Dom Casmurro

fevereiro 2017 / Dom Casmurro / Poemas de Wendell Berry

Texto publicado na edição #202

Poemas de Wendell Berry

Além de poeta, Berry é ecologista, ativista e romancista

> Por André Caramuru Aubert

Wendell Berry, poeta norte-americano

Wendell Berry, poeta norte-americano

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Nascido numa fazenda no interior de Kentucky, Wendell Berry (1934) tentou seguir carreira literária em Nova York, mas não aguentou ficar muito tempo longe de sua terra natal. Ele vive no campo, de onde só costumava sair para ir até a Universidade de Kentucky, onde foi professor de inglês. Além de poeta, Berry é ecologista, ativista e romancista. Sua obra fala de relações humanas, questões políticas e, principalmente, de natureza.

The cold

How exactly good it is
to know myself
in the solitude of winter,

my body containing its own
warmth, divided from all
by the cold; and to go

separate and sure
among the trees cleanly
divided, thinking of you

perfect too in your solitude,
your life withdrawn into
your own keeping

— to be clear, poised
in perfect self-suspension
toward you, as though frozen.

And having known fully the
goodness of that, it will be
good also to melt.
O frio

Quão exatamente bom é
saber quem sou
na solidão do inverno,

meu corpo contendo seu próprio
calor, separado de tudo o mais
pelo frio; e seguir

à parte e seguro
entre árvores limpidamente
separadas, pensando em você,

também perfeita em sua solidão,
sua vida apartada para dentro
de sua própria conservação

— para ser claro, equilibrada
em perfeita auto suspensão
voltada a você, como se congelada.

E tendo conhecido plenamente a
benevolência dele, será,
igualmente bom, derreter.

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The familiar

The hand is risen from the earth,
the sap risen, leaf come back to branch,
bird to nest crotch. Beans lift
their heads up in the row. The known
returns to be known again. Going
and coming back, it forms its curves,
a nerved ghostly anatomy in the air.
O que é familiar

A mão se eleva desde a terra,
a seiva elevada, a folha de volta ao galho,
o pássaro, à proteção do ninho. Grãos erguem,
em linha, suas cabeças. O que se conhecia
regressa para ser novamente conhecido. Indo
e vindo, desenhando suas curvas,
uma revigorada e fantasmagórica anatomia no ar.

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A song sparrow singing in the fall

Somehow it has all
added up to song —
earth, air, rain and light,
the labor and the heat,
the mortality of the young.
I will go free of other
singing, I will go
into the silence
of my songs, to hear
this song clearly.
Um pardal-americano cantando no outono

De alguma maneira, está tudo
dentro da canção —
terra, ar, chuva e luz,
o trabalho e o calor,
a mortalidade dos jovens.
Eu seguirei livre de outros
cantos, seguirei para
dentro do silêncio
de minhas músicas, para
ouvir com clareza esta música.

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To Gary Snyder

After we saw the wild ducks
and walked away, drawing out
the quiet that had held us,
in wonder of them and of ourselves,
Den said, “I wish Mr. Snyder
had been here.” And I said, “Yes.”
But it cannot be often as it was
when we heard geese in the air
and ran out of the house to see them
wavering in long lines, high,
southward, out of sigh.
By division we speak, out of wonder.
Para Gary Snyder

Depois que vimos os patos selvagens
e fomos embora, processando
o silêncio que nos sustentava,
o pensamento nos patos e em nós,
Den falou: “Eu gostaria que Mr. Snyder
estivesse aqui.” E eu respondi: “Sim.”
Mas as coisas não podem ser, sempre, como foram
quando ouvimos os gansos no ar
e corremos para fora da casa para vê-los
a flutuar em longas linhas, bem alto,
rumo ao sul, desaparecendo.
Separados nós falamos, sem espanto.

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Falling asleep

Raindrops on the tin roof.
What do they say?
We have all
Been here before.

Caindo no sono

Pingos de chuva no teto de zinco.
O que eles dizem?
Nós todos já
Estivemos aqui.

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A meeting

In a dream I meet
my dead friend. He has,
I know, gone, long and far,
and yet he is the same
for the dead are changeless.
They grow no older.
It is I who have changed,
grown strange to what I was.
Yet I, the changed one,
ask: “How you been?”
He grins and looks at me.
“I been eating peaches
of some mighty fine trees.”
Um encontro

Encontro, num sonho,
um amigo morto. Ele se foi,
eu sei, há tempos, para longe,
mas ainda é o mesmo,
pois os mortos não mudam.
Não envelhecem.
Fui eu quem mudei, me
tornando um estranho diante de quem fui.
Ainda assim, eu, o que mudou,
pergunto: “Como você tem passado?”
Ele sorri e olha para mim.
“Eu tenho comido pêssegos
de algumas belas e fortes árvores.”

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Tu Fu

As I sit here
in my little boat
tied to the shore
of the passing river
in a time of ruin,
I think of you,
old ancestor,
and wish you well.
Tu Fu

Enquanto aqui sentado
em meu barquinho
amarrado à margem
do rio que corre
em tempos de desgraça,
eu penso em você,
velho ancestral,
e lhe desejo felicidades.

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October 10

Now constantly there is the sound,
quieter than rain,
of the leaves falling.

Under their loosening bright
gold, the sycamore limbs
bleach whiter.

Now the only flowers
are beeweed and aster, spray
of their white and lavender
over the brown leaves.

The calling of a crow sounds
loud — a landmark — now
that the life of summer falls
silent, and the nights grow.
10 de outubro

Agora o tempo todo este som,
mais silencioso que a chuva,
das folhas caindo.

Sob seu dourado brilho
a dissipar-se, os galhos dos plátanos
se mancham de branco.

Agora as únicas flores são
os ásteres azuis e as margaridas, que borrifam
seus brancos e suas lavandas
por sobre as folhas marrons.

O chamado de um corvo faz
barulho — um ponto de referência — agora
que a vida do verão mergulha no
silêncio e as noites se alongam.

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