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junho 2020 / Rodapé / Poemas modernistas (3)

Texto publicado na edição #242

Poemas modernistas (3)

Fragmentação, montagem, síntese, elipse, coloquialidade, humor são traços da poética de Oswald de Andrade

> Por RINALDO DE FERNANDES

Os livros Pau-Brasil (1925) e Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927) concentram a poesia de Oswald de Andrade. No primeiro, conforme Antonio Candido e J. Aderaldo Castello, ao buscar “uma interpretação lírica do seu país” (algo que está na base do movimento nativista Pau-Brasil, lançado por Oswald em 1924), o poeta o faz “através de uma poesia reduzida ao essencial, despojada de artifício, cujo efeito repousa da força sugestiva das palavras”. No segundo livro, “esta pesquisa incorpora a dimensão psicológica, mantendo toda a força humorística”. Fragmentação, montagem, técnica de composição cubista, síntese, elipse, coloquialidade, causticidade, humor, portanto, são traços fortes da poética de Oswald. Vejamos três poemas do livro Pau-Brasil. Tomando as partes de um todo, mas operando com fragmentação e simultaneidade, ao invés da cópia do real (o que remete à composição cubista), é o modo como é composto o poema Traituba (título da fazenda em Minas Gerais onde o imperador Pedro I gostava de caçar): “O sobrado parecia uma igreja/ Currais/ E uma e outra árvore/ Para amarrar os bois/ O pomar de toda fruta/ E a passarinhada/ Juá na roça de milho/ Carros de fumo puxados por 12 bois/ Codorna tucano perdiz araponga/ Jacu nhambu juriti”. Em A transação, vislumbra-se uma (falsa) transição: de um regime econômico para outro; do senhor/proprietário rural que explora a mão de obra escrava (escravismo colonial) e que, permanecendo proprietário, e do mando, sonha em se projetar para o regime de exploração assalariado (relações capitalistas) de economia cafeeira: “O fazendeiro criara filhos/ Escravos escravas/ Nos terreiros de pitangas e jabuticabas/ Mas um dia trocou/ O ouro da carne preta e musculosa/ As gabirobas e os coqueiros/ Os monjolos e os bois/ Por terras imaginárias/ Onde nasceria a lavoura verde do café”. Canto de regresso à pátria, por sua vez, opera uma paródia de A canção do exílio, de Gonçalves Dias. A terra brasileira é vista, por um exilado, como produtiva e produtora de riquezas — terra que “tem mais ouro” e “mais terra”. Terra sem a visão romântica dos afetos, dos laços plenos — porque é uma terra com “quase que mais amores”. E tem ainda a pujança do progresso de São Paulo — isso como índice do capitalismo já instalado no país. O poema, portanto, perpassa uma visão de nacionalismo diferente daquela adotada pelos românticos, que, da natureza, louvavam o que era exuberante, demasiado, copioso: “Minha terra tem palmares/ Onde gorjeia o mar/ Os passarinhos daqui/ Não cantam como os de lá/ Minha terra tem mais rosas/ E quase que mais amores/ Minha terra tem mais ouro/ Minha terra tem mais terra/ Ouro terra amor e rosas/ Eu quero tudo de lá/ Não permita Deus que eu morra/ Sem que volte para lá/ Não permita Deus que eu morra/ Sem que volte pra São Paulo/ Sem que veja a Rua 15/ E o progresso de São Paulo”.

 

 

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