Dom Casmurro

novembro 2012 / Dom Casmurro / Poesia em Berkeley (2)

Texto publicado na edição #151

Poesia em Berkeley (2)

Jacqueline Bialostozky continua a série "Poesia em Berkeley", com seleção de Luiz Ruffato

> Por JACQUELINE BIALOSTOZKY

LEER A BAUDELAIRE
leer a Baudelaire a las 3 de la tarde

reconocerte
entre estanterías
una plaza o aquel café
adonde anacrónicamente iríamos

o llegar
a la página 79

“Voilá le noir tableau qu’en un rêve nocturne”
—realmente 195—
refleja espesas voces

y más
y todavía fuera de tiempo
aun
y sin embargo
te monstruosamente escribo

LER BAUDELAIRE
ler Baudelaire às 3 da tarde

reconhecer-te
entre prateleiras
uma praça ou aquele café
aonde anacronicamente iríamos

ou chegar
à página 79

“Voilá le noir tableu qu’en un rêve nocturne”
— na verdade 195 —
reflete espessas vozes

e mais
e ainda fora de tempo
até
e entretanto
te monstruosamente escrevo

>>>

TEORÍA DE LA MÚSICA
viento dijiste es sólo el canto
o el grito que desciende
desde que éramos dos
niños o niñas por las calles
cuando apenas despertaban
los coches y el pan y me decías
que es lo mismo que estar inmóvil

TEORIA DA MÚSICA
vento disseste é só o canto
ou o grito que desce
desde que éramos dois
meninos ou meninas pelas ruas
quando despertavam apenas
os carros e o pão e me dizias
que é o mesmo que estar imóvel

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VARIATIONS ON SILENCE
Alguien demora en el jardín el paso del tiempo.
Alejandra Pizarnik

memory of decomposed bones passes
through long corridors
shuttering flashes of lilac greens

what will become of my shadow?

filters         water stuck to pieces of bread

open mouth
dried
vestiges of red gnaw
on the cracks
between letters

i am enveloped by delay

someone holds a door
open
the girl who lost her hands signals to the left
a man on his knees bites the marble counter

i gather from the floor
slowly bouncing unmemorable pearls

VARIAÇÕES SOBRE O SILÊNCIO
Alguien demora en el jardín el paso del tiempo.
Alejandra Pizarnik

a memória de ossos decompostos passa
por longos corredores
fatiando raios de verdes lilases

o que será de minha sombra?

filtra      água acumulada em pedaços de pão
boca aberta
seca
vestígios de rubro roer
nas brechas
entre letras

estou selada pela demora

alguém segura uma porta
abre
a garota que perdeu suas mãos sinaliza à esquerda
um homem de joelhos morde o balcão de mármore

eu recolho do chão
pérolas lentas batendo imemoráveis

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ENERO
es el invierno que se pudre
entre la lluviosa curvatura de mis mediodías,
martes anclado a la necesidad de recordarte
a este no ser que se va quedando

JANEIRO
é o inverno que apodrece
na chuvosa curvatura dos meios-dias meus,
terça-feira presa à necessidade de te lembrar
a este não ser que se vai ficando

NOTA
A tradução é do poeta Sebastião Edson Macedo (autor de para apascentar o tamanho do mundo, de 2006, e as medicinas, de 2010), atualmente doutorando em Literatura Brasileira em Berkeley.

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