Dom Casmurro

junho 2017 / Dom Casmurro / Poemas de Robert Hass

Texto publicado na edição #206

Poemas de Robert Hass

Sete poemas de Robert Hass

> Por André Caramuru Aubert

Tradução: André Caramuru Aubert

The bus to Baekdam Temple

The freeway tracks the Han River, which flows
west out of the mountains we are heading toward.
This morning it is river-colored, gray-green,
streaked with muddy gold, and swift. August,
an overcast morning after rain, the sky one shade
of pearl and the sheen of the roadside puddles
is so empty it seems to steady the world
like the posture of zealous young monks.
O ônibus para o Templo de Baekdam

A rodovia segue o rio Han, que corre
para o oeste das montanhas para onde vamos.
Nesta manhã ele está com a cor-de-rio, cinza-verde,
listado de barro dourado, e ligeiro. Agosto,
manhã encoberta depois da chuva, o céu uma sobra
perolada e o brilho das poças na beira da estrada
é tão vazio que parece estabilizar o mundo,
imitando a postura de jovens e zelosos monges.

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Forty something

She says to him, musing, “If you ever leave me,
and marry a younger woman and have another baby,
I’ll put a knife in your heart.” They are in bed,
so she climbs onto his chest, and looks directly
down into his eyes. “You understand? You heart.”
Quarenta e poucos

Ela fala pra ele, pensativa, “Se você algum dia me deixar,
e se casar com uma mulher mais nova e tiver mais um filho,
eu vou enfiar uma faca no seu coração.” Eles estão na cama,
ela fica sobre o peito dele e o olha bem dentro
dos olhos. “Você entendeu? No seu coração.”

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The yellow bicycle

The woman I love is greedy,
but she refuses greed.
She walks so straightly.
When I ask her what she wants,
she says, “A yellow bicycle.”
*
Sun, sunflower,
coltsfoot on the roadside,
a goldfinch, the sign
that says Yeld, her hair,
cat’s eyes, his hunger
and a yellow bicycle.
*
Once, when they had made love in the middle of the night and it was very sweet, they decided they were hungry, so they got up, got dressed, and drove downtown to an all-night donut shop. Chicano kids lounged outside, a few drunks, and one black man selling dope. Just at the entrance there was an old woman in a thin floral print dress. She was barefoot. Her face was covered with sores and dry peeling skin. The sores looked like raisins and her skin was the dry yellow of a parchment lampshade ravaged by light and tossed away. They thought she must have been hungry and, coming out again with a white paper bag full of hot rolls, they stopped to offer her one. She looked at them out of her small eyes, bewildered, and shook her head for a little while, and said very kindly, “No.”
*
Her song to the yellow bicycle:
The boats on the bay
have nothing on you,
my swan, my sleek one!
A bicicleta amarela

A mulher que eu amo é gananciosa,
mas recusa a ganância.
Ela caminha tão firme.
Quando pergunto o que ela deseja,
Ela responde, “Uma bicicleta amarela.”
*
Sol, girassol,
margarida na beira do caminho,
um pintassilgo, a placa
que diz Dê a preferência, o cabelo dela,
olhos de gato, o apetite dele
e uma bicicleta amarela.
*
Uma vez, quando fizeram amor no meio da noite e foi algo muito doce, eles concluíram que estavam com fome, de modo que se levantaram, puseram uma roupa e dirigiram até o centro, para uma lanchonete. Garotos mexicanos vagueavam do lado de fora, alguns deles bêbados, e havia um negro vendendo erva. Bem na porta havia uma velha com um vestido leve com estampa de flores. Ela estava descalça. Sua face era coberta por feridas e pele ressecada. As feridas lembravam uvas-passas e a pele tinha o tom amarelado de um velho abajur desgastado pela luz e jogado fora. Eles acharam que ela devia estar faminta, e na saída, com uma sacola de papelão branco repleta de enroladinhos, pararam para oferecer um a ela. Ela olhou para eles com seus olhos miúdos, perplexa, sacudiu um pouco a cabeça e respondeu muito educadamente, “Não.”
*
A canção dela para a bicicleta amarela:
Os barcos na baía
nada têm com você,
meu cisne, meu ser elegante!

