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abril 2020 / Rodapé / Poemas modernistas (1)

Texto publicado na edição #240

Poemas modernistas (1)

Drummond é um poeta do presente histórico, do homem e sua solidão

> Por RINALDO DE FERNANDES

A poética de Carlos Drummond de Andrade se pauta, em um de seus pontos altos, pelo sentimento do mundo. Sentimento do homem inserido na História. Drummond é um poeta do presente histórico, do homem e sua solidão, do indivíduo e seus artifícios para estabelecer minimamente uma comunicação com o outro. O metalinguístico Mãos dadas, de Sentimento do mundo (1940), é um poema que se abastece com o presente histórico (com “a vida presente”) e que louva a alteridade — um estar-no-mundo que considera o outro, que o inclui como um valor inestimável: “Não serei o poeta de um mundo caduco./ Também não cantarei o mundo futuro./ Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças./ Entre eles, considero a enorme realidade./ O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.// Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,/ não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,/ não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,/ não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins./ O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente”.

Sentimental, também de Drummond e que integra Alguma poesia (1930), flagrando um instante de efusão de um eu-lírico apaixonado, trata ainda da invasão opressiva de um sistema que atinge o sentimento e a consciência do indivíduo. O verso “Neste país é proibido sonhar” deflagra uma crítica corrosiva do poeta a uma situação que engessa e/ou inviabiliza a liberdade do ser: Ponho-me a escrever teu nome/ com letras de macarrão./ No prato, a sopa esfria, cheia de escamas/ e debruçados na mesa todos contemplam/esse romântico trabalho.// Desgraçadamente falta uma letra,/uma letra somente/ para acabar teu nome!? Estás sonhando? Olhe que a sopa esfria!// Eu estava sonhando…/ E há em todas as consciências este cartaz amarelo:/ ‘Neste país é proibido sonhar’”.

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