostrar de que forma essas leituras foram capazes de adensar a compreensão de mundo junto ao leitor Luís Augusto Fischer. Em tempos de ultra-especialização acadêmica e de elogio à conveniência e praticidade da leitura pragmática, o autor mostra como o entendimento pode ser privilegiado pela leitura mais complexa e serena dos textos em geral e da literatura em particular.

LEIA ENTREVISTA COM LUÍS AUGUSTO FISCHER.

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LUÍS AUGUSTO FISCHER

Nascido em 1958, é doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira na UFRGS. É autor da novela Quatro negros e do Dicionário de porto-alegrês. Recentemente, publicou, também pela Arquipélago Editorial, Machado e Borges — e outros ensaios e Inteligência com dor – Nélson Rodrigues ensaísta.

Meu apetite para arte de vanguarda é restrito e historicamente marcado. Não é qualquer obra vanguardista que me comove, mesmo porque vanguarda, como já notou agudamente Ricardo Piglia, se transformou em um estilo, no século 20, bem ao contrário do que ela mesma quer fazer crer, isto é, que ela seja um rompimento com algum estilo. (Filosofia mínima)

Luis_Augusto_Fischer_Filosofia_minima_136

Luís Augusto Fischer
Arquipélago
336 págs.