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Iowa, January

In the long winter nights, a farmer’s dreams are narrow.
Over and over, he enters the furrow.
Janeiro em Iowa

Nas longas noites de inverno, são estreitos os sonhos do fazendeiro.
De novo e de novo, ele cava os sulcos.

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The distribution of happiness

Bedcovers thrown back,
Tangled sheets,
Lustrous in moonlight.

Image of delight
Or longing,
Or torment,

Depending on who’s
Doing the imagining.

(I know: you are the one
Pierced through, I’m the one
Bent low beside you, trying
To peer into your eyes.)
A distribuição da felicidade

Colchas arrancadas,
Lençóis amarfanhados,
Brilham sob o luar.

A imagem do deleite
Ou da saudade,
Ou do tormento,

Depende de quem
Está imaginando.

(Eu sei: você é aquela
Que foi penetrada, eu sou o que
Está encolhido ao seu lado, tentando
Olhar dentro dos seus olhos).

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Sonnet

A man talking to his ex-wife on the phone.
He has loved her voice and listens with attention
to every modulation of its tone. Knowing
it intimately. Not knowing what he wants
from the sound of it, from the tendered civility.
He studies, out of the window, the seed shapes
of the broken pods of ornamental trees.
The kind that grow in everyone’s garden, that no one
but horticulturists can name. Four arched chambers
of pale green, tiny vegetal proscenium arches,
a pair of black tapering seeds bedded in each chamber.
A wish geometry, miniature, Indian or Persian,
lovers or gods in their apartments. Outside, white,
patient animals, and tangled vines, and rain.

Soneto

Um homem conversa com sua ex-mulher ao telefone.
Ele amava a voz dela e escuta com atenção
cada variação de tom. Que ele conhece
profundamente. Sem saber o que quer
do som daquela voz, daquela civilidade ofertada.
Ele observa, do lado de fora da janela, o formato de semente
das vagens rompidas das árvores ornamentais.
Das que crescem em todos os jardins, e que ninguém,
exceto os paisagistas, sabem o nome. Quatro câmaras arqueadas
de um verde claro, pequenos palcos verdes e arqueados,
um par de sementes pretas e pontiagudas abrigadas em cada câmara.
Uma geometria do desejo, da Índia ou da Pérsia,
amantes ou deuses em seus apartamentos. Lá fora, o branco
animais resignados, e trepadeiras emaranhadas, e chuva.

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Our Lady of the Snows

In white,
the unpainted statue of the young girl
on the side altar
made the quality of mercy seem scrupulous and calm.

When my mother was in a hospital drying out,
or drinking at a pace that would put here there soon,
I would slip in the side door,
light an aromatic candle,
and bargain for us both.
Or else I’d stare into the day-moon of that face
and, if concentrated, fly.

Come down! come down!
she’d call, because I was so high.

Though mostly when I think of myself
at that age, I am standing at my older brother’s closet
studying the shirts,
convinced that I could be absolutely transformed
by something I could borrow.
And the days churned by,
navigable sorrow.

Nossa Senhora das Neves

De branco,
a estátua sem pintura da garota bem nova
no altar lateral
fez a essência da misericórdia parecer escrupulosa e calma.

Quando minha mãe estava murchando num hospital,
ou bebendo num ritmo que logo a levaria àquele ponto,
eu me esgueirava pela porta lateral,
acendia uma vela aromática,
e pechinchava por nós dois.
Ou então eu fitava aquela face com cara de lua
e, se me concentrasse, voava.

Desça já daí! desça já daí!
Ela gritava, porque eu subia muito alto.

Na maior parte das vezes, porém, quando penso em mim
naquela idade, estou parado diante do armário do meu irmão mais velho
analisando suas camisas,
convencido de que eu poderia ser totalmente mudado
por algo que tomasse emprestado.
E os dias passando, agitados, em
navegável tristeza.

